O artista brasileiro traz para o mirante uma intervenção pioneira de grande impacto visual propondo refletir sobre os danos causados pelas ações humanas descontroladas no planeta.

No dia 25 de outubro de 2020 será inaugurada no Jardim do Torel, em Lisboa, uma instalação de grande porte, criada pelo artista brasileiro Tulio Dek. É a primeira vez que um artista realiza um projeto dentro de um parque urbano público em Portugal. O projeto teve apoio do governo português e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que irá propor aos seus oito mil alunos que vejam a instalação e a partir dela desenvolvam projetos.

O jardim do Torel é um dos muitos miradouros (mirantes para o além-mar) de Lisboa. Esses espaços tem uma importância fundamental para a cidade: remetem a sua fundação e são um convite da cidade sobre ela mesma e toda sua beleza. Localizado na colina de Sant’Ana, este traz uma área verde distribuída em três patamares e uma fonte de banho público. Desde sua entrada e a cada passo que se adentra há uma descoberta do que esse lugar guarda aos seus visitantes. Muito utilizado, o jardim é como uma praia na cidade para o calor do verão onde as pessoas se deitam na grama, curtem o sol ou apreciam uma sombrinha.

Em residência artística no país desde 2019, Tulio Dek é um artista contemporâneo multidisciplinar: pintor, escultor, performer e ativista. Ele traz para esse percurso do Jardim do Torel uma instalação marcada pela importância do que se vive atualmente e uma reflexão para o futuro pós-2020. Momento em que o espaço público e o contato com a natureza ganham uma ressignificação.

“Enquanto reclusos em casa sentimos a falta de verde, de espaço e de convivência. Mas até que ponto as dificuldades do momento, e as que se aproximam, nos vão dar tempo para perceber o que a natureza nos dá”, reflete Cristina Cruz, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Ao longo dos três patamares em que se desenvolve o miradouro, são colocadas dezenas de tocos de árvores de dimensões variáveis que delineiam caminhos que o visitante percorre, evocando o desmatamento que assola o planeta. Os troncos, oriundos de bosques queimados, foram cedidos pelo governo de Portugal. Este percurso culmina no patamar inferior do jardim, cuja superfície da água se encontra coberta por uma substancia negra e oleosa evocativa dos vazamentos de petróleo. Sobre este, na parede desenha-se a frase em néon azul “ I CAN’T STOP THESE TEARS FROM FALLING”. 

No final do percurso, uma cabana de madeira reciclada toda grafitada pelo artista alude à necessidade de abrigo e à satisfação dessa necessidade básica indispensável à sobrevivência humana. No seu interior, sacos com sementes de nove árvores nativas de Portugal convidam o visitante a levar para casa uma ou um punhado delas, podendo posteriormente plantá-las e completando assim o ciclo da exposição.  

Rui Afonso, curador do Museu Nacional de Arte Contemporânea, em Lisboa, afirma que a intervenção de Tulio Dek além de ser “única no seu gênero, por sua qualidade, é extremamente rara no panorama artístico português”. Ele destaca que “com preocupações ecologistas e humanistas deste cariz, nunca foram feitas em Portugal, intervenções nesta escala, e com esta natureza”.

“Com minha intervenção, pretendo levar arte para os jovens, ao mesmo tempo em que podem se conscientizar, através da emoção, para a necessidade de preservação do planeta”, explica o artista. “É um projeto de arte, de grande porte, com abordagem socioambiental”, define. Será realizado um tour virtual, de modo a que o projeto possa ser visto globalmente. 

Tulio Dek afirma que “gostaria de levar esta instalação para parques brasileiros”. Está prevista, para depois da pandemia, uma exposição individual do artista na TNT Galeria, no Rio de Janeiro. Em outubro deste ano, está programada uma exposição de pinturas inéditas na galeria Square One – Contemporary Art Agency, em Lisboa.  

Sobre o artista 

Tulio Dek é nascido em Goiânia e mudou-se para o Rio de Janeiro durante sua adolescência. É pintor, escultor, músico, compositor e poeta. Entre 2015 e 2017, estudou escultura em Florença, Itália, e em setembro de 2018 passou um mês em uma residência artística em Lisboa, que resultou em trabalhos expostos na mostra coletiva “Anotações Contemporâneas”, no Tomaz Hipólito Studio, em Marvila, Lisboa. Em dezembro daquele ano, suas obras integraram uma mostra coletiva na Square One Contemporary Art Agency, em Lisboa. No Brasil, em 2018, integrou a coletiva “Somos Todos Iguais”, no Centro Cultural da Justiça Federal, no Rio de Janeiro, e em dezembro daquele ano fez sua primeira mostra individual, “Reflexo”, na TNT Arte Galeria, no Rio. Em janeiro de 2019, Tulio Dek fez uma grande intervenção no Memorial Vargas, no Rio, onde usou como suporte para suas pinturas tecidos com padronagem alusiva ao pijama usado por Getúlio.

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