“Pausar o tempo, permanecer no instante, observar a si e ao outro. Ouvir os sons que não são expressados, mas que gritam com os olhos marejados, num desespero contido por amarras invisíveis. Será que somos nós que estamos surdos? Será que treinamos nossos ouvidos sem perceber, por nos sentirmos impotentes diante de tanta dor? Agora chegamos ao limite da cegueira e da surdez.” Com esse pensamento, Maria Fernanda Paes de Barros e Kulikyrda Mehinako toparam participar da 3ª edição do projeto CIRCULAR – Arte na Praça Adolpho Bloch – SP, intitulada Sentar-Ler-Escrever, que acontece entre os dias 20 de setembro deste ano e 31 de janeiro de 2021. 

O projeto, de autoria de FarahService, empresa que visa contribuir com a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos por meio de parcerias entre a comunidade e os setores públicos e privados, tem curadoria de Marc Pottier, crítico e curador francês responsável por revelar artistas como Tunga e também comandar a Bienal de Curitiba entre tantos outros projetos. A 3º edição da exposição contou com três etapas: a primeira convidou artistas para comemorar as árvores e sua importância; a segunda estimulou a diversão através de trabalhos lúdicos imaginados para a praça; já o terceiro projeto, do qual Maria Fernanda e Kulikyrda participam, visa oferecer aos frequentadores um local e uma experiência em que possam “se reconstruir” após tanto tempo de isolamento por conta do COVID19.  

A partir dessa premissa, Maria Fernanda e Kulikyrda Mehinako criaram uma peça através da vivência que a artista e pesquisadora, criadora da marca Yankatu, teve em dezembro de 2019, na aldeia Kaupüna, onde Kulikyrda mora, no Alto Xingu, sul da Amazônia. “A partir dessa visita, das fotos tiradas e principalmente das imagens e emoções que ficaram gravadas na memória quando atravessei uma faixa de floresta queimada, nasceu a peça Onde Quero Deixar Meu Reflexo”, comenta Maria Fernanda. “Eu aqui em São Paulo, ele lá no Xingu, uma vez que não podemos nos encontrar. Juntos levaremos para a praça um trabalho cheio de histórias pra contar, reforçando que a tradição tem lugar no aqui e agora e que nossa identidade, enquanto brasileiros, é linda, rica e cheia de alma”. 

Misto de banco e obra de arte, a obra acolhe ao mesmo tempo que incomoda e, por meio de um espelho, apresenta a realidade dividida dando a oportunidade do observador repensar seu lugar. A parceria entre os dois artistas envolveu desde a discussão do projeto em toda sua complexidade, à escolha da árvore, seu transporte pela floresta e de lá até São Paulo, além de trabalhos na aldeia Kaupüna e no estúdio da Yankatu, até sua instalação na Praça Adolpho Bloch.

A instalação consiste em duas partes de uma mesma árvore que representam realidades distintas: a natureza queimada pela ação inconsequente do homem e a escultura de tamanduá produzida por Kulikyrda. Os zoomorfos em madeira são alguns dos trabalhos tradicionais de seu povo, onde os artistas da comunidade criam peças em madeira inspirando-se na fauna existente em seu território. 

Um espelho colocado entre as partes refletirá o usuário sobre o banco. “A posição do sujeito diante da totalidade da obra recortada (como que interrompida) e amparada pelo espelho, dá a oportunidade desse mesmo sujeito pensar que foi dividido diante da cena: Onde eu me encaixo?” Esta provocação estimula uma autoreflexão sobre a nossa responsabilidade com a arte, a cultura, a nossa ancestralidade, nossa origem, tradições e costumes, tentando enxergar além do óbvio e repensar o nosso lugar como ser atuante transformador da realidade.

“Além de ser um convite para uma pausa, para o “sentar” como momento de interiorização, é também uma forma de despertar memórias para que percebamos nossa força, possamos enxergar todos os sinais ao nosso redor, ler cada detalhe e escrever a história que queremos deixar como herança”, finaliza Maria Fernanda. 

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