Não quero criar casas frias

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De uma simplicidade notória, mas sem falsa humildade, o arquiteto deseja que as pessoas se sintam acolhidas nos seus projetos que trazem um pouco do seu tempero baiano. Foto: Pedro Zuccolotto (retratos)

Se o baiano Nildo José Almeida Filho, nascido em Feira de Santana, tivesse seguido no curso de Medicina, provavelmente você jamais iria ler essas linhas. Mais conhecido pelos dois primeiros nomes, o jovem arquiteto de 31 anos formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie fala de forma serena e comanda um escritório com 11 profissionais — gente jovem reunida e antenada — no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Sua atuação profissional começou ainda durante a faculdade quando um amigo publicitário lhe confiou seu apartamento. Desde então, Nildo caminha para entregar seu terceiro apê em Nova Iorque, além das obras espalhadas por São Paulo. No currículo do profissional também constam três mostras da CASACOR São Paulo. Recentemente, venceu o 24º Prêmio Deca nas categorias Cozinha Mostra Nacional, com a Casa Dendê, e Banheiro Residencial. A seguir você confere uma entrevista exclusiva com o arquiteto. 

Onde surgiu seu interesse por arquitetura?

Nildo José: Não sou de família de arquiteto, mas desde pequeno gosto muito do mundo da arquitetura. Acabei indo para outro curso antes, depois de mais ou menos oito meses estudando Medicina resolvi ir atrás do sonho e cursar arquitetura. Já existia esse movimento para a profissão, sem nem saber o que era direito. Nunca morei em casa feita por arquiteto renomado também, mas sempre vi na minha casa um objeto de estudo. 

Você estudou no Mackenzie. Como foi a experiência durante a graduação?

NJ: Foi maravilhosa. Os professores com quem tive aula e contato me deram uma visão de arquitetura muito significativa, que vai além da parte de design de interiores e decoração. A gente sempre teve durante o período da faculdade um olhar muito voltado para o centro da cidade. Isso me fez desviar o foco que estava para o bairro dos Jardins, Pinheiros, para o centro e especialmente para a cidade de São Paulo. Aprendi que a partir do momento em que você constrói um edifício na cidade, você não pode só construir o prédio. Você precisa entender qual o impacto que ele vai causar e entender qual a gentileza que você vai dar para cidade. É um prédio de gentileza, uma casa, um banco que vai gerar gentileza. A partir do momento que você estuda urbanismo e todos os fluxos, passagens e histórias que têm ali, você entende, também, as histórias de gentileza urbana que o arquiteto tem que criar. Acho que isso foi muito bom.

Qual foi seu primeiro projeto? 

NJ: Meu primeiro projeto foi durante o TFG. Um amigo meu publicitário havia comprado um apartamento e me propôs esse desafio. Era um apê em Pinheiros e tínhamos o budget muito limitado, algo que é bem realista, mas nos viramos nos 30 e se tornou um lugar muito visitado. Depois disso vieram os outros projetos e eu saí da faculdade já precisando montar meu próprio estúdio. Comecei por uma sala de coworking e depois montei de fato meu próprio escritório. 

Você tem projetos em Nova Iorque, como se deu essa sua relação de conexão com a cidade? 

NJ: Começou com um projeto de um brasileiro, que foi o primeiro apartamento que fizemos por lá. Ele já conhecia nossos projetos e quando se mudou nos convidou para fazermos assinarmos o espaço. Depois, um outro cliente que já morava lá viu o trabalho, gostou e nos chamou para também fazer o dele. Agora estamos num terceiro. Os projetos aparecem de forma muito natural e orgânica. Eu adoro a cidade, se eu tivesse a possibilidade de abrir um escritório por lá, eu abriria. 

Como é se colocar no mercado de arquitetura? 

NJ: Eu acho que ainda tem muito preconceito. O recém-formado tem de estar preparado e ter coragem de encarar um mercado em que já tem algumas figuras muito consolidadas. Elis canta na canção: “O novo sempre vem”. A partir do momento em que a pessoa chega tentando fazer novidade, uma história nova, existe no mercado algumas panelas que não estão preparadas, de fato, para o novo. O mercado da arquitetura ainda é um mercado muito glamourizado e esse glamour muitas vezes não aceita o novo. 

O que seria o novo?

NJ: Já existem nomes consolidados e para aceitar o novo esses nomes se sentem ameaçados, em um primeiro momento. Eu senti isso, mas confesso que já passou.

Seus projetos tem uma pegada mais White e minimalista. Como você se define?

NJ: Acho isso de se definir muito difícil. Eu tenho uma tendência muito forte ao minimalismo porque eu acho que no mundo de hoje precisamos repensar o uso das coisas e como consumimos elas. É uma forma de sustentabilidade inteligente. Evito utilizar essa palavra pois já é bem batida. Em vez de sair utilizando desenfreadamente, utilizar somente o essencial na sua casa. Isso acaba gerando uma tendência minimalista, mas o minimalismo, de essência, ele é frio. Isso sempre foi um conflito muito grande na minha cabeça. Não quero criar casas frias. Somos minimalistas, acreditamos numa linguagem de arquitetura contemporânea, mas eu sempre digo que tem um tempero. No meu caso, tempero baiano. Ou seja, um minimalismo que não é frio. Eu quero que as pessoas se sintam acolhidas. 

Como sua origem influencia na sua forma de fazer arquitetura?

NJ: Apesar de não ter nascido em uma família de arquitetos, como disse, meus pais sempre me deram uma carta branca para o conhecimento e cultura. Sempre tive acesso a todos os prédios culturais de Salvador. Cheguei no Solar do Unhão e me emocionei sem saber o que era Lina Bo Bardi. Através dessas “âncoras”, eu fui entendendo porque eu consegui me emocionar, o que tem dentro do trabalho da Lina que tanto me emociona. E assim, vários outros arquitetos que temos, por exemplo, o Lelé, presente em Salvador de maneira tão forte. Se você entrar em um hospital da rede Sarah Kubitschek você não consegue entender direito até que estude o projeto e entenda o que tem ali que te emociona. Salvador tem uma arquitetura muito peculiar, muito característica. Desde o período da colonização até hoje.

O que te inspira e te ajuda a criar?

NJ: A moda e arte contemporânea me ajudam muito, sempre gosto de ver o que está rolando nesses universos. Esses dias eu fui em um balé do Theatro Municipal de São Paulo e no dia seguinte eu estava “pirando” em planta. É como se todas essas coisas subjetivas estimulassem sinapses mesmo, em que a gente começa a desenhar de forma muito mais prática. E a própria arquitetura. Eu acho que é um conjunto de coisas que é interessante, que eu gosto e que me ajudam e estimulam.

Que conselho você daria para quem está começando agora?

NJ: Fazer o que ama. Vai atrás do que gosta, não desiste do sonho, é difícil, mas vale a pena. 

E para estagiar no seu escritório, o que é preciso ter?

NJ: Fazer o que ama (rindo). Tem que amar mesmo a profissão. Tem dias que a gente tem que ficar até tarde para entregar um projeto. Não sou eu sozinho que faço o trabalho, somos nós que fazemos e se a pessoa não tá amando e não está se vendo ali dentro e nem possuindo aquilo junto da equipe, ela não vai ter um desenvolvimento tão bom. Ela precisa encarar o ofício como atração.

E sobre os perrengues da profissão quando se é jovem…

NJ: Acho que arquitetura sempre vai ter contratempo. Sempre vamos apresentar uma coisa e quando formos ver a realidade será necessário adaptar. Eu não busco a perfeição, eu busco o belo. Nem sempre o belo está no perfeito e sim no imperfeito. O perfeito passa a ser uma busca inalcançável. Querer ter tudo perfeito é uma loucura, a vida não é perfeita. Quando aparece uma surpresa em uma planta temos de ter calma e jogo de cintura para resolver da melhor forma. E nesses grandes desafios aparecem as melhores soluções, aquelas que deixam a gente mais feliz. Porque é nessa situação que vem à tona nosso repertório de arquiteto.

Matéria originalmente publicada na revista aU.

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