Posição foi defendida por professora da USP durante conferência de abertura do 21º Congresso Brasileiros de Arquitetos

Ermínia Maricato . Foto: reprodução CAU/BR

A redemocratização do Brasil virá por meio das cidades e terá os arquitetos e urbanistas como agentes essenciais de resistência. A posição foi defendida pela professora da USP e arquiteta e urbanista Ermínia Maricato, durante conferência de abertura do 21º Congresso Brasileiros de Arquitetos (21º CBA), realizado no Auditório Araújo, na noite de quarta-feira (9/10). “O Brasil é um país extremamente desigual, o que tem raízes profundas”, salientou. Durante palestra, ela apresentou dados divulgados pelo IBGE que reafirmam essa posição histórica e que remete a 388 anos de escravidão e 322 anos de colonização. “Isso forma raízes profundas. O DNA de uma nação, onde uma elite está acostumada a chicotear o trabalhador”.

Segundo os dados do IBGE de 2017/2018, 2,7% das famílias brasileiras têm rendimentos mensais acima de R$ 23,8 mil e respondem por 20% da renda nacional. Por outro lado, 42,5% das famílias têm rendimento de até R$ 2,8 mil, e, juntas, se apropriam de apenas 13,6%. Situação que se agrava ao avaliar o rendimento das mulheres, que têm fatia expressiva ainda dedicadas ao trabalho doméstico com rendimento abaixo do salário mínimo. “Um dado nos surpreende especialmente que é o fato de que os gastos com transporte ultrapassaram os com a alimentação. Isso mostra como estamos distantes de um país civilizado”, alertou dirigindo-se às centenas de arquitetos e urbanistas presentes.

Durante sua palestra, Ermínia Maricato reconstruiu a formação da sociedade brasileira e, para instigar os presentes, disparou: “Às vezes eu me pergunto porque a gente estranha que os juízes não conheçam a cidade nem a legislação urbanística? Porque a gente estranha que a cidade seja tão invisível na sua totalidade?”. E respondeu com firmeza: “As nossas cidades têm casa grande e senzala. Os mapas mostram isso. Porque tivemos muito pouco tempo de Brasil urbano e hoje temos 85% da população nas cidades”. Detalhando o que chama de analfabetismo urbanístico, reforçou a fragilidade das instituições e das universidades que falham em desvendar a realidade. “Temos uma tradição de alienação e de ideias fora do lugar: escravista e liberais ao mesmo tempo”, ponderou.

Citou que o Brasil passou por um ciclo virtuoso de desenvolvimento, onde as cidades foram protagonistas de seu tempo. Lembrou os avanços obtidos com a adoção do Orçamento Participativo, que nasceu em Porto Alegre e ganhou o mundo. Mostrou uma série histórica de publicações e cartazes que confirma o movimento realizado em diversas cidades brasileiras para debate junto à população de temas complexos como investimento, drenagem, etc. “Era uma época em que se tratava temas importantes com o povo. Se dizia assim: a cidade vai crescer de qualquer jeito ou do jeito que a gente quer”.

E reforçou, arrancando aplausos efusivos da plateia: “Nada é mais importante do que o debate de onde vai se investir o dinheiro público”. O Brasileiro, prosseguiu ela, tem uma alienação em relação ao seu próprio país, que vem passando por interiorização de fluxos migratórios nas últimas décadas. “Às vezes, eu tenho vergonha de como o “paulistanocentrismo” interfere no planejamento urbano do Brasil interior”. E essas mudanças, disse ela, têm tudo a ver com os arquitetos e urbanistas.

Crédito: Carolina Jardine / CAU/BR

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