O poder do recorte

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Com cerca de 70 mil seguidores no Instagram, Pedro Ariel Santana, arquiteto e jornalista, apresenta sua leitura ímpar sobre os ambientes que visita. Com faro apurado da experiência de edição de mais de 20 anos faz dele um exímio detector de tendências.

Pedro Ariel Santana é diretor de relacionamento e conteúdo da CASACOR, empresa do Grupo Abril responsável pela maior mostra de arquitetura, design de interiores e paisagismo das Américas. Ao longo de mais de duas décadas, Pedro atuou como editor de grandes revistas, como a icônica Casa Claudia, dentre outras publicações. Seu perfil no Instagram reúne mais de 70 mil seguidores, e seu olhar atento sobre os ambientes, fez deste canal a fonte para 3 livros. A série mostra os recortes a partir da leitura que faz dos espaços por ele visitados. Em entrevista exclusiva à aU, fala sobre o atual cenário da arquitetura no mundo e muito mais.

Como você enxerga o momento atual da arquitetura na América Latina? 
PA: Com todo o respeito à arquitetura latino-americana, acho que não passamos por um grande momento, justamente porque a economia latino-americana não vive. Arquitetura e as demais artes em geral estão diretamente relacionadas ao momento econômico. Então, frente à China e outros países asiáticos que estão vivendo momentos grandiosos, a nossa arquitetura não tem protagonismo.

Há algum país que se sobressaia por algum motivo ou aspecto?
PA: O Chile, justamente porque vive um momento de estabilidade há mais tempo — se comparado a outros países latino-americanos —, se destaca. Lá, temos o Alejandro Aravena que é um arquiteto que está construindo a carreira internacional bem interessante.

O que significa “luxo” em arquitetura? Quais as diferenças deste conceito hoje e duas ou três décadas atrás?
PA: Ao meu ver isso está sempre ligado ao momento econômico. Não tem como mudar isso. Na Argentina, em Buenos Aires principalmente, a gente tem visto diversos exemplos interessantes de retrofit. A Argentina já foi um grande país, tem grandes construções, grandes prédios e hoje vive essa onda de recuperação na região do porto e no centro. Tenho visto resultados interessantes nesse sentido. No Brasil, tivemos bons momentos, relacionados à pujança econômica, nos anos 50 e 60. O nosso modernismo teve visibilidade mundial e ainda é referência. Hoje temos uma terceira geração de modernistas, que tem algumas características próprias, com nomes como Marcio Kogan, Isay Weinfeld, Angelo Bucci e outros que são herdeiros diretos das duas gerações anteriores.

De que maneira a arquitetura tem transformado as relações dos usuários com os espaços? 
PA: A arquitetura é um meio, uma ferramenta de adaptação às mudanças de comportamento. Para mi, primeiro vem a mudança de comportamento, depois vem a arquitetura para fazer essa adaptação. A boa arquitetura é muito alinhada com o espírito do seu tempo. Uma das grandes mudanças é a arquitetura interativa, e um grande exemplo é o Google, que mudou o jeito de se fazer arquitetura de empresas, escritórios, etc. O que veio antes foi a mudança na forma de trabalhar imposta pela tecnologia, pelo próprio Google, a internet… Então hoje a gente trabalha com o celular. É o que eu estou fazendo agora… gravando um áudio e respondendo essa entrevista em um quarto de hotel. Primeiro vem a mudança na forma que as pessoas estão trabalhando, para depois a arquitetura, nesse caso, digamos capitaneada pelo Google, captar a arquitetura corporativa. Um outro exemplo: vamos pensar nas estações de metrô: a gente vai para Paris, Londres e vê aquelas estações antigas onde os cadeirantes são impedidos de usar porque são escadas. Na época em que foram construídas, não se discutiam essas questões, não eram questões prementes a acessibilidade aos cadeirantes e idosos. Hoje é impossível fazer uma estação de metrô sem pensar nisso. Isso acaba dando origem a prédios com volumes maiores. As novas estações de São Paulo são um exemplo disso. Há muito mais infraestrutura e estão muito mais adequadas ao nosso tempo.

De que maneira a regionalidade brasileira se traduz no design de interiores? Como você enxerga essa variedade de cultura brasileira aplicada em projetos arquitetônicos?
PA: A gente vê uma grande evolução nessa área. Um exemplo é a própria mostra de arquitetura de design de interiores da CasaCor, que no início dos anos 1980 era uma coisa superelitizada, de um grupo restrito e com diversos sotaques estrangeiros muito fortes. Eram salas de jantares à inglesa, copas francesas, livings italianos. Éramos muito ligados a esses estilos e até a estilos clássicos tradicionais, de uma aristocracia brasileira que se mirava nos estilos europeus. Nós ainda nos miramos nesse formato da Europa e na Itália, mas agora com um design contemporâneo. Temos uma linguagem de produtos mobiliários muito forte e muito brasileira. Hoje em dia, você vai à CasaCor e não sente mais esse sotaque estrangeiro. Pelo contrário, você vê nuances regionais do Brasil. Essa é a verdadeira evolução do design brasileiro. Hoje temos dois designers que fazem sucesso absoluto no interior da casa da casa brasileira: o Jalder Almeida, um jovem catarinense de 35 anos e o veterano Sergio Rodrigues, que foi redescoberto recentemente. Eles dominam a cena. Mas também nos apropriamos recentemente da arte popular brasileira, do artesanato, das artes plásticas. Somadas ao design de mobiliário, com todos esses complementos, a gente hoje tem uma casa muito mais brasileira do que há trinta anos atrás.

O Paraguai é uma país que tem surpreendido o universo da arquitetura. Fale um pouco sobre este momento desse país.
PA: Estive no pais duas vezes visitando a CasaCor local e me surpreendi. Assunção é uma cidade de porte médio que lembra muito os interiores do Brasil, como Ribeirão Preto. Mas há algo de interessante na arquitetura deles. Alguns arquitetos argentinos que têm influência grande no Paraguai, e até aproveitando essa boa fase na economia no país, fizeram da mostra de lá uma coletânea bem interessante de soluções. Os interiores considerei ruins, em um nível fraco, ainda com intenção de recriar interiores europeus. Mas as construções no entorno dos jardins achei bem interessantes, principalmente as de estrutura metálica que predominavam. Ainda é uma escala pequena, mas que revela criatividade e com uma pesquisa interessante.

A arquitetura brasileira é referência no mundo, ainda com o ideal modernista que a fez tão conhecida. Você acredita que esta frase ainda seja verdadeira? O que é arquitetura contemporânea brasileira, na sua opinião?
PA: O modernismo brasileiro representa o ideal de um momento, de uma época, um ideal socialista e comunista. O modernismo brasileiro é ultimamente ligado a essa questão de um mundo mais igualitário e socialmente justo, que era muito forte em meados do século XX. E nós aqui no Brasil demos forma a este ideal de uma maneira muito interessante. É óbvio que isso ocorreu também na Europa, mas nos criamos uma escola aqui muito interessante, com Affonso Eduardo Reidy, com o Pedregulho, que levou ao auge essa questão socialista. Soma-se a isso a obra de Niemeyer, de caráter público. Isso é história da arquitetura para o mundo inteiro. Às vezes a gente recebe alguns arquitetos da Europa e do Japão e eles querem ver de perto as obras do Oscar Niemeyer, querem ver de perto Brasília, que é um ideal de uma época e se transformou em um patrimônio da humanidade. Algumas coisas deram certo, outras deram errado, mas foi sem dúvida uma grande experiência. Para se fazer uma grande arquitetura, é preciso conhecer a história. Os chineses hoje estão fazendo coisas incríveis, mas a arquitetura brasileira ainda é uma referência, porque fez e faz a diferença na história da arquitetura de todo o mundo.

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