Texto: Ila Rosete | Imagens: Pexels

Entrar no Palazzo Pesaro Orfei, a casa-museu de Mariano Fortuny em Veneza, foi mais do que uma visita. A experiência transcendeu a mera observação de um espaço histórico para se tornar uma imersão sensorial e reflexiva quase como um epifania. A atmosfera emanava o cenário de uma vida vivida, e materializava um universo intelectual. As salas, objetos, e tapeçarias, narravam um microcosmo complexo, onde arte, vida, ofício e invenção se fundiam indistintamente. Foi uma leitura sobre como o artista concebe e “habita” seu mundo, borrando as fronteiras convencionais entre as linguagens. Essa vivência reacendeu minha reflexão sobre o processo de criação dos espaços, inspirando-me a me debruçar sobre a figura multifacetada de Fortuny.
Por que essa experiência foi tão transformadora? Durante muito tempo, o design centrou-se excessivamente em atributos formais, funcionais e racionais, herança de um pensamento pragmático e científico. No entanto, a complexidade do mundo contemporâneo exige que o projeto de interiores transcenda essa dimensão, aspirando a criar ambientes que sejam experiências sensoriais e emocionais completas.
A imersão me ajuda a resgatar dois elementos importantes na construção do espaço: a hibridização e o desenho de cena. Como explora Aby Cohen (2015) em sua tese, o “desenho da cena” surge para reforçar o hibridismo como uma qualidade essencial na criação do lugar como experiência. Este conceito não deve se restringir apenas à linguagem cenográfica, mas deve tratar de todos os aspectos visuais perceptíveis na composição de um espaço, estabelecendo relações entre luz, arquitetura, superfície, forma e contexto. O designer de cena por extensão, atua na criação de narrativas reais ou fictícias, através das materialidades para atender as necessidades e desejos do homem na contemporaneidade.
A casa de Fortuny me pareceu um bom exemplo dessa prática. Seu palácio não era apenas uma residência, mas um grande ateliê onde pintura, gravura, fotografia, iluminação, design têxtil e cenografia coexistiam e se alimentavam mutuamente. Ao utilizar grandes telas e tapeçarias para compartimentar os espaços, criar jogos de luz indireta e acumular objetos de diversas épocas e origens, Fortuny construiu a cena para ambientar sua própria existência. Ele compunha o espaço como uma narrativa visual densa, onde cada elemento, material ou imaterial, contribuía para uma percepção ampliada e multifacetada do ambiente. Projetar interiores, portanto, deixa de ser uma tarefa de simples disposição funcional para se tornar a composição de uma cena habitável, carregada de significado e capaz de evocar diversas camadas de percepção.
Mariano Fortuny y Madrazo (1871-1949) recria um orientalismo metafórico. Foi um polímata genuíno: pintor, cenógrafo, inventor, designer têxtil e de iluminação. Sua figura é de difícil classificação, pois ele operou à margem das vanguardas e modas de seu tempo, guiado por uma filosofia pessoal que podemos associar ao ideal da obra de arte total (Gesamtkunstwerk), tal como teorizado por Wagner.
Fortuny acreditava na indissociabilidade entre arte, artesanato, ciência e design. Em seu palácio-laboratório, ele criou um microcosmo autossuficiente, uma “torre de marfim” onde podia experimentar livremente. Lá, ele patenteou sistemas revolucionários de iluminação cênica, como a “Cúpula Fortuny”, e desenvolveu tecidos e vestidos que se tornaram lendários, inspirando-se em fontes tão diversas quanto a Grécia clássica, o Renascimento veneziano e o Oriente. Seu horror vacui na decoração não era um acúmulo caótico, mas uma curadoria cuidadosa de referências que alimentavam seu processo criativo.
Sua casa era, portanto, a materialização de seu método: um arquivo tridimensional de ideias, onde o passado dialoga com invenções futuristas, e onde a roupa – entendida como uma “segunda pele” profundamente reveladora – era tão importante quanto a arquitetura que a abrigava. Fortuny demonstrava que ser um artista contemporâneo não significava negar o passado, mas ressignificá-lo de maneira pessoal e atemporal, criando uma síntese única que é, ao mesmo tempo, tradicional e radicalmente moderna.
Como transportar essa lição para a prática do design de interiores hoje? Para o filósofo italiano Giorgio Agamben (2008; 2009), o homem contemporâneo não é aquele que adere cegamente ao seu tempo, mas aquele que, através de um “deslocamento e anacronismo”, mantém um olhar crítico sobre a era em que vive. “Ser contemporâneo é uma questão de coragem”, escreve Agamben, “porque significa ser capaz não apenas de manter fixo o olhar no escuro da época, mas também de perceber nesse escuro uma luz”.
Fortuny foi esse espírito contemporâneo, não se adequou às demandas de sua época, mas criou seu próprio tempo dentro de seu palácio. Da mesma forma, nós, arquitetos e designers, somos desafiados a não criar projetos vazios de reflexão, repetindo fórmulas estabelecidas. Devemos ter um olhar crítico para questionar as imposições e nos desviar dos caminhos óbvios, além de um extenso repertório para entrelaçar as diferentes linguagens e aprendizados.
O legado de Fortuny nos ensina que um projeto de interiores com propósito é aquele que, como uma boa cena, nos convida a uma experiência. É um espaço que não se entrega completamente à primeira vista, mas que revela suas camadas aos poucos, provocando e inspirando seus habitantes e aos que são convidados a entrar. Ao adotarmos essa postura podemos criar ambientes que não apenas funcionam, mas que também contam histórias, ressoam emocionalmente e, como a casa de Fortuny, tornam-se epifanias espaciais para aqueles que os habitam. Ser contemporâneo, no fim, é ter a ousadia de iluminar o escuro do nosso tempo com projetos que são um reflexo e uma transcendência dele.
Maria Elvira (Ila) Rosete é arquiteta e designer de interiores, doutoranda em Design pela Universidade Anhembi Morumbi, onde também concluiu o mestrado na linha de pesquisa Design, Arte e Tecnologia. Com mais de 20 anos de experiência, exerce a docência em instituições de destaque, como o Istituto Europeo di Design e o Centro Universitário Belas Artes. Foi diretora financeira e curadora de cursos para a Associação Brasileira de Design de Interiores (ABD). Cofundadora da casa P.O.Box design, desenvolve projetos e consultorias voltados para interiores, produtos, tendências e lifestyle, além de atuar como curadora e apresentadora do Giro P.O.Box podcast. Sua atuação percorre o universo acadêmico, criação de ambientes sensoriais e participação em exposições de arte e design. Premiada em concursos nacionais, tem projetos expostos em mostras como Casa Cor e Casa Hotel São Paulo. Colabora como colunista e palestrante em temas relacionados a macrotendências, lifestyle e linguagens híbridas.