Parte essencial do futuro da indústria da construção, a internacionalização dos projetos é o caminho correto a seguir, defende o engenheiro Roger Flanagan, da Universidade de Reading, no Reino Unido. Segundo o especialista, esse processo é amplo e todos têm que fazer sua parte: empresas, governo, órgãos regulatórios e, o mais importante, as pessoas

Professor na Escola de Gestão e Engenharia de Construção da Universidade de Reading, no Reino Unido, Roger Flanagan é atualmente um dos maiores especialistas do mundo sobre internacionalização de projetos de construção. Presidente do Chartered Institute of Building (2006-2007), o engenheiro já realizou estudos para o desenvolvimento da indústria da construção em diversos países, como Reino Unido, Canadá, Malásia, Suécia, Noruega e Estônia – além de ter trabalhado nos Estados Unidos, Finlândia e África do Sul.

Honrando o título de expert em internacionalização, Flanagan também já foi professor visitante de várias instituições de destaque mundial, como a Universidade de Tsinghua, em Pequim; a Universidade de Hong Kong; a Universidade de Tecnologia da Malásia; a Universidade New South Wales, na Austrália; e a Universidade de Chongqing, na China. Em pesquisa, suas áreas de interesse são a internacionalização da construção; a gestão de riscos e custos; e as novas tecnologias para o setor da construção, entre outras.

No ano passado, Flanagan esteve no Brasil para participar do Encontro Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído – Entac 2016. Realizado em São Paulo, o evento discutiu sobre “Os Desafios e as Perspectivas da Internacionalização da Construção”. Nesta entrevista, ele fala sobre os desafios da indústria da construção e do papel do Brasil nesse processo.

A internacionalização de projetos é uma tendência?

Roger Flanagan: A indústria da construção necessita planejar e moldar ativamente o seu futuro – e a internacionalização é uma parte essencial dele. Somente fazendo isso ela poderá perceber-se como uma indústria de oportunidades crescentes, imparcialidade e prosperidade. Uma indústria que atrairá jovens brilhantes. Ela deve voltar o seu olhar para fora, evitando ser protecionista. Empresas, governo, órgãos regulatórios e, o mais importante, pessoas, todos têm um importante papel neste jogo.

Qual é o papel do Brasil diante desse fenômeno?

Flanagan: Como nação, o Brasil enfrenta uma escolha: ir à deriva de encontro ao futuro ou moldá-lo à sua maneira. O futuro deveria ser baseado em escolha, não sorte. Depender das grandes empresas para conquistar trabalhos no exterior também é um problema. O Brasil necessita de uma reviravolta para se alinhar com o que está acontecendo ao redor do mundo.

Qual é a estratégia para se criar uma conexão entre diferentes profissionais que participam do processo?

Flanagan: Design integrado à produção são a chave do sucesso. Design de alta qualidade e competência de engenharia também são decisivos. O Brasil tem as pessoas, as habilidades, mas precisa de uma nova mentalidade para contar na cena mundial. O país tem a maior indústria de construção da América Latina; e ela tem de ter uma visão mais internacional.

De que maneira os projetos de engenharia podem ser distribuídos no mundo inteiro?

Flanagan: Ir para o exterior não é fácil, mas tornou-se necessário para criar empregos, prosperidade, e para melhorar a imagem da indústria como um todo. Você já se perguntou por que países muito menores, como a Suécia, têm tantas empresas de sucesso que comercializam internacionalmente? Isso ocorre porque criaram em sua visão um ambiente para serem internacionais.

Qual é a maior vantagem desse processo?

Flanagan: O negócio da construção mudou do mundo antigo, cuja visão dava-se apenas pela lente da economia, para um novo mundo, onde fatores sociológicos, tecnológicos, ambientais e políticos têm um papel importante. O ritmo da inovação e da entrega dos projetos mudou; com maior interdependência e desejo de entregar projetos com mais rapidez ao usar as informações mais atuais e a tecnologia da comunicação. A digitalização, a fabricação de produtos em outros locais, a integração de design e produção e o desejo de qualidade melhorada levam a uma indústria melhor.

Dividir um projeto entre vários países possibilita a exploração dos melhores especialistas de cada etapa da concepção?

Flanagan: Competitividade não é um jogo nulo. Um país não melhora a sua competitividade às custas de outros países. A competitividade de um setor da construção está relacionada à produtividade da indústria nacional da construção como um todo, com o capital intelectual, com as competências cruciais, com o empreendedorismo, e influências de uma nação. O desafio da indústria é criar condições para um crescimento rápido e sustentável. Esse tipo de crescimento vai mudar a competitividade do trabalho gerado pela mão de obra barata e de práticas ineficientes para processos mais eficientes – que exploram a tecnologia com o objetivo de melhorar a performance – e para impulsionar o conhecimento, o capital intelectual e financeiro, e a inovação de empresa e indivíduos.

Que tipo de desafios o Brasil pode enfrentar durante esse processo?

Flanagan: A indústria da construção do Brasil enfrenta desafios tanto no que diz respeito a ela mesma, quanto no que diz respeito à uma perspectiva internacional. O apoio do governo seria uma parte importante para o desenvolvimento do setor, mas, na mesma medida, é crucial o desenvolvimento das forças já existentes. A indústria precisa ter uma visão mais positiva, desenvolvendo seu potencial e identificando oportunidades. O Brasil tem muitas qualidades, com bem-educados e motivados designers, engenheiros e construtores. Sabe lidar com a diversidade de sua força de trabalho atuando em condições adversas.

Qual é a melhor definição sobre o momento que a internacionalização vive?

Flanagan: É uma corrida em direção ao futuro. Uma corrida que requer boas estratégias, e o conhecimento dos influenciadores desta corrida. Este conhecimento vai trazer os ingredientes para o sucesso. E o mais importante, o debate sobre a competitividade necessita se expandir para engajar as pequenas e médias empresas. Não é realista presumir que uma pequena ou média empresa tenha a força financeira, a inclinação e habilidade de assumir um risco no exterior. É necessário desenvolver um novo modelo que assegure que estas empresas possam se aventurar em uma expansão em outros mercados. O governo tem um importante papel na internacionalização das empresas, há vários exemplos de sucesso ao redor do mundo em que o Brasil pode se engajar na busca de boas ideias.

Conteúdo publicado originalmente pela Revista Téchne

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.