“É emergencial a gente se conectar com a terra”, canta o músico brasileiro Marcelo Jeneci na abertura do seu último álbum lançado em julho passado. A designer Maria Fernanda Paes de Barros parece ter escutado em seu coração esse mantra há anos. Por Allaf Barros.

Formada em administração, foi ainda durante a graduação que Maria Fernanda percebeu que sua praia era outra. No currículo, ela traz cursos na área de decoração, design de mobiliário e atua na criação de peças únicas, com coleções anuais, além de curadoria e desenvolvimento para marcas. Em 2014, voltou-se intensamente para pesquisar cultura indígena e criou a Yankatu, palavra que na crença do povo Kamayurá significa a nossa terceira alma, nossa essência. No início deste ano, o projeto de Maria Fernanda foi convidado como empresa de impacto social para apresentar sua história e trabalho no hall principal da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), em Genebra, na Suíça. Acompanhe abaixo uma entrevista exclusiva na qual a designer fala sobre carreira, inspiração, a riqueza que é o trabalho do artesão brasileiro e suas experiências com povos indígenas.

Quando descobriu suas inclinações para o Design?

Ainda na faculdade de administração de empresas, descobri que meu caminho era outro: fiz o projeto de um apartamento inteiro, incluindo detalhes de gesso, paginação de piso e desenhos de marcenaria sem nunca ter estudado a respeito. A partir dali, iniciei o trabalho com design de interiores, que durou mais de 20 anos.

Quais são sua referências na área?

Me formei em administração de empresas em 1992, fiz cursos livres de decoração na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado) e na EPA (Escola Panamericana) em 1993 e em 2014 voltei à EPA para o curso de design de mobiliário. Amo ler, viajar e me conectar com as pessoas de verdade, pesquiso muito sobre tudo o que me interessa, acredito que esta seja minha maior escola.

Quem você admira?

Eu sou uma admiradora dos artesãos, em especial os brasileiros. São pessoas sensíveis, que transformam aquilo que as rodeia em arte utilizando saberes que lhes foram passados através de gerações. Artistas resilientes, que lutam contra as adversidades para poderem continuar fazendo aquilo que amam. Posso citar vários nomes, mas tenho receio de esquecer algum, para mim são todos importantes, cada um na sua arte, com sua técnica e o domínio da natureza ao seu redor.

Como e quando começou o projeto Yankatu? E por quê?

A Yankatu começou em 2014, quando criei o Buffet Tribos, inspirado no artesanato e na cultura indígena, para o projeto de conclusão de curso. Naquele momento me dei conta que sou brasileira e amo ser brasileira, que admiro minha terra, meu povo, minha cultura e que precisava mostrar para os outros as belezas que possuímos aqui. Mostrar que o artesanato brasileiro é incrivelmente rico, que pode e deve ser usado em ambientes elegantes e não apenas nas casas de praia e campo, ou ser uma compra apenas uma recordação de viagem. Mostrar não apenas a beleza exterior, mas principalmente a interior. Contar a minha história e as histórias por trás das peças, quem as fez, como as fez, que materiais usou, onde mora, como vive e o que pensa. Criar peças que tragam um pouco da nossa cultura para dentro de casa e passem de geração em geração, como o artesanato brasileiro. Daí a importância da “alma”, o pequeno caderno que acompanha as peças, da madeira maciça e do esmero no acabamento.

Como se dá sua pesquisa junto a essas culturas indígenas?

Procuro chegar aos lugares como um papel em branco, não quero levar o que sei, li ou ouvi sobre a comunidade, artesão ou
técnica, quero viver com eles os processos, escutar deles as histórias, os “porquês” e “comos”, quero me emocionar, descobrir, perguntar. Nesses momentos fotografo tudo que me chama a atenção, mesmo que aparentemente não faça sentido, escrevo também o que me vem à mente, sobre o que vi, ouvi e senti. Só depois dessa etapa é que inicio a minha pesquisa, sempre tendo como base o respeito à vida das pessoas que conheci e suas histórias. Procuro me colocar no lugar do outro e não julgar, afinal o que para mim pode ser normal, para ele pode ser um absurdo, e vice-versa, pois cada um foi criado num contexto e cultura diferente, apesar de vivermos no mesmo país.Sou também muito transparente, falo o que penso e sinto de forma espontânea e acredito que essa minha maneira de ser ajuda a criar um vínculo de confiança.

Com quais grupos e comunidades você costuma trabalhar? Como é feito o primeiro contato?

Não há grupos ou regiões específicas que eu procure, já trabalhei no sul de Minas, em Tiradentes e no Vale do Jequitinhonha, viajei para a Paraíba atrás do algodão orgânico, desenvolvi um projeto lindo no oeste do Pará e agora estou no Alto Xingu. Costumo dizer que sou escolhida ao invés de escolher, a verdade é que todos estes lugares aconteceram conforme fui caminhando. O primeiro projeto em Minas surgiu quando estava procurando um livro e esbarrei com a Mayumi Ito no A CASA Museu do objeto brasileiro, em São Paulo. O projeto que estou desenvolvendo no momento, com a aldeia Kaupüna, da etnia Mehinako, surgiu no final de 2019, quando o artista Kulikyrda esteve em SP por uma semana e me procurou para ajudá-lo a vender suas obras. No caminho de volta para o Xingu ele foi me contando sua viagem e antes de perder o sinal do celular me disse: “bem que você poderia vir conhecer a aldeia”. Na mesma hora soltei um “vou adorar” e uma semana depois ele reapareceu no whatsapp perguntando que dia eu chegaria e dizendo que já havia falado com seu pai, o cacique, e que sua mãe iria fazer o ritual das mulheres para me receber. Não pensei duas vezes, olhei a agenda, verifiquei a melhor forma de chegar lá e fui!

Como fica a questão da autonomia da comunidade nos projetos?

Um dos propósitos da Yankatu é valorizar aquilo que o artesão já faz, sua tradição. A ideia é criar peças que somem nossos trabalhos, mas mantenham absolutamente claras as nossas identidades, portanto procuro não interferir naquilo que o artesão irá criar. É claro que ao inserir novos materiais, como por exemplo quando levei placas circulares de madeira com pequenos rasgos para os artesãos de Urucureá começarem a trançar a partir delas, houve uma intervenção, fizemos experiências juntos, dei palpites e eles também, mas a partir do momento em que descobrimos a melhor forma de fazer esta união entre a madeira e a palha eles ficaram livres para criar os desenhos, a composição das cores, etc. Eu falo que são eles que me capacitam, afinal eu não entendo nada da técnica que eles dominam e fazem parecer tão simples.

Elas são capacitadas para empreender também?

Eu contribuo com esse novo olhar, com a mudança do ponto de vista que liberta a criatividade deles para utilizarem seus conhecimentos e ampliarem seus horizontes. Colaboro também na formação de preço e na maneira de expor o produto e contar sua história. Explico a diferença entre ser caro e ser justo, que uma peça cuja palha demora 5 horas para tingir não pode ter o mesmo preço de outra cuja palha leva 2 dias e ainda por cima depende do sol, pois sem ele o trabalho é perdido. E por aí vai, cada caso é um caso, depende da necessidade de cada um e o que ele está aberto a ouvir naquele momento.

Conte-nos sobre seu processo de criação das peças.

Quando volto para meu estúdio e galeria em São Paulo, abro toda a bagagem que trouxe comigo da viagem, as peças que adquiri, as fotos que tirei, as palavras e textos que escrevi, mergulho novamente naquele universo, só que desta vez munida de lápis e papel. Aprofundo as pesquisas sobre as tradições que encontrei, os biomas onde elas se encontram, as coisas que aconteceram por ali do ponto de vista antropológico, histórico e cultural. Salvo imagens sobre o que descobri e escrevo mais um pouco, para só então começar a desenhar. No início são rabiscos que acompanham curvas de rios, contornos de rostos, tentativas de reprodução das imagens captadas pelas lentes ou a tradução de um texto em imagem. Aos poucos estes rabiscos vão tomando forma, algumas palavras começam a se tornar constantes nos meus pensamentos e nos sentimentos que os desenhos evocam, até que num determinado momento, sem aviso prévio, os desenhos tomam a forma de peças de mobiliário, luminárias, objetos e arte. Só depois desta liberdade criativa é que volto ao meu centro e repenso medidas, materiais, acabamentos, logística de produção e transporte, viabilidade de execução e custos.

Como elas são pensada e executadas?

Sou detalhista ao extremo e tudo na peça precisa fazer sentido e estar dentro do propósito da Yankatu. Prezo pelo melhor acabamento possível e pelo uso de madeira maciça. Como quero mudar a maneira como a sociedade enxerga o artesanato brasileiro a execução da peça é para mim tão fundamental quanto toda a pesquisa feita e o trabalho desenvolvido junto aos artesãos. Toda a parte de marcenaria é executada por luthiers no interior de São Paulo, que me ajudam a construir as peças como a precisão que dedicam a um instrumento musical. Assim, a imperfeição do artesanato, que é o que o torna único e tão especial, ganha uma moldura à altura da sua beleza.

Como foi ter participado como empresa de impacto social para apresentar sua história e trabalho, no hall principal da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) em Genebra, na Suíça?

Foi emocionante! Naquele momento me dei conta de tudo que já fiz, do alcance que meu trabalho tem e como posso utilizar tudo isso para fortalecer, evidenciar e dar voz aos artesãos e ao artesanato brasileiro. Fiquei impressionada com a receptividade do olhar estrangeiro para a cultura brasileira. Adoraria que todos os brasileiros tivessem este mesmo olhar para aquilo que é nosso. O apoio da embaixadora do Brasil em Genebra, Susan Kleebank, foi essencial. Ela nos apresentou a pessoas de diferentes partes do mundo, marcou reuniões para podermos contar mais a respeito de nossos trabalhos, das possibilidades que o artesanato brasileiro oferece e da importância de sua sustentabilidade econômica e social. Não tenho nem palavras para agradecer essa oportunidade. A Yankatu era a única empresa privada ao lado de instituições como o A CASA Museu do objeto brasileiro que tanto admiro, de projetos do Instituto Renato Imbroisi e de corporações de artesãs autônomas, reforçando que é possível trabalharmos em prol de uma sociedade justa.

Quais são os projetos em andamento?

Nesse momento estou desenvolvendo o projeto Xingu, com a aldeia Kaupüna, da etnia Mehinako. Passei uma semana com eles em dezembro e a ideia era retornar no final de abril para trabalharmos juntos nas peças. Infelizmente isso não foi possível, então demos um jeito do projeto continuar andando mesmo assim. Pedi ao Kulikyrda Mehinako que recolhesse folhas, flores, frutos e cascas das árvores e outras plantas utilizadas na construção das ocas e bancos, nas peças de artesanato, nas pinturas e rituais. Toda essa matéria-prima foi enviada para a Mattricaria, em Brasília, onde a Maibe Maroccolo fez uma pesquisa para extrair os pigmentos tintórios e assim criamos a cartela de cores do Xingu, tingindo os fios que serão usados na confecção das peças que estão nascendo desta história. Como não consegui estar com eles pessoalmente, tenho me comunicado com o Kulikyrda aproveita o sinal de wifi liberado por uma fazenda de soja próxima, assim continua na área protegida do Xingu e não coloca em risco sua saúde. Por meio de aulas em vídeo dadas pelas mulheres da aldeia, estou aprendendo a técnica que elas usam para tecer as esteiras de buriti, que será aplicada em algumas peças da nova coleção. É tudo muito novo, mas estou impressionada e emocionada com a nossa capacidade de lidar com as adversidades, criar novos caminhos e não nos deixarmos abater. E o mais mágico é que estou fazendo isso em conjunto com uma cultura cuja história foi escrita exatamente assim.

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