Com interior predominantemente feito de madeira, módulo funcional em montanha mimetiza natureza no verão e salta aos olhos em meio ao típico cenário nevado do inverno norueguês. Texto por Pedro Zuccolotto. Fotos por Bruce Damonte e Tor Ivan Boine

Skigard Hytte, ou Cabine Skigard, é o primeiro projeto de Casper e Lexie Mork-Ulnes para sua própria família – dois filhos, Lucia (13) e Finn (11), e seu cachorro, Lupo. Eles se conheceram há 20 anos em uma viagem e sempre compartilharam um amor pelas montanhas, pela neve e pelo esqui. Antes, moravam em São Francisco e, depois, mudaram-se para Oslo. Assim, decidiram construir uma cabana nas montanhas, onde pudessem abraçar o estilo de vida ao ar livre da Noruega. A cabine está localizada do lado oeste de Kvitfjell (Montanha Branca em norueguês), um resort de esqui desenvolvido em 1994 para as Olímpiadas de Inverno em Lillehammer. Ela se encontra 943 metros acima do nível do mar – quase no topo da montanha, que possui 1.039 metros de altura. Isso significa que a Skigard Hytte está sujeita às condições extremas do inverno. De novembro a abril, é possível ir até o mercado mais próximo descendo com esquis e subindo de elevador. No verão, as trilhas garantem uma caminhada tranquila de 20 minutos até o topo da montanha.

Demandas

O programa de necessidades incluía um módulo funcional com três quartos, uma sauna e um anexo que permitisse um espaço privado aos convidados. Duas paredes de vidro do chão ao teto, de 6 metros de comprimento, proporcionam uma ampla vista para a área de estar, cozinha e sala de jantar, criando a experiência de estar do lado de fora. A parede de vidro em direção ao sul permite que o sol baixo do inverno ilumine a casa durante o dia. Além das paredes de vidro, uma claraboia traz mais luz natural nas áreas de estar.

A entrada da casa se dá por meio de uma escada para a varanda, onde já é possível sentir a experiência da vista através de um portal revestido de pinheiro. Existem duas portas de cada lado do portal que se abrem para a casa principal (esquerda) ou anexo de convidado (à direita). Ao entrar na casa principal, encontra-se um corredor com acesso direto a uma sala onde se pode remover as camadas externas de roupas e sapatos. Sob a primeira claraboia, o corredor de entrada também acessa os dois quartos e o banheiro, ambos compactos para crianças. Depois de andar pelo corredor, volta-se para a natureza através de duas longas paredes de vidro que compõem um amplo cômodo, com vista para o vale e pistas de esqui de um lado e bosques pelo outro. O espaço abriga a principal área comum, que contém cozinha, sala de estar e sala de jantar. No final do grande cômodo, encontra-se a suíte do casal – com banheiro e sauna.

Arquitetura vernacular

O projeto é uma resposta específica do local ao contexto e à paisagem. É um exemplo de como a arquitetura pode transmitir conhecimento do passado para o presente, criando um vínculo afetivo com a paisagem construída. “Nós tomamos muito cuidado ao estudar o vernáculo rural e analisar a tipologia das construções locais. Queríamos entender completamente quais as formas realizadas funcionalmente e como elas moldaram a cultura arquitetônica local”, conta Casper.

O revestimento exterior da cabine é feito de skigard, um tipo de tora de madeira de corte transversal que possui 3 metros de comprimento e é tradicionalmente disposta na diagonal pelos agricultores noruegueses. Referência da arquitetura rural, a fachada áspera faz com que a cabine se encaixe na paisagem acidentada e na vegetação florestal. No inverno, quando as lacunas de skigard se cobrem de neve, a casa recebe uma expressão nova e mais suave.

O telhado da residência também lembra os tradicionais telhados de grama, comuns as casas rurais de madeira na Escandinávia até o final do século XIX. Listada pelos regulamentos de planejamento locais como um dos poucos materiais permitidos para telhados (além de ardósia ou madeira), a cobertura vegetal move-se com o vento e ajuda a suavizar a rígida geometria retilínea da cabine.

A cabine possui um plano regular – uma sequência enfileirada de salas em um corredor central – chamado de Trønderlån na região de Trøndelag, na Noruega, local onde a mãe de Casper nasceu.

Vida acima e abaixo

Depois de garantir um local de 2.000 metros quadrados na estação de esqui de Kvitfjell, com vistas deslumbrantes do vale, Casper e Lexie começaram a dar forma ao retiro que sempre quiseram: a habitação principal com um anexo de hóspedes, tendo cada quarto uma visão diferente. Os arquitetos familiarizaram-se com as qualidades únicas do terreno enquanto acampavam e eram acordados por vacas e ovelhas na porta da barraca. Então, decidiram dar à casa uma configuração incomum, mas direta. Afinal, casa de um arquiteto pode se dar ao luxo de ser um laboratório de ideias. Elevaram a residência, criando assim, simultaneamente, uma plataforma de visualização acima da natureza. Casper e Lexie se permitiram ultrapassar os limites e experimentar estratégias de design e material que os clientes podem não ter apetite para testar.

Os arquitetos queriam uma casa que se conectasse suavemente com o chão e permitisse que o terreno abaixo da residência se mantivesse natural. “O terreno tinha uma trilha usada pelos animais para atravessar a encosta íngreme. Esse caminho hoje dá acesso à casa.

A dupla já tinha experiência com construções acima de piers ou fundações elevadas. Foi assim, segundo eles, que aprenderam que essa é a maneira mais efetiva de lidar com a neve sem precisar retirá-la com uma pá nos dias em que portas e janelas ficam cobertas pelo gelo. A elevação ajuda a lidar com as condições climáticas e oferece abrigo para as ovelhas durante os meses de verão.

Tudo de madeira

Uma característica notável da casa é que todas as superfícies são revestidas de madeira. A rugosidade não convencional da madeira Skigard é correspondida por um espaço interior quase que totalmente homogêneo, onde painéis de pinho maciço são leves e suaves. Eles criam uma sensação íntima e aconchegante, além de oferecer poucas distrações para tirar os olhos da natureza lá fora. Todo o armário e móveis personalizados são feitos de três camadas de folhas de pinheiro laminadas cruzadas.

A materialidade cria uma qualidade olfativa na casa. “Hesitamos em ter qualquer material exposto que não fosse de madeira, de modo que as paredes do chuveiro, pisos, placas de descarga, placas de ventilação e até as alças da geladeira são feitas de madeira (furu ou pinho norueguês). A sauna é revestida em Osp (madeira de Aspen)”, conta Lexie.

Dados da obra

Local: Kvitfjell, Noruega
Área construída: 145 metros quadrados
Área do terreno: 2.148 metros quadrados
Início da obra: verão 2017
Conclusão: outono de 2019

Ficha técnica

Paredes interiores: painéis de pinho Moelven, acabamento ártico
Tetos interiores: painéis em pinho, acabamento ártico
Paredes e tetos interiores/sauna: Madeira de álamo
Revestimento exterior: Gran skigard.
Revestimento da entrada: pinho de cerne não tratado
Pisos: revestimento de pinho Moelven, acabamento ártico
Iluminação: Zangra 027
Armários e móveis embutidos: painéis de madeira laminada cruzada de pinho de 3 camadas, tratados com cera dura Osmo 3111
Sistema estrutural: pilar e viga em madeira laminada cruzada cortada CNC; colunas de pinhoe vigas

Fornecedores

Janelas e portas: Nyhuset Bruk
Móveis da cozinha e armários do banheiro: Strønes Snekkerverksted
Bancada da cozinha: Pinho maciço, Strønes Snekkerverksted
Casas de banho/paredes: painéis de pinho Moelven, acabamento ártico
Banheiros/pisos: deque de ripas de pinho sobre membrana de impermeabilização emborrachada
Louças sanitárias: Hansgrohe; Duravit; Tapwell
Eletrodomésticos: Gaggenau
Acessórios de cozinha: torneira KWC, pia Franke

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