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Morte ressignificada: mimetismo com a paisagem

Crisa Santos, em revitalização do Parque das Cerejeiras, potencializou a simbiose entre arquitetura e natureza para suavizar o processo de luto. Por Allaf Barros e Pedro Zuccolotto. Fotos Lucas Fonseca, Isis de Oliveira e Marcelo Oseas

Transformar uma travessia conturbada em algo mais ameno e acolhedor. Foi pensando nessa concepção que Crisa Santos se guiou para desenvolver a revitalização do Parque das Cerejeiras, de 300 mil metros quadrados, localizado no Jardim Ângela, Zona Sul de São Paulo. “Trabalhei a religião em minha vida e isso me trouxe mais compaixão e empatia com a morte e o que ela traz ao ser humano. Como consequência, comecei a ter mais atenção pelo indivíduo de luto e como ele atravessa essa experiência”, conta a arquiteta. Ela também revela que, hoje, interpreta a morte como uma continuidade.

Neuroarquitetura

O parque é uma galeria a céu aberto, com esculturas, obras de arte e instalações criadas exclusivamente para o local. Tudo pensando para causar impactos de forma construtiva, fazendo com que a pessoa se sinta viva apesar da dor do luto., torando a experiência mais natural através da biofilia. O projeto foi baseado principalmente no conceito da neuroarquitetura. “A neuroarquitetura se utiliza de ciência para criar projetos que criam sensações e percepções, provocando emoções aos usuários, visa o aumento de consciência e compreensão dos impactos da arquitetura sobre o cérebro e os comportamentos humanos”, explica Crisa Santos.

O portal

O portal da entrada do Parque das Cerejeiras possui estrutura paramétrica construída em madeira que remete ao movimento de um voo para um lugar sagrado. Os morrotes na grama fazem alusão à alma se elevando, uma ascensão aos céus. Esta portaria reforça a liberdade de ir e vir do visitante e da comunidade que mora no entorno.

A praça

Um dos elementos mais simbólicos do Parque das Cerejeiras, a Praça da Eternidade, é formada por diversos trechos com chapas de aço em movimento espiral, trazendo uma narrativa que faz uma alegoria a todas as fases da vida: nascimento, adolescência, fase adulta, geração dos filhos, a maturidade e a passagem. As curvas das chapas representam os capítulos dessa narrativa e assumem o papel de guardiã de nomes impressos em sua superfície. “A praça é um manifesto de vida e nela pulsa conectividade. É um local de afeto que assinala o parque como território de reencontros perpétuos”, explica a arquiteta.

Por estes motivos, Crisa concebeu recantos de tranquilidade, inclusive nas áreas tradicionais de um cemitério convencional: a capela, por exemplo, tem estilo contemporâneo e convidativo, com estrutura em rasgos que permitem que a iluminação natural entre pela arquitetura; o sol divide espaço com bancos de madeira originais de mais de 25 anos e obras de arte de Alessandra Bufe. Nela são realizadas as missas cerimoniais e reuniões com psicólogos para enlutados e velórios.

O orquidário

Em um espaço às margens do bosque, Crisa projetou um orquidário com estrutura de madeira que segue o prolongamento das árvores e ângulos marcados. Outro elemento recém-lançado é o velório-jardim, a céu aberto, com uma cobertura em madeira e bancos de aço de Sergio J. Matos distribuídos em seu entorno. “É uma maneira não muito utilizada pelos brasileiros, mas quando se tem a noção de que, conforme mais espaço arejado, mais contato com a natureza, o processo de luto pode ser melhor assimilado, e também configura simbolicamente um abraço”, conta.

Ficha técnica

Nome do projeto: Memorial Parque das cerejeiras
Área do terreno: 305 mil m²
Ano de início do projeto: 2010

Ano de início de obra e término:
Portaria: 2014
Mirante: 2014
Capela: 2015
Orquidário: 2016
Praça da Eternidade: 2017
Prédio Vestiários/ Almoxarifado e Refeitório: 2017
Banheiros F/M: 2018
Banheiros PNE: 2018
Velório Jardim: 2018

Projetos de reforma e novas edificações:
Velórios totalizando 8 salas: 1.150 m²
Borboletário: 347 m²
Anfiteatro: 830 m²
Cobertura/Marquise dos prédios abaixo: 580 m²
Café: 84 m²
Floricultura: 60 m²
Prédio administrativo: 224 m²
Capelinha: 48 m²
Vendas: 25 m²

Arquitetura: Crisa Santos/ Dayane Cardoso/ Michelle Resende/ Vera Ligia
Equipe complementar: Maria Beatriz Monteiro/Ana Paula Ribeiro/ Rodrigo Shuttleton/ Ignez Souza ( projetistas)
Calculistas Madeira: Stamade/ Rewood/ Carpinteria
Engenheiro de fundação: Ebratec
Construtora: Força Bruta/ Rewood e Carpinteria (execução da montagem das estruturas de madeira)
Serralheria: Cancela

Fornecedores

Ferragens: Osawa e Sorefi
Parafusos: Rothoblaas e Martins Bastos
Altares: Marmoraria Piramide
Revestimento: Lepri, Portinari e Neolith
Fornecimento de madeiras: Esmara (Madeira laminada colada)/Rewood (Madeira laminada colada)/Amarante/Zanchet
Esquadrias de alumínio: Quatro Vettro
Louças, metais e caixa acoplada embutida: Deca
Vernizes: Zobel
Chapas de aço: Euroaço e VGF
Descensores (elevadores para urnas capela e velório jardim): Mabitec
Telhas: TC Shingle

Matéria originalmente publicada na revista aU.

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