Texto: Maria Elvira Ila Rosete | Imagens: Freepik; Eigenes Werk; Flickr

Nas últimas semanas, entre um gesto automático e outro pelo feed de uma rede social, fui capturada por uma publicação da designer e analista de tendências Fah Maioli. Ao final do post, um convite para aprofundar-se no tema. Segui.
O artigo da autora mencionava Neuromania, dos italianos Paolo Legrenzi e Carlo Umiltà. O livro faz um questionamento sobre a forma como as diversas áreas do conhecimento vêm sendo “contaminadas” pelo discurso neurocientífico.
Por coincidência ou sincronicidade, eu relia A Poética do Espaço, do filósofo francês Gaston Bachelard. Este entrecruzamento de referências reacendeu uma velha inquietação pessoal: até onde vamos submeter a experiência do habitar ao domínio da razão?
A questão central de Neuromania é direta: a que ponto a hegemonia da neurociência não reduz a complexidade da experiência humana a um conjunto de estímulos mensuráveis no cérebro?
Segundo os autores, vivemos na era das “neurocoisas”: neuroarquitetura, neuromarketing, neurodesign — rótulos que garantem, através da cientificidade, verdades incontestáveis a qualquer assunto.
A promessa parece sedutora para nós, homens e mulheres, que desenhamos espaços. O processo inclui compreender o cliente por dentro, acessando seus desejos, sua atenção através de métricas científicas para, enfim, projetar suas emoções. Mas o custo dessa busca por precisão é alto. A experiência, com toda sua espessura sensível e subjetiva, corre o risco de ser achatada em nome de mapas cerebrais.
Desde os anos 90 do século XX, autoproclamada a “década do cérebro”, as neurociências se expandiram como lente dominante para explicar o comportamento humano, as preferências estéticas e até mesmo a maneira como nos relacionamos com os espaços. Embora interessante, essa visão cria uma hipótese duvidosa: quanto mais “neuro”, mais algo é considerado verdadeiro, mesmo que a explicação à questão seja reducionista ou falaciosa.
No campo do design de interiores, essa lógica se manifesta de forma contundente. Projetos são concebidos como respostas diretas ao funcionamento cerebral: estímulos visuais organizados segundo métricas de atenção, cores que otimizam o humor, formas que prometem conforto emocional imediato. A casa transforma-se em uma máquina de desempenho sensorial. O espaço é tratado como um laboratório, e o morador, como um cérebro com olhos. Mas e o corpo, o tato, o cheiro, o tempo, as emoções? Onde ficaram guardados os rituais que humanizam a vida cotidiana?
A leitura do livro de Bachelard sensibiliza. Em A Poética do Espaço, o filósofo nos conduz por uma arquitetura da imaginação, onde a casa é muito mais que função ou estímulo: é abrigo do ser, território do devaneio, continente de memórias. No universo do autor, a luz que atravessa uma cortina ou refletem a rugosidade de uma parede evocam mais sentidos do que qualquer diagrama cerebral. Habitar, para ele, é poeticamente se enraizar no mundo.
Assim como Bachelard, outros autores, artistas arquitetos e designers arriscam-se no desafio em desenvolver projeto de espaços que garantam sua dimensão tátil, temporal e afetiva. O arquiteto finlandês Juhani Pallasmaa, por exemplo, afirma que “não habitamos apenas o espaço; o espaço nos habita”. Em suas obras, defende uma arquitetura que envolva todos os sentidos e que reconheça o corpo como mediador da experiência. Para ele, o design não deve apenas seduzir os olhos, mas tocar a pele, ouvir o silêncio, acolher a memória.
O artista-arquiteto Friedensreich Hundertwasser também nos oferece caminhos. Em seus “manifestos de pele” propõem uma ruptura com a rigidez modernista e celebram o corpo como medida primeira do espaço. A casa, em sua visão, é nossa terceira pele, uma extensão viva do ser, onde curvas, cores e texturas refletem a natureza orgânica da vida. Seu gesto artístico parece dizer: projetar não é controlar, mas permitir que o espaço respire com quem o habita.


Essa virada sensível pode parecer nostálgica, mas na verdade é uma resposta à crise de sentido em um mundo saturado de imagens e mediado por telas. A arquitetura moderna, ao privilegiar a lógica visual, marginalizou os sentidos táteis, olfativos e auditivos, amputou o corpo do projeto. Recuperar o sensível é, portanto, colocar a cabeça no corpo reintegrando a unidade do indivíduo.
A casa passa de resultado a processo. O espaço em constante construção, moldado pelos gestos cotidianos, pelos afetos, pelo tempo. Em lugar da imagem renderizada e perfeita, o calor da lareira, a sombra que dança na parede, o som de passos sobre o assoalho. O projeto deixa de ser performance e passa a ser presença.
E importante deixar claro que esta reflexão não significa negar os avanços das ciências cognitivas. Pelo contrário: reconhecê-los é parte do processo. A questão que se levanta aqui é a hegemonia de olhar por um único prisma. O design precisa ser, antes de tudo, plural, híbrido e multidisciplinar. Incorporar a razão, sem esquecer da intuição. Projetar para o cérebro e a pele, considerando o tempo e a história. Porque somos mais do que sinapses. Somos cheiro, suor, silêncio e saudade. Somos corpo encarnado no espaço.
Em tempos de desmaterialização, sobrecarga informacional e aceleração contínua, reencontrar o sensível é também reencontrar a nós mesmos. O design contemporâneo não pode mais se contentar com métricas cerebrais. Precisa mergulhar na espessura da experiência, reencontrar a poética do cotidiano, construir refúgios simbólicos. Entre a neuroimagem e a memória afetiva, há um campo fértil de possibilidades.
Que a casa volte a ser lar. Que o projeto se destine ao corpo que sente e exprime sua humanidade.
Ila Rosete é doutoranda e mestre em Design pela Universidade Anhembi Morumbi (PPG-UAM), pós-graduada em Urbanismo Moderno e Contemporâneo pela PUC Campinas e graduada em Arquitetura e Urbanismo pela USP. Com vasta experiência em desenvolvimento de projetos e gestão de obras na área de design de interiores, atua como arquiteta na Ila Rosete Arquitetura e Design de Interiores e é cofundadora da casa P.O.Box, bureau de pesquisa e consultoria em tendências e lifestyle. Ao longo de sua carreira, foi premiada com o Primeiro Lugar no Concurso Ambient Design Cyrela (2021), Primeiro Lugar no 6º Concurso Nacional de Paisagismo Urbano ANP (2019), Medalha de Bronze no Brasil Design Award (2019) e Primeiro Lugar no Prêmio Lar Center – Novas Tendências do Design de Interiores (2002). Também é docente nas pós-graduações de Design de Interiores no IED São Paulo, Centro Universitário Belas Artes e PUC Minas Gerais.