Com 38 anos de idade e atuando no mercado moveleiro desde os 16, Jader Almeida conhece de perto todas as etapas da operação industrial. O profissional acredita que sua criatividade vem da junção de pesquisa alinhada ao estudo e trabalho. Por Allaf Barros.

Jader Almeida é expoente quando se fala em mobiliário brasileiro contemporâneo. O arquiteto e designer teve contato com a indústria e mergulhou no universo da linha de montagem muito cedo. Desde 2004 desenvolve produtos exclusivos, tendo como principal parceira a marca Sollos, de Santa Catarina. Em 2013, passou a integrar a equipe de designers da marca alemã ClassiCon. Seu escritório também assina produções efêmeras de arquitetura. Em entrevista exclusiva à revista aU, Jader fala sobre sua carreira e sua forma de trabalhar. Confira a seguir.

Quando e como decidiu se tornar arquiteto e urbanista?

Eu sempre fui um bom geômetra, um bom matemático e um bom aluno de história, desde o ginásio. E a providência — se alguém pode dizer alguma coisa — quis que eu conhecesse um colega de classe que mais tarde fiquei sabendo quem era. Em meados de 1958, eu costumava passar as férias em Itanhaém, litoral paulista, e sempre gostava de ver o trem chegar e partir, coisas de moleque. E uma vez vi um prédio que tinha uma estrutura linda. Chegando em casa, perguntei ao meu pai o que era aquilo e ele disse que era um prédio de arquitetura. Fiquei intrigado em entender o que o arquiteto fazia e fui percebendo o que era. A minha brincadeira à tarde era pegar car

Onde e como você percebeu sua vocação para a arquitetura e especialmente para o design?

Desde criança, quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescer, eu já tinha a convicção de que queria ser engenheiro, estilista ou qualquer coisa relacionada a desenho… Eu falava engenharia porque não tinha noção do que era arquitetura. Então esse interesse juvenil misturou-se com a descoberta do design. Aos 16 anos trabalhei em uma fábrica de móveis, e percebi que esse era o caminho que eu queria seguir.

Qual o maior ensinamento que aprendeu durante a faculdade?

Ingressei na UnoChapecó e em 2008 fui graduado Arquiteto e Urbanista pela Faculdade Assis Gurgacz. Como eu trabalhava o dia todo e o curso era em período integral, fazia as matérias conforme conseguia, porque a faculdade sempre foi paralela ao trabalho, assim, levei 8 anos. Eu já era profissional na época da graduação e tinha muitas responsabilidades, então tinha que conciliar as duas coisas. Mas, para mim, foi ótimo. O que eu aprendia fazia sentido imediato, porque unia a teoria à prática.

Você iniciou sua carreira dentro de uma fábrica de móveis. De que maneira a experiência na linha de montagem contribuiu para a concepção de objetos viáveis do ponto de vista industrial?

Na primeira fábrica que eu trabalhei, da qual um primo era o gerente industrial, eu descobri toda a complexidade do trabalho industrial. São várias pessoas fazendo diversos serviços… Comecei trabalhando no setor de montagem, depois passei por vários outros setores desde máquinas de corte, usinagem, transformação etc… Após certo período, passei a elaborar os protótipos e gabaritos, transformando os desenhos que chegavam à fábrica em protótipos. Depois passei a elaborar também o dossiê de cada produto. Isso foi importante para eu entender o porquê das coisas.

Quais são seus interesses além da arquitetura e do design? Esses interesses acabam se conectando com sua produção de alguma forma?

Gosto de viajar. Chego nas cidades e saio para caminhar, tomar um café. Andando pelas ruas capto a energia, entendo o modo de vida das pessoas, me pego fotografando fechaduras, fachadas, detalhes prosaicos que contam histórias.

De onde vem suas referências e inspirações na hora de criar uma peça?

Minha inspiração é o mundo, as pessoas, todas as coisas todo o contexto. Soa um pouco redundante, mas, talvez seja mesmo. Quanto mais pesquiso, estudo e trabalho, mais criativo eu fico, acredito que seja pelo fato de criar uma base de energia criativa que as coisas se multiplicam. Para mim, muito da inspiração está associada ao ato de fazer. Costumo dizer que as referências estão em todos os lugares. Muitas vezes me pego observando a dobradiça de um par de óculos, não apenas pela estética, mas sim pela solução construtiva. Para mim tudo se conecta de alguma maneira e, no momento de desenhar algo, tudo isso está no subconsciente e de alguma forma faz sentido e contribui para algo. Também gosto de salientar a escala e proporção, talvez essa seja a tônica dos meus projetos. Sabe aquela sensação de aconchego, da vontade de tocar, usar? Isso é algo que busco e conduz meus pensamentos projetuais, o que resulta naquele produto silencioso que cumpre todas suas funções sejam elas prosaicas ou poéticas.

Quais são os parâmetros utilizados durante a concepção de suas peças para a escolha dos materiais empregados?

Utilizo uma ampla gama para enriquecer os produtos e amplificar as interpretações e sensações e também em alguns casos possibilitar um novo olhar. No que diz respeito aos materiais, propomos olhar para o que já existe sob outro ângulo. Muitas vezes todas as respostas estão nas nossas mãos, mas acostumamos a buscar longe. Por isso este eterno olhar para dentro e a pergunta: o que podemos melhorar? 

Em que medida seus projetos levam em consideração os sistemas de produção e o ciclo de vida dos produtos?

Um pensamento acerca de um produto ou de um sistema será materializado utilizando as possibilidades tecnológicas daquele momento, como também a interpretação do que acontece no mundo. A partir deste ponto de vista, um produto representa absolutamente um desenvolvimento cultural, afinal o objeto transmite o pensamento de determinado grupo naquele momento. Acredito que as gerações futuras perceberão essa mudança de pensamento, que somos uma indústria com tecnologia e não apenas um catalisador de outras culturas.

Em que medida é incorporado em seus projetos aspectos contemporâneos como parametrização, reuso de materiais, etc.?

Através do uso racional da madeira como matéria-prima, do controle dos processos e métodos de produção em concordância com todos os requisitos ecológicos e do investimento em equipamentos de última geração aliados a técnicas artesanais.

O que é mais importante: continuar criando ou ressignificar o que já está posto?

Penso que cada um tem seu valor, individual. Desde meus 16 anos de idade estou “dentro de fábricas”, então meu pensamento sobre design sempre, de algum modo, é associado à indústria.

O que você pensa sobre a democratização do produto?

Isso é uma estratégia de marca, um posicionamento.

É possível que uma peça assinada seja democratizada sem ser vítima da cópia desenfreada ou da perda de qualidade do material?

Quando se rompem alguns paradigmas, como já dito anteriormente, inevitavelmente terão seguidores. No entanto, costumo dizer que a cópia é um problema que afeta todos os campos em todos os países e culturas, e isso é um longo e complexo assunto. A pesquisa e a continuidade, sem frivolidades, são uma receita bem-sucedida. Manter o foco no próprio trabalho já é algo que atesta a autenticidade. Já do ponto de vista econômico, industrial e comercial, tentamos “educar o olhar” do consumidor, do nosso consumidor, para que não seja induzido ao erro por coisas similares.

Alguns estilistas renomados assinam peças para lojas de departamento com preços mais acessíveis. Você acha que essa ação seria possível para o mobiliário?

Sim. É preciso, no entanto, que o produto seja honesto, como fala um dos mandamentos do design de Dieter Hans, ou seja, o produto deve falar por si, não enganar o usuário, o design não deve manipular o consumidor com promessas que não possam ser mantidas.

O que é conforto para você?

Considerando vários aspectos, todos os produtos são criados para um fim, para o ser humano manipular, se relacionar com os objetos, pode ser uma caneta, um automóvel, uma cadeira. Nesta perspectiva, não diria apenas que o corpo é o dispositivo principal, mas a maneira de se relacionar e interagir com as situações. Antigamente eu falava que uma cadeira é o material mais próximo do corpo, portanto demandava muito mais atenção, mas hoje tenho uma percepção mais abrangente, porque acredito que qualquer objeto se relaciona diretamente com as pessoas. O desafio de um designer está muito mais pautado na questão das proporções em todos os sentidos para oferecer conforto ao usuário.

E inovação em Design?

Para mim, penso o meu trabalho a inovação sem revolução, uma surpresa sem ser chocante, uma adição de camadas constantes. Essa é a filosofia da empresa, pautada na elegância, na atemporalidade, na criação de produtos para viajar no tempo. A desmaterialização das coisas orbita dentro desta ótica, do uso das ferramentas disponíveis para fazer com que o produto e a ideia sejam aprimorados dentro dos padrões contemporâneos tecnológicos, porém pensando sempre de forma mais romântica: “se queres conhecer o futuro, olhe para o passado”, ou seja, sem passado não há futuro, são pontos que se ligam para formar o presente.

De todas as peças icônicas e premiadas que você já assinou, qual revela melhor quem é o Jader Almeida? Por quê?

Uma das peças de que eu mais gosto é o cabideiro Loose. Gosto muito também da cadeira Easy e da poltrona Mirah. Não temos, na cultura brasileira, o hábito de usar cabideiros ou mancebos dentro de casa, então, para mim, o Loose foi algo interessante, já que agora vejo ele em uso em muitas casas. Gosto dele não só por seu aspecto funcional, de atender a uma necessidade, mas, também, por ser um objeto instigante, com um apelo estético que transcende seu uso. Queiramos ou não, todo objeto interfere na nossa vida, ele está compondo um espaço, está transmitindo alguma coisa. No meu ponto de vista, os objetos têm que transmitir calma, segurança, prazer ou trazer informações que nos façam lembrar de coisas boas…

Matéria publicada originalmente na revista aU.

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