FERNANDO ATIQUEarquiteto e urbanista, é professor de História, Espaço e Patrimônio Edificado na UNIFESP

Fechar a porta do apartamento, apertar o botão do elevador, ingressar em uma caixa opaca que descerá até um subsolo, acionar magneticamente as trancas de um carro e sair pelas ruas da cidade é um rito cotidiano para muitas pessoas ao redor do mundo. Ele descreve o ato de morar em alturas e ao lado de outras pessoas. Apresenta também, elementos da modernidade que estamos construindo arquitetonicamente há alguns séculos. Mas esconde, em si, alguns traumas da civilização ocidental. Talvez o maior deles seja o da construção dos arranha- céus e de seus significados.

Os prédios altos no Brasil começaram a ser feitos ainda nas primeiras duas décadas do século 20. Os primeiros exemplares não passavam, contudo, de 4 pisos, e muitos nem possuíam elevadores, uma invenção da pena de Elisha Graves Otis, um estadunidense. O boom dos arranha-céus ocorre quase que ao mesmo tempo e com grande concentração em uma parte do globo terrestre: o continente americano. Nos anos 1920, São Paulo constrói o prédio Martinelli, que disputará com seus congêneres sul-americanos o título de mais alto. O Rio de Janeiro edifica, na mesma década, o imenso edifício A Noite, que marca presença no cenário dos gigantes de concreto. Curioso é que nem Martinelli, tampouco A Noite eram edifícios para moradia. E sabe-se bem o porquê. A moradia coletiva nas Américas, como um todo, era um problema de ordem econômica e feição social. Morar em conjunto, em Nova York, era ser habitante de um tenement, um lugar em que a densidade populacional era imensa, e a salubridade e a segurança eram escassas. Na Argentina o nome dessas habitações era conventillo e, no Brasil, cortiços, casas de cômodos ou mesmo avenidas. O glamour estava longe daquele arranjo espacial de gente morando junta.

Com a falta de espaço na Ilha de Manhattan, o empilhar de pisos foi dando origem a uma forma de moradia coletiva que, se não era igual à dos cortiços, remetia diretamente a ela. A tecnologia construtiva do aço, na América do Norte, e do concreto, na América do Sul, reconfigurou o modo de morar e conquistou uma parcela da população que, embora próxima da pobreza, sempre mirou as alturas dos estratos sociais: a classe média. Os edifícios construídos, então, a partir dos anos 1930, nas cidades brasileiras, alteraram a forma como passamos a morar, incorporando ricos e pobres, mas conservando em seu arranjo elementos de nomenclatura e de espaço que não conseguimos eliminar. O nome apartamento é a primeira constatação. Para seduzir os clientes, o mercado imobiliário assegurou que não veríamos, ouviríamos ou sentiríamos os cheiros da vizinhança e, como estratégia, colocou o nome de apartamentos nas unidades habitacionais. Enfim, moraríamos com conforto, com visões novas do horizonte, com luz e… apartados dos colegas moradores do mesmo endereço. Claramente, a forma urbana prédio de apartamentos vingou, e se alastrou. Desta maneira, quando notamos que não conhecemos nossos vizinhos de andares ou mesmo de portas, estamos referendando aquilo que os nossos bisavôs engenheiros e arquitetos buscaram: vivemos juntos, empilhados, mas com a (ilusória) impressão de que estamos, de fato, apartados. Moramos juntos, mas cada um no seu apartamento.

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