Mercado Santo Amaro, em São Paulo, passará por obras para recuperar estrutura e ampliar a área com projeto contemporâneo após destruição causada pelo fogo. Por Gustavo Curcio e Pedro Zuccolotto.

No dia 28 de agosto deste ano, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, assinou o contrato de concessão do Mercado Santo Amaro. Quem ficou responsável foi o Consórcio Fênix, que é formado pelas empresas Engemom, Houer e a Supernova e Urbana Arquitetura e Projetos. Na ocasião, Covas falou sobre a importância da iniciativa. “Essa assinatura representa uma grande vitória para a população, que agora, com uma empresa privada tomando conta deste espaço, irá ganhar um serviço melhor. É nessa linha que nós apostamos, passar para a iniciativa privada os serviços que ela cuida muito melhor que o poder público para que possamos focar recursos humanos e financeiros no que é o essencial para a cidade”, conforme informações publicadas à época pela Secetaria Especial de Comunicação do município.

O valor total da operação é de R$51 milhões, sendo R$21 milhões desse valor focados em investimentos no mercado. Também se envolveu a Carmona Soluções de Engenharia para fazer o projeto de recuperação e reforço estrutural. Ainda segundo o comunicado oficial da Secretaria publicado em agosto de 2019, este foi o primeiro contrato de concessão assinado após a Lei que instituiu o Plano Municipal de Desestatização (PMD), articulado pela Secretaria do Governo Municipal (SMG). O Plano consiste em uma lista de serviços e ativos que podem ser alvos de desestatização, por meio de concessões, Parcerias Público Privadas (PPPs) ou mesmo a privatização. A ação tem o objetivo de desonerar a Prefeitura e redimensionar o tamanho do governo, além de promover alto impacto econômico e social.

“É muito gratificante para nós fazer parte dessa parceria. A população terá acesso a um projeto inovador, focado em transformar o mercadão em um polo gastronômico. E, os permissionários, a uma estrutura profissional, que privilegia o conforto e devolverá ao local a vocação para ponto de encontro da comunidade local. Tudo sem perder as características que o fazem tão importante para a cidade de São Paulo”, afirmou à época o presidente do Consórcio Fênix e da Engemon, Marco Alberto Silva.

Vista aérea do edifício após o incêndio ocorrido em 2017.

História do Mercado

O entreposto comercial foi inaugurado em 1897, na Praça Doutor Francisco Ferreira Lopes. O mercado funcionou naquela região até 1958, quando foi transferido para a esquina das ruas Padre José de Anchieta e Ministro Roberto Cardoso Alves. No início comercializa apenas produtos por atacado. Depois, começou a trabalhar com vendas no varejo. Um incêndio ocorreu em 25 de setembro de 2017, atingindo 90% das lojas. Desde então, o mercado funciona em caráter emergencial em uma tenda no estacionamento. O local possuía 3.600m² de área construída e cerca de 25 boxes, incluindo um sacolão e restaurantes.

A construção original possui uma fachada principal voltada para uma grande área verde que abrigava o estacionamento, que possui uma marquise de acesso no fim de uma grande escadaria, que vence o desnível do lote. No edifício de 1958, notam-se traços de Art Déco nesta fachada principal e a predominância de uma aparência mais industrial no restante da construção com estrutura de pilares e vigas em concreto, paredes em alvenaria e telhado com estrutura de vigas, arcos, terças, sheds e telhas em concreto.

Desenho original da fachada principal.

Os danos

A estrutura é composta de pilares em concreto armado moldados no local, nos quais se apoiam arcos pré-moldados. Sobre esses arcos, também há terças pré-moldadas. Os danos, segundo o engenheiro Cauê Carromeu, da Carmona, não foram significativos nos pilares e arcos, mas várias terças sofreram colapsos por serem elementos muito esbeltos. Matheus Bellintani, Gestor de projetos do Departamento de Engenharia e Obras da Engemon, conta que houve também um desaprumo estabilizado na fachada lateral, além de queda de uma pequena área de cobertura. “O levantamento para os reforços e recuperações estruturais foi feito através de ensaios técnicos visuais, inspeção nas áreas danificadas (pilares, arcos, vigas e terças) e coletas de corpos de provas para verificação da resistência do concreto”, detalha.

A recuperação

O edifício é tombado pelo Condephaat desde 1972 e é um dos únicos exemplares do século XIX na região. Apesar de não ser um projeto de restauro, estão sendo tomados cuidados para se manter a arquitetura original onde for possível. Segundo Bellintani, o projeto de recuperação prevê uma série de etapas.

Segundo o engenheiro, a obra completa está prevista para ocorrer em 18 meses e, nesse período, a parte de recuperação e reforço estrutural deve levar 5 meses. “Os maiores desafios estão na execução do reforço da fundação devido às dificuldades de acesso e execução dos reparos nos arcos de concreto da cobertura, pela necessidade de manter a estabilidade da estrutura e altura para execução dos trabalhos”, conta.

O novo mezanino será executado em estrutura metálica com laje em steel deck e será apoiado em novos pilares metálicos e também nos pilares existentes que suportam a cobertura. Segundo Thomas Carmona, da Carmona Soluções de Engenharia, a escolha se dá por sua maior velocidade de execução.

Os pilares de concreto existentes serão reforçados com aumento de seção e acréscimo de armadura. “Além dos importantes danos por corrosão de armaduras, a análise estrutural indicou que a estrutura não apresentava resistência frente aos esforços horizontais hoje exigidos pela normalização vigente, para esse tipo de condição o emprego do aumento de seção é muito conveniente, pois agrega rigidez à estrutura”, detalha o engenheiro.

A ampliação

A ampliação será na porção que fica na esquina do terreno. A edificação nova é projetada para se destacar visualmente em relação à edificação existente. Será um edifício de 5 andares com estrutura em concreto pré-moldado com aproximadamente 4.800 m² de área. “Apesar de uma relação arquitetônica final de harmonia, será fácil identificá-la como um edifício novo”, destaca Bellintani. Além de uma nova estrutura para melhorar o atendimento aos clientes e permissionários, a iniciativa prevê a ampliação da área de 9 mil m² para mais de 11 mil m², aumentando também o número de boxes, que passará de 25 para 160.
Segundo Corromeu, o principal desafio desse edifício são os grandes vãos impostos pela modulação das salas, exigindo a utilização de vigas protendidas que, para atender ao pé direito livre, precisaram ser dimensionadas considerando ligações semirrígidas com os pilares. “Isso será conseguido por meio do emprego de luvas para emenda de armaduras ou bainhas para passagem de armaduras”, detalha.

Existirá uma ligação entre os dois edifícios, como conta o engenheiro. “Pode-se dizer que será uma passarela em concreto armado de geometria esconsa, que contornará grande parte da vegetação existente, conferindo uma bela paisagem aos usuários”, detalha. Esse fato trouxe um desafio peculiar que foi a necessidade de considerar um distanciamento adequado entre a estrutura e fundações da vegetação, considerando o seu crescimento ao longo do tempo, para tanto foi consultado um especialista em botânica que norteou tamanhos de aberturas em lajes, posicionamento de vigas, pilares e fundações.

O prédio de 5 pavimentos contará com 2 pavimentos destinados à estacionamentos, 2 pavimentos contíguos ao térreo e mezanino da edificação atual e com o mesmo uso de mercado e um pavimento cobertura para uso diverso. Destacam-se também no projeto de ampliação a harmonia com a vegetação existente (minimizando a supressão arbórea), além da praça central que unirá os edifícios novo e antigo e promete ser o “coração” do novo mercado. “Nosso propósito é transformar o Mercado em um grande modelo de negócio, que revitalize o bairro, promova eventos e também atraia um público consumidor de outras regiões”, conta o gestor de projetos.

O projeto, segundo ele, respeita a arquitetura típica do Mercado, mas promove espaços ‘instagramáveis’, pontos de internet wi-fi e principalmente conforto para que toda a família possa aproveitar o que o local oferece, desde os produtos naturais até os restaurantes que funcionarão no prédio. “Queremos devolver o espaço à população, transformando-o em um polo cultural e gastronômico”, finaliza.

Ficha técnica

Projeto: Recuperação e Ampliação do Mercado Municipal de Santo Amaro
Local: São Paulo, SP Conclusão prevista: 2021
Construção/recuperação/ampliação e responsabilidade técnica: Engemon Engenharia & Construção
Projeto Arquitetura: AFMG Arquitetos Associados
Projeto estrutural/recuperação/reforço: Carmona Soluções de Engenharia
Projetos instalações: LZA
Gestor do Projeto: Matheus Martins Bellintani
Engenheiro residente: Mariana Hentz Domingues

Matéria publicada originalmente na revista Téchne.

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