Psicólogo e designer de interiores, Ricardo Caminada, além de projetista, é pioneiro na conexão entre benchmarks dos setores de arquitetura e projetos.

Como ingressou nas artes? Você tem formação interdisciplinar, em psicologia e design de interiores. Fale sobre a relação entre as duas áreas.

As duas disciplinas se interligam em vários pontos. Ambas trabalham com o mesmo objeto, o ser humano e seu bem-estar. Somos reflexo dos estímulos que recebemos dos ambientes, assim como eles são espelhos de nossos gostos, histórias e necessidades. Meu trabalho é principalmente decifrar o que os clientes esperam desses espaços e transformá-los em realidade.

De que maneira é possível materializar os desejos do cliente nos projetos e, ao mesmo tempo, preservar a sua identidade como arquiteto?

Minha identidade está no ecletismo do meu trabalho, é isso que faz com que meus clientes confiem nele. Claro que a curadoria dos acabamentos e mobiliário passa por um critério rigoroso. Essa exigência de qualidade talvez seja minha maior referência.

Você é pioneiro na aproximação entre diversos agentes do mercado (arquitetos, cliente final, fornecedores etc.). De que maneira acredita que a conexão entre esses agentes melhora os resultados para todos?

Realmente fui pioneiro na forma de aproximar os profissionais da arquitetura e do design de interiores com as empresas do segmento. Na época, notei que os “RPs” visitavam os escritórios, mas havia um vácuo nessa relação. Não existia um canal de comunicação isento para ouvir as necessidades de ambas as partes. Foi quando inovamos, criando uma pesquisa para cada cliente e, a partir daí, criamos as ações certeiras para o mercado. O resultado foi excelente, e hoje continuamos evoluindo nossas táticas de aproximação e fidelização com as empresas. O mercado é imenso quando pensamos no número de informações que precisamos ter. Quanto maior for o círculo de contatos, mais conhecimento podemos agregar. Um dos benefícios dessa aproximação entre os profissionais e as empresas é o contato com os materiais, acabamentos, produtos, tecnicidade etc., além da confiança que somente a relação pessoal com o empresário pode promover. Entre os profissionais propriamente, esse contato proporciona avanços na forma de trabalhar, troca de informações sobre o mercado como um todo, parcerias em trabalhos etc. O “network” é fundamental em nossa área de atuação.

O que é inovação para você?

Para mim inovação é tudo que de alguma maneira transforma nosso comportamento, seja pela arte, nos fazendo refletir; pela tecnologia, mudando hábitos; pelos materiais que melhoram a qualidade e o conforto dos produtos que nos cercam e que consumimos.

Aproximar arquitetos e designers de grandes marcas ajuda na criação de um ambiente propício para a inovação? De que maneira os profissionais podem ajudar as empresas na criação de produtos verdadeiramente inovadores?

Sem dúvida, ambos têm muito a acrescentar nessa relação. Os profissionais podem criar seus projetos a partir do que há de novo, e as marcas ouvem as necessidades dos consumidores (clientes) desses profissionais. Sem dúvida é uma relação extremamente propícia à inovação.

Você tem olhar atento e circula por grandes benchmarks do setor no Brasil e no mundo. O que mais lhe chamou a atenção em termos de inovação nos últimos tempos? Qual produto? Qual projeto? Qual designer? Qual arquiteto?

O que mais me chama atenção é cada vez mais o uso de produtos naturais e ao mesmo tempo tecnológicos, uma mistura do que nos leva ao aconchego com o que há de novo em tecnologia, por exemplo produtos “handmade” e o uso do “led” na iluminação. Falando de produto – apesar de já existir há algum tempo — penso na luminária Heracleum Suspended da Moooi, que
não tem fios para acender as lâmpadas, do designer Bertjan Pot. Em termos de projeto de arquitetura, sem dúvida o novo aeroporto de Pequim, Beijing Daxing Airport, projeto de Zaha Hadid. Alguns designers que admiro: Estúdio Mula Preta, Paulo Alves, Sérgio Matos. Arquitetos que chamam minha atenção: Metro, Nitsche, Super Limão.


Luminária Heracleum Suspended da Moooi, do designer Bertjan Pot.
Novo aeroporto de Pequim, o Beijing Daxing Airport, de Zaha Hadid

De que maneira tem visto a incorporação da automação e da tecnologia em projetos de interiores? De que maneira você tem aplicado estes recursos em seus projetos?

A automação demorou para entrar nas casas. Estamos acostumados com essa tecnologia nos carros (vidros elétricos que fecham com a chave, faróis que acendem sozinhos, limpadores de para-brisas automáticos etc.). Porém, acho muito difícil vivermos sem ela nos dias de hoje, seja por questão de segurança, conforto ou aumento da vida útil dos produtos. Em meus projetos, utilizo constantemente nos seguintes itens: segurança, controle da iluminação, controle do ar-condicionado, acionamento de cortinas, home-theater e som ambiente. Em alguns casos podemos ir mais longe, já que nos oferece um panorama muito grande de soluções.

O que é luxo para você, hoje? O que era luxo para você 20 anos atrás?
Às vezes acho que sou meio conservador nessa questão. Para mim, o luxo continua o mesmo nesses 20 anos, que é chegar em casa e se sentir acolhido com suas escolhas. É sentir-se bem ao se reconhecer e ser reconhecido em seu próprio espaço.

Fale sobre o momento atual da arquitetura brasileira. O que
a define hoje? Conseguimos definir uma nova identidade depois do período modernista?

Acredito que nossa arquitetura está em uma de suas melhores fases, reconhecida internacionalmente. O que define nossa identidade é a liberdade de assumir nosso clima, materiais e estilo de vida, deixando para trás modismos e estilos. A arquitetura, assim como a arte, expressa o momento que a sociedade vive, e hoje enxergo a sociedade mais livre e mais autêntica, as pessoas com seu estilo de vida próprio e singular. Sem dúvida, estamos caminhando para a construção de uma identidade pós-modernista, saímos do ostracismo de uma arquitetura que não reflete nossa identidade para algo novo, autêntico e belo.

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