aU

Pelo fim da maquiagem na arquitetura

“Não podemos continuar construindo caixinhas com um tamanho pré-definido e achar que isso é a melhor arquitetura”. Confira a entrevista com Maurício Rissinger, arquiteto da Oficina Conceito Arquitetura, expoente na reinvenção da arquitetura Gaúcha. Por Allaf Barros

Natural da cidade de Lajeado, no Rio Grande do Sul, o arquiteto e urbanista Maurício Rissinger comanda o escritório OCA Arquitetura, na capital Porto Alegre. Ao refletir sobre o curso que deveria fazer, Maurício logo lembra que adorava viajar e que sempre reparava na arquitetura local do lugar visitado. Formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o ex-aluno — selecionado na primeira chamada, como gosta de pontuar — olha com muito carinho para onde estudou. Após finalizar a graduação, Rissinger foi efetivado como arquiteto no escritório em que trabalhava e, dois anos depois, resolveu abrir o seu próprio negócio. Em 2011 nasceu, de fato, a Oficina Conceito Arquitetura (OCA). Como a maioria dos empreendimentos da área, os jovens sócios — Guilherme Ferreira Nogueira e Tiago Scherer Fritzen — começaram assinando projetos pequenos de interiores e arquitetura para familiares e amigos próximos. Com assinatura em empreitadas que vão desde reformas de interiores e projetos residenciais de médio porte (carro-chefe do estúdio), um braço do escritório é a prospecção de terrenos que possivelmente poderão vingar novos empreendimentos a partir de estudos de viabilidade feitos pela equipe. A seguir, você confere o bate-papo exclusivo com o arquiteto.

O que não faz mais sentido na arquitetura para você?

Rebocar parede. No escritório procuramos utilizar os materiais o máximo possível como são, naturais. Uma parede de concreto não precisa ser rebocada e pintada, deixa o concreto aparente. Isso vale para casas construídas de tijolo ou de madeira também. O que não dá mais é moldura de isopor em volta da janela ou reboco na fachada. Essas coisas que tentam “maquiar” um prédio, o que para mim não sentido nenhum. Temos de pensar mais nos materiais como são porque eles vão gerar menos manutenção e trarão um visual mais bacana. 

E especificamente em Porto Alegre, o cenário é o mesmo?

Às vezes, as pessoas acabam olhando mais o custo dentro da planilha e não conseguem enxergar a obra como um todo. Arquitetura neoclássica não faz mais sentido também, temos que construir a partir das demandas na qual estamos inseridos hoje. Quando passamos pelas avenidas aqui em Porto Alegre e vemos um prédio neoclássico, não estamos mais nesse período, ou seja, não faz mais sentido. Se você sai de Porto Alegre e vai para Montevidéu ou Punta de Leste, já se observa que a composição da cidade é completamente diferente. Esse movimento está acontecendo por aqui. Percebeu-se que por meio da boa arquitetura, você consegue um valor agregado ao imóvel. 

Em que medida a arquitetura em si pode melhorar a qualidade das cidades?

A arquitetura autoral está ganhando espaço e este valor, embora se reflita no preço, acaba por trazer um retorno interessante. Isso se traduz na liquidez da venda. Isso é um pouco do que está acontecendo no bairro da Vila Madalena, em São Paulo. E é isso o que nós estamos tentando fazer ao alinharmos algumas questões com incorporadores em Porto Alegre. Buscamos esta conversa do empreendimento com o entorno. Respeitando o Plano Diretor, nós entregamos para a cidade, por exemplo, áreas como o recuo do jardim. Assim, nós proporcionamos ao pedestre caminhos que não são fechados apenas por grades. À medida que semeamos este conceito pela cidade, as pessoas vão perceber que a cidade é delas, e que pode e deve ser usada por elas. Trazendo de volta o conceito de Jane Jacobs, de que os olhos das pessoas são a segurança da rua. Nem sempre é possível eliminar 100% o gradil, mas é indispensável pensar sobre isso. 

Como fazer isso na prática?

No caso do Sodré272, projeto nosso, o empreendimento está localizado, dentro do tecido urbano, ao lado de um arroio (córrego) canalizado, o que gerou uma viela. Todos os empreendimentos do entorno estão de costas para esta viela, geralmente com empenas cegas. Ao analisarmos o terreno, nós pensamos que se ninguém se voltar para este córrego, ele será sempre uma área rejeitada, escura. Diante disso, nós decidimos voltar a fachada principal do prédio, com suas sacadas, para esta servidão. A ideia é que as pessoas fiquem em suas sacadas, tomando chimarrão, vendo esse arroio, observando quem passa por ali. Além de produzir uma fachada ativa, essa decisão certamente trouxe mais segurança para aquele lugar, a partir do momento em que os moradores do prédio observam e denunciam o que ocorre ali. Esse conceito de tirar as grades e fazer com que as pessoas convivam mais é um pouco do que se discute no Podcast SP Sonha, que atualiza todas as terças. No caso do JCândido, outro projeto do OCA (publicado em edição antiga da revista aU), nós retiramos o gradil do alinhamento da rua e jogamos para a base do prédio. Colocamos um grafite bacana e demos de presente um belo jardim para a cidade. Houve receio, por exemplo, de moradores de rua ocuparem aquele lugar. Mas não podemos balizar um planejamento pela teoria do caos. A transformação que esse projeto trouxe àquela rua é reconhecida pelos moradores da região, que passam lá felizes. Ao vivenciar esta arquitetura acessível e aberta, as pessoas passam a desejá-la. 

Sodré272: o empreendimento se volta para o arroio (córrego) canalizado ao lado do terreno. “Os moradores são os olhos da segurança”, afirma Maurício ao relembrar os conceitos de Jane Jacobs. 

Qual seria o contra-exemplo disso?

Nós temos visto se multiplicar no litoral gaúcho o surgimentos de condomínios fechados. Isso é um assassinato em termos de urbanismo. Se você pensar dessa forma, daqui a pouco é capaz de não ter mais ninguém à beira da praia. Isso acontece pela sensação de insegurança, diante de alguns saqueamentos que ocorreram em casa vazias no litoral. Mas hoje, com as cidades litorâneas mais habitadas, não faz mais sentido produzir esses empreendimentos fechados. 

O Sul é mais conservador e isso reflete na arquitetura? 

Também. Não podemos continuar construindo caixinhas com um tamanho pré-definido e achar que isso é a melhor arquitetura que temos para entregar. Mesmo num valor reduzido o arquiteto precisa fazer o melhor projeto possível. Daí é necessário ter boa ideias e soluções possíveis de executar. O que não pode é ter preguiça.

O que te inspira na hora de criar um projeto?

No escritório somos uma colcha de retalhos. Colocamos em forma de desenho tudo aquilo que já vivenciamos, de alguma maneira. Viajar também ajuda bastante. A ligação com o meio acadêmico através dos nossos estagiários, por exemplo, sempre nos trazem coisas novas. Observar a arqitetura, nova ou antiga, é a chave para se ter referências. Eu sigo perfis que me interessam. Hoje em dia você não espera mais na sala do médico vendo mídia estática. A mistura da academia (estagiários) com a equipe do escritório ajuda nessa revigorada do escritório. Quanto mais se vivenciar e buscar coisas diferentes, mais soluções criativas surgem. 

Ao transferir os gradis para junto da base dos prédios, Maurício acredita devolver à cidade espaços de convivência. Este conceito foi aplicado ao edifício JCândido, projeto do OCA. 

Quais arquitetos brasileiros você mais admira?

Paulo Mendes da Rocha, Arthur Casas e Isay Weinfeld, Marcio Kogan, Lina Bo Bardi. Aqui no Sul, há colegas muito bacanas fazendo coisas bacanas: Arquitetura Nacional, OSPA, 0E1 Arquitetos. 

O que é inovação em arquitetura? 

É pensar todo o processo produtivo. Vivemos a era BIM. Nós projetamos em 3D para depois extrair o 2D. Você tem todo o projeto na mão. Mas inovação é muito mais do que isso. É repensar a maneira de projetar. A inovação, dentro do setor, está gritando por acontecer. Se você pensar, esse setor é um dos mais atrasados do país. Na agricultura, por exemplo, essa revolução já aconteceu. Na construção, nós continuamos empilhando tijolo, rebocando fachada. Nós ainda usamos sistemas construtivos de cem anos atrás. Nós precisamos sistematizar os processos, usar mais light steel frame, estruturas metálicas, que são mais caras, mas que trazem uma diminuição de tempo de obra que vai compensar esse relativo aumento de custo. Há empresas chinesas que “plotam”, imprimem casa. Isso já é realidade no Chile e chegará em breve ao Brasil. Nós temos de apóostar nesse tipo de estrutura. Nós não precisamos de três anos para erguer uma obra. A compatibilização ainda não é efetiva aqui. Isso encurta o tempo e diminui o custo. Inovar é rever o sistema como um todo, encurtando os prazos desde a fase do projeto até a execução. 

Matéria originalmente publicada na revista aU.

Categorias:aU, Content, Entrevista

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.