Com ações promovendo informação, o Seconci-SP foi capaz de reduzir contaminações
pela Covid-19 em canteiros e possibilitar o andamento dos projetos.

“Há hábitos que vieram para ficar”. É assim que Haruo Ishikawa, presidente do Serviço Social da Construção (Seconci-SP), descreveu as novas atitudes cotidianas adquiridas nos canteiros de obras por conta da pandemia. Apesar da doença estar presente, a  contaminação nos canteiros se manteve estável com os protocolos sanitários e também com uma arma poderosa: informação. “A cada problema que detectávamos, produzíamos novos materiais de informação, que foram rapidamente divulgados por nós e pelas entidades do setor às empresas, e estas, aos trabalhadores. A partir de junho os casos começaram a diminuir sensivelmente. Desde então temos registrado raros casos que demandam internação hospitalar e nenhum óbito”. Confira a entrevista completa.

A incidência de casos em relação ao total dos trabalhadores na construção civil segue baixa. Por quê?

Assim que se iniciou a pandemia em meados de março, o Seconci-SP criou um Comitê
de Crise junto com o SindusCon-SP (Sindicato da Construção) e o Sintracon-SP (Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias da Construção Civil de São Paulo). Rapidamente, divulgamos informações sobre a prevenção de Covid-19, por meio de vídeos, folhetos e cartazes para as obras. Assinamos aditivos às convenções coletivas do trabalho, comprometendo as empresas na defesa da atividade do setor, do emprego e da saúde dos trabalhadores.

Outras entidades da construção juntaram-se a nós, como a Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias), o Secovi-SP (Sindicato da Habitação) e a Fiabci-Brasil (Federação Internacional Imobiliária). Com elas, elaboramos protocolos sanitários para os canteiros de obras e para a abertura dos escritórios e das atividades imobiliárias das empresas do setor. Além disso, o Seconci-SP adquiriu e aplicou mais de 10 mil testes rápidos em trabalhadores da construção. Todos os testes foram acompanhados de exames médicos para fechamento do diagnóstico e orientações aos pacientes, dentro de uma abordagem humanizada, buscando dar conforto psicológico aos trabalhadores.

Durante todos estes meses, seguimos divulgando as medidas de prevenção por meio de vídeos, cartazes, divulgações em mídias sociais, Informativo e site do Seconci-SP, e  releases que resultaram em mais de 400 notícias na imprensa. Após breve interrupção no início da pandemia, retomamos nossos atendimentos ambulatoriais com todos os cuidados para evitar contaminação, na capital e nas 13 unidades que temos no Interior e Litoral paulistas. Em 2020, realizamos cerca de dois milhões de atendimentos médicos e odontológicos e exames laboratoriais.

Criamos o Programa SOS – Seconci-SP Obras com Saúde, que disponibilizou a contratação de auxiliares de enfermagem pelas obras. Estes profissionais realizam medição de temperatura, dão orientações e acompanham os afasta mentos. Mais de 9 mil trabalhadores foram beneficiados. Também criamos o “Disque Coronavírus”, linha direta com os médicos do Seconci-SP para orientar os trabalhadores e tirar dúvidas.

Implementamos a teleconsulta, disponível nas especialidades de cardiologia, dermatologia, endocrinologia, psiquiatria e reumatologia. Na divulgação das medidas de prevenção, ainda contamos com a participação dos técnicos de segurança do Senai-SP, que atuam nas obras no âmbito do Programa SindusCon-SP de Segurança. Para aferir a eficácia dessas medidas, realizamos semanalmente uma pesquisa, ouvindo 41 empresas que empregam mais de 34 mil  trabalhadores. Já estamos na 37ª rodada e há meses os índices de contaminação de casos suspeitos e confirmados de Covid-19 estão se mantendo abaixo de 1% do contingente de trabalhadores. Mesmo assim, estamos preocupados com o aumento de casos entre a população, nesta segundo onda da pandemia. Assim, iniciamos uma nova campanha de divulgação por vídeos, cartazes, folhetos. A campanha reforça a necessidade de uso de máscaras, higienização das mãos e distanciamento. Seu mote é: “Não transmita a Covid-19. Cuidando-se, você cuida das outras pessoas”.

A contaminação geralmente ocorre nos próprios canteiros de obras ou fora deles? (como em transportes públicos, por exemplo)

Embora não possamos afirmá-lo com 100% de certeza, dificilmente a contaminação ocorre dentro dos canteiros. Pelo que temos observado, as empresas e os trabalhadores continuam firmemente engajados nas obras com as medidas de prevenção, reforçadas diariamente por engenheiros e técnicos de segurança do trabalho nos Diálogos Diários de Segurança, por encarregados, médicos, enfermeiros e pelos próprios colegas.

O modelo que se utiliza hoje (uso de máscaras, higienização) é sustentável de se usar a longo prazo?

Acredito que sim. Há hábitos que vieram para ficar. A higienização das mãos, por exemplo, facilitada pelas empresas que disponibilizam água, sabão e álcool gel por toda a obra, hoje faz parte da normalidade do trabalho nos canteiros. Isso é muito bom, porque, além da  covid-19, evita uma série de outras doenças. No que depender do Seconci-SP e das demais entidades da construção, continuaremos empenhados na divulgação das medidas de prevenção mesmo após a vacinação de todos os trabalhadores – que, pelo visto, ainda deverá demorar. Isto porque a pessoa, mesmo vacinada, continuará transmitindo o vírus se entrar em contato com o mesmo. Também não se sabe por quanto tempo a pessoa permanecerá imunizada. O ideal é que a população siga o exemplo dos países asiáticos, onde as pessoas gripadas saem às ruas de máscara para não contaminar as demais.

Utilizar essas medidas impactou de alguma forma os prazos das obras?

Não. Foi o contrário. No início da pandemia, justamente por desconhecerem todas as medidas de prevenção, algumas construtoras acabaram tendo trabalhadores contaminados  e, consequentemente, sofreram atrasos no cumprimento dos prazos das obras.  Rapidamente, isto acabou sendo solucionado pela divulgação massiva das medidas de prevenção.

O setor possui uma expectativa de quando deixará de ser necessário realizar todas as medidas preventivas?

Pelo que está sendo noticiado, o coronavírus tem uma capacidade de mutação e as novas cepas parecem estar adquirindo um grau de transmissibilidade maior. Isto significa que nosso problema não se resume apenas à dificuldade de se obterem rapidamente vacinas para imunizar toda a população. Também deveremos aguardar novas vacinas que imunizem contra futuras novas cepas para as quais possivelmente as atuais vacinas já não darão conta. Até que isso se resolva, ainda deve levar anos.

Há alguma maneira de conscientização dos colaboradores para a segurança fora dos canteiros, junto às famílias?

Sim, todo o nosso material de divulgação orienta para a adoção das medidas também nos trajetos e nas residências dos trabalhadores. O pessoal frequentemente é orientado nesse mesmo sentido dentro das obras. Um dado importante de nossa pesquisa: 95% das empresas fornecem máscaras para o transporte e para utilização na obra. Outros dados que apuramos junto às 41 empresas pesquisadas semanalmente:

• 525 obras em andamento e somente 1 parada;
• 98% do pessoal estão em atividade;
• 100% das empresas adotam medição de temperatura e higienização das mãos, dão
orientações diárias sobre prevenção, e higienizam e realizam demarcações em áreas de vivência;
• 98% orientam sobre limpeza dos Equipamentos de Proteção Individual e afixam
informativos impressos sobre a Covid-19 nos locais de circulação;
• 93% realizam limpeza de Equipamentos de Proteção Individual e ferramentas, e instituem horários escalonados para entrada, saída e refeições;
• 91% distribuem divulgam aos trabalhadores cartazes e vídeos de orientação do SindusCon-SP e do Seconci-SP;
• 88% realizam outras práticas para a prevenção da contaminação entre os trabalhadores e a comunidade.

Houve algum momento em que aumentou o número de infectados nos canteiros? O que ocorreu e de que maneira foi tratado esse aumento?

Em abril e maio de 2020 tivemos mais casos, ainda por conta do desconhecimento de
parte das empresas das medidas de prevenção. Por exemplo, algumas empresas logo adotaram medidas como higienização das mãos, medição de temperatura e evitar aglomerações nos canteiros. Mas tardaram um pouco no uso das máscaras. Outras  empresas demoraram um pouco para entender a necessidade de orientar os trabalhadores a utilizarem as máscaras também nos trajetos. A cada problema que detectávamos, produzíamos novos materiais de informação, que foram rapidamente divulgados por nós e pelas entidades do setor às empresas, e estas, aos trabalhadores. Com isso, a partir de junho os casos começaram a diminuir sensivelmente. Desde então temos registrado raros casos que demandam internação hospitalar e nenhum óbito.

De que maneira o Seconci-SP tem auxiliado nesses processos de conscientização?

médicos do Seconci-SP têm respondido a todas as dúvidas dos trabalhadores e de seus
familiares, oferecendo amplo apoio às empresas e às entidades da construção. Temos nos mantido atualizados com o que vem sendo descoberto em relação à doença, prevenção,
tratamentos, vacinas e testes. Também adotamos rígidos protocolos de segurança em nossas instalações e entre nossos profissionais – médicos, dentistas, enfermeiros,
assistentes sociais, pessoal administrativo etc. Gostaria de acrescentar que os mesmos
cuidados foram tomados desde o início da pandemia em todos os Hospitais Estaduais,
Ambulatórios Médicos de Especialidades e Unidades Básicas de Saúde da rede pública estadual e municipal, que o Seconci-SP administra na qualidade de OSS – Organização Social de Saúde.Também fomos os responsáveis pela administração, em 2020, dos hospitais de campanha de Heliópolis e do Ibirapuera, no município de São Paulo, que salvaram milhares de pessoas infectadas pela Covid-19. E desde 8 de fevereiro, foi
reaberto o hospital de campanha de Heliópolis, que voltamos a administrar, com 24 leitos de UTI e 20 de enfermaria para pacientes desta pandemia.

Matéria publicada originalmente na revista Téchne.

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