O espírito do lugar

Vivemos em um mundo designed. Essa constatação, aparentemente óbvia, ressoa como um chamado ético para arquitetos e designers. Cada objeto ou espaço deve carregar um propósito de design. Mais do que uma técnica, o design transformou-se em estrutura cultural, capaz de moldar identidades e valores. Ele não apenas desenha o mundo — define como o habitamos.

Historicamente, a prática do design oscilou entre estética e função. No século XIX, era sinônimo de ornamento e artes aplicadas. Com o modernismo, veio a ruptura: “subtrair, não acrescentar” passou a ser o lema. Contudo, essa depuração criou um paradoxo — o indivíduo moderno, privado de excessos ornamentais, tornou-se responsável por projetar a si mesmo. A estética deixou de ser contemplativa e passou a ser performativa: um gesto político, ético e cultural.

Durante a Semana de Design de Milão 2025, algumas dessas tensões se evidenciaram. Diante de um planeta exausto, o design se vê impelido a repensar sua própria essência. Em vez de modismos, encontramos declarações de compromisso.

No Fuorisalone, o design apareceu menos como vitrine e mais como manifesto. A modularidade, a economia circular e a longevidade projetual despontam como novos pilares da criação responsável. Uma cadeira deixa de ser apenas um objeto funcional e passa a expressar uma tomada de posição contra o descarte. Em contraste, grandes marcas de moda investiram em espetáculos visuais e narrativas simbólicas para mostrar utensílios decorativos, revelando um embate entre a consciência ecológica e o apelo pelo consumo estético.

O conceito de genius locio espírito do lugar — foi recuperado em muitas instalações. Fragmentos da cidade de Milão foram incorporados aos projetos, evocando a memória dos territórios e criando pontes com tecnologias emergentes. O design, assim, costura tempos: o passado impresso nas arquiteturas e o futuro inscrito nas superfícies interativas.

Esse cruzamento entre memória e inovação evidencia uma transformação: o design contemporâneo já não se limita a criar produtos. Ele articula narrativas, afetos e experiências. A novidade não está mais na forma, mas no propósito. Prova disso foram os espaços sensoriais apresentados — superfícies que mudavam de cor ao toque, móveis com inteligência artificial adaptativa, ambientes que respondiam a estímulos corporais. Um balé entre carne e código, entre o artesanal e o digital.

É importante frisar que Milão não é o único palco para a discussão sobre o design contemporâneo. No entanto, para o mundo ocidental e para os países emergentes, a Semana de Design de Milão tem papel catalisador na construção das percepções sobre o tema.

Apesar dos avanços tecnológicos, o fazer manual não perdeu relevância. Ao contrário: há uma valorização crescente da precisão, do detalhe e da excelência técnica. Em um mundo acelerado e superficial, o trabalho artesanal ressurge como atitude ética e gesto de resistência. O design quer se enraizar. Busca nas tradições, nos saberes arcaicos e nas linguagens híbridas caminhos para permanecer relevante e conectado com a experiência humana.

Nesse contexto, o design de interiores ocupa um papel central. Ele reconecta corpo e espaço, matéria e memória. Não basta mais ocupar ambientes — queremos habitá-los plenamente, com presença e emoção. A atmosfera torna-se tão importante quanto a função.

A experiência na Semana de Design de Milão colocou em pauta que, entre outras coisas, o verdadeiro desafio não está em criar formas, mas em redesenhar as infraestruturas intangíveis da vida cotidiana — as culturais, as ambientais, as emocionais. O design relevante é aquele que perscruta os materiais, respeita o tempo e reconhece os territórios. Escolher um material, afinal, é também escolher uma ética, um ritmo, uma narrativa.

Projetar uma luminária é decidir sobre a sombra que recairá sobre os rostos. Desenhar uma cadeira é esculpir o gesto de quem nela se senta. E será que precisamos de mais cadeiras?

Se o modernismo sonhou com um “Homem Novo”, o presente nos oferece um ser híbrido — feito de barro, Wi-Fi, memória e algoritmo. Talvez essa seja a verdadeira potência do design hoje: sua capacidade de reconciliar opostos — tradição e inovação, natureza e inteligência artificial, função e beleza.

O designer emerge como mediador entre mundos, linguagens e temporalidades. Cada projeto carrega uma dimensão simbólica e política.

No fim das contas, cada interior é uma micropolítica da existência.
Não há neutralidade no design: todo espaço comunica escolhas e valores. Cabe a nós — designers, arquitetos, habitantes — assumir essa responsabilidade. O design pode preencher ou evidenciar o vazio, promover o afeto ou denunciar o excesso. Desde que haja consciência, há potência.

Habitar um espaço é, também, habitar uma escolha.
E o design, mais do que uma resposta, é o silêncio entre duas perguntas. Um intervalo onde o futuro respira, à espera das mãos que o transformarão em matéria.
Em Milão, respiramos esse intervalo.

Ila Rosete é arquiteta, mestre e doutoranda em Design pela Universidade Anhembi Morumbi, com especialização em Urbanismo Moderno e Contemporâneo pela PUC Campinas e graduação pela USP. Atua na área de design de interiores com experiência em projetos e gestão de obras, sendo fundadora do escritório Ila Rosete Arquitetura e cofundadora do P.O.Box. Premiada em diversos concursos de design e paisagismo, é também professora em cursos de pós-graduação em instituições como IED São Paulo, Belas Artes e PUC Minas.