Projetar obras sustentáveis é aposta de novos escritórios

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Atuar em rede, democratizar o acesso a projetos de arquitetura e engenharia e criar obras sustentáveis são apostas de jovens profissionais do ramo. Bloco Base, Zyklus Construções Sustentáveis, e Aria 41 Arquitetura e Sustentabilidade, são três escritórios curitibanos que incorporam valores de responsabilidade ambiental, social e econômica para criar projetos mais eficientes. Por Amanda SchArr

A inconformidade com o modo convencional de atuação em suas profissões fez com que jovens profissionais da Arquitetura e de Engenharia, procurassem criar seus próprios caminhos. Depois de experiências em grandes empresas ou de atuar em outras sociedades, decidiram empreender para poder atuar em projetos que equilibrem a preocupação com o meio ambiente, sociedade e fator econômico. 

Ária 41 Mudanças na vida pessoal impulsionaram a arquiteta Milena Gil, 31 anos, a retomar o tema que era o foco do seu interesse desde a faculdade, culminando com uma pós-graduação em Arquitetura Sustentável. No intervalo de um ano, Gil saiu da sociedade que havia criado, casou e foi morar em um condomínio. O novo lar a ajudou a encontrar um nicho para a Ária 41 Arquitetura e Sustentabilidade, escritório que criou. “Casei e, pela primeira vez, fui morar num condomínio. Ali, comecei a ver grande potencial para aplicar estratégias sustentáveis nesses ambientes, como condomínios, escolas e empresas, sejam novos ou já existentes”. Para a arquiteta, a atuação em projetos responsáveis com o meio ambiente trouxe um desafio adicional. “A gente fala de sustentabilidade [com os clientes], que é legal e pode diminuir os custos, mas a sustentabilidade tem três níveis. Às vezes, a gente só fala do ambiental e as outras pessoas só veem o econômico”, comenta. Para ela, completar o tripé da sustentabilidade, trazendo o aspecto social para os projetos é fundamental. Para isso, além de serviços técnicos, Gil tem uma proposta voltada à conscientização, educação e integração dos usuários às soluções implantadas. 

Já a proposta de focar no atendimento a condomínios e outros projetos de uso coletivo, veio ao encontro da vontade de fazer com que projetos sustentáveis impactassem a vida de mais pessoas. Seja pela natureza da utilização do espaço ou pela acessibilidade das soluções, com seu trabalho, Gil quer ampliar o alcance de projetos que reduzem impactos ambientais. “O intuito do projeto da Ária 41 é também levar projetos sustentáveis para mais pessoas porque é uma coisa fácil, não precisam ser pensadas apenas soluções caríssimas. Existem estratégias simples que se podem adotar para ter um projeto sustentável mais barato”. 

Bloco Base Esta é uma preocupação comum à Bloco Base, empresa criada pelos engenheiros Iago de Oliveira, 26 anos, e Matheus Sanchez, 29 anos, que têm a ambição de democratizar a cultura 

da construção sustentável. “Hoje quem fala em conforto ambiental, sustentabilidade e eficiência são boutiques de projetos, não é algo acessível. Nossa proposta é bem diferente, é sobre com a gente democratiza isso que é muito bonito, e trazer para o campo da ação, para gerar mais impacto. A sustentabilidade é um assunto de poucos, mas que deve ser de todos”, sintetiza Oliveira. 

Engenheiro civil e engenheiro mecânico, respectivamente, Oliveira e Sanchez se conheceram na universidade, atuando em empresas juniores, e se reencontraram anos depois, já com experiências importantes no mercado profissional e uma inquietação em comum. Iniciaram uma conversa que foi amadurecendo, até que, em 2017, começarem a modelar o que hoje é a Bloco Base. A empresa, que também atua em projetos de alto padrão, tem nas soluções de baixo custo um diferencial. Atualmente os engenheiros atuam no projeto de um prédio de 54 apartamentos, mas garantem entregar soluções acessíveis a todos os públicos. “É muito fácil numa residência de milhões de reais você ter soluções sofisticadas, ótimos sistemas. Nós temos uma busca muito mais profunda que é como trazer essas soluções para alguém que está construindo pelo Minha Casa, Minha Vida, que tem R$ 100 mil para investir numa casa, ou menos do que isso, ou mesmo famílias que estão em vulnerabilidade social. Todo mundo tem direito a uma casa que tenha conforto térmico, lumínico, economia de água e energia. Acho que aí é que está o grande impacto, que é trabalhar na base da pirâmide”, aprofunda Sanchez. 

Como exemplo, apontam o projeto que fizeram para uma casa de 70 m2, do programa Minha Casa, Minha Vida. O duo desenhou um sistema de captação de água da chuva, simples e barato, que custou R$ 700,00. Outra solução de baixo custo seria o paisagismo nativo, selecionando espécies exclusivamente nativas do bioma. Os engenheiros explicam que é uma alternativa poderosa, principalmente, para a restauração dos biomas urbanos, com a vantagem econômica de ter um custo de manutenção menor e zero irrigação. 

Zyklus Outro encontro fortuito fez nascer a Zyklus. A engenheira civil Anna Claudia Fisher, 26 anos, e a arquiteta Thamille Casagrande, 27 anos, se conheceram no mestrado quando estudavam sustentabilidade na construção civil. A partir de suas pesquisas e do anseio por aplicar na realidade todo conhecimento acumulado, surgiu a ideia da empresa. “A gente não se via mais trabalhando de outra forma, sem pensar nessas questões. A gente queria trabalhar com sustentabilidade”, conta Fisher. A Zyklus aposta na inserção da economia circular na construção civil. O nome, emprestado do alemão, foi escolhido por traduzir esse foco, revelando, pela sonoridade, o significado em português: ciclos. A proposta da empresa incorpora um conceito chamado de BAMB (Buildings as Material Banks), que considera as edificações como bancos de materiais. Nessa visão, cada construção estaria armazenando recursos a serem usados no futuro, numa nova obra. “Nosso principal conceito é pensar nas soluções construtivas que a gente vai usar de forma que elas facilitem o reuso dos materiais no final da vida útil da edificação. Então, como reusar 

e, eventualmente, reciclar esse material lá no final para se aproveitar ao máximo do que o material tem a oferecer, não só dentro da edificação”, explica Casagrande. Racionalizar o uso dos recursos disponíveis é outro fator importante no trabalho da Zyklos. Se há um ambiente em desuso ou subutilizado, ao invés de construir uma nova área, a dupla propõe adequar aquela já existente. Uma forma indireta de promover a otimização de recursos naturais, evitando a extração de novos recursos. 

Em rede e mirando o futuro Os princípios que norteiam a atuação desses jovens profissionais andam de mãos dadas com a qualidade técnica. “Nosso propósito é muito importante, mas o principal diferencial é uma segurança técnica muito forte que a gente tem e que os nossos produtos oferecem. Quando a gente fala em reuso de água da chuva, por que a gente vai captar? ‘Ah porque é bom para a Natureza’. Claro que é, mas quanto é? Como vai ser feito? Qual o tempo de retorno desse investimento? Os nossos produtos são muito embasados tecnicamente e todos acompanham estudos de viabilidade técnica e econômica”, esclarece Oliveira. 

Para realizar projetos tão complexos, os profissionais têm uma rede de colaboradores, com especialistas de diferentes áreas. A Ária 41 e a Bloco Base consideram essencial articular outros especialistas para entregar soluções ideais. “O que vem caminhando é a integração entre os profissionais. Se a gente vai fazer um projeto de paisagismo regenerativo, não é o paisagismo só que trabalha, são muitas mãos. Eu acho que a chave pra gente melhorar cada vez mais o padrão construtivo no Brasil e a qualidade dos projetos, é, de fato, a integração para cada um contribuir na sua área de conhecimento”, acrescenta o engenheiro civil da Bloco Base. A arquitetura e engenheira sustentáveis têm impactos imediatos, que podem interferir no bem-estar do usuário e economia, mas os ganhos futuros são ainda mais promissores. No caso da Zyklus, o planejamento circular do uso dos recursos energéticos é uma solução de efeito mais imediato, enquanto, para os materiais o prazo é mais é longo. “Em cada projeto a gente busca oportunidades para inserir esse conceito de economia circular e a ideia é que cada vez mais consiga fazer isso já na fase de projeto. Essa vantagem ambiental que estamos oferecendo para a sociedade, vai ser colhida daqui cinquenta anos ou mais, no final de vida útil da edificação”, conclui Fisher. 

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