Mista de fato, metálica para o observador

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Engenharia e arquitetura trabalham juntas para solução estrutural mista de edifício residencial na capital gaúcha. A fachada que revela aparência de estrutura metálica esconde núcleo estrutural de concreto. Por Allaf Barros. Fotos por Roberta Gewehr e Divulgação

Localizado na capital gaúcha, o terreno em forma de trapézio com três frentes possibilitou que futuro Esquina Chartier tivesse um destaque no bairro residencial de Higienópolis, em Porto Alegre. A esquina, área onde o terreno de 700 metros quadrados se estreita, fica próxima de uma zona arborizada, de um colégio e de uma igreja. Ou seja, uma área movimentada do bairro.

Terceiro trabalho da parceria entre o escritório OCA (Oficina Conceito Arquitetura) e a MKS Empreendimentos, a intenção era que o prédio fosse construído 100% em estrutura metálica. No entanto, para não elevar os custos da obra, foram feitas adaptações que coubessem dentro do orçamento. “Optamos por construir uma estrutura mista que privilegiasse, esteticamente, a estrutura metálica”, explica o engenheiro Rafael Kopper, da MKS.

Os apartamentos têm planta racionalizada: foram pensados espaços limpos e ortogonais. Os quartos possuem uma área de armários e todas as plantas são flexíveis, permitindo mudanças ao longo do uso. As tipologias variam de 01 dormitório (65 m2) até 4 dormitórios (143 m2). Todas as unidades recebem o sol da manhã e possuem balcões ou sacadas, aumentando a entrada de luminosidade. “Aproveitamos a parte mais larga do terreno para colocar as unidades menores de apartamentos e privilegiamos a esquina para unidade de maior. São três apartamentos por andar e a circulação vertical vem articular o pavimento-tipo de forma racional”, explica Maurício Rissinger do OCA.

No 7º e 8º pavimentos estão os apartamentos duplex do edifício. Também com três unidades, estas privilegiadas possuem pé-direito duplo. Nos apês menores, uma escada plissada de concreto conduz os moradores ao nível superior, onde uma passarela conecta os ambientes da área íntima.

No Esquina Chartier, além do controle solar feito por meio dos brises deslizantes, ainda foi pensada uma cobertura verde acessível aos moradores e o reaproveitamento da água da chuva para irrigação do jardim.

A implantação

O terreno tem três frentes: a esquina, a Rua Brigadeiro Oliveira Neri e a Rua Eduardo Chartier, que é a rua da fachada principal. A aresta do terreno que fica voltada para o Norte tem cota mais baixa. “Diante disso, nesta fachada, optamos por manter três metros de recuo junto à divisa. Ainda sim, a fachada tem portas e janelas, já que se trata da face Norte. O panorama se abre para uma bela vista do aeroporto e da cidade de Porto Alegre”, explica Rissinger. Embora a equipe tenha consciência de que a vista possa ser obstruída no futuro por uma edificação vizinha, no cenário atual, o prédio se destacou do entorno, tornando-se um marco visual. “Aproveitamos a parte mais larga do terreno para dispor as unidades menores de apartamentos. Privilegiamos a esquina para unidade de maior do pavimento-tipo”, explica o arquiteto. A planta oferece três apartamentos por andar e a circulação vertical articula de forma racional o desenho, que exclui, por exemplo, áreas perdidas como corredores. “A partir dessa lógica, dispusemos três apartamentos chamados ‘de frente’ porque todos têm vista para a rua e todos recebem a insolação da manhã do Leste”, completa.

A fachada

A equipe partiu para o detalha mento arquitetônico de como seria fazer as estrutura de uma forma que não parecesse “falso” o aspecto aparente da estrutura metálica. Um estudo com a altura da seção dos perfis que seriam necessários para a sustentação real do prédio (com vigas) foi preparado. “Utilizamos seções originais e perfis disponíveis no mercado da Gerdau, discutimos como seriam usados se a gente fosse construir em estrutura metálica, porém eram fixados na estrutura de concreto armado”, explica Kopper. Ainda no início, o projetista foi orientado a considerar os esforços adicionais nas vigas de periferias que é onde estão fixa das as estruturas auxiliares.

“As fixações foram calculadas dentro do nosso projeto estrutural para suportar todo a carga do conjunto da estrutura metálica com posta por placas de aço de espessuras consideráveis e fixadas junto ao concreto com barras roscadas e chumbador químico”, explica o Tiago Valadão, da Metalmundi.

Toda a parte de fabricação das vigas, furação e medidas especiais foram feitas pela Meltamundi na própria fábrica para facilitar o sistema de montagem na obra. Na avaliação de Tiago, um dos maiores desafios durante a execução foi instalar com segurança as peças produzidas fora do canteiro. “Por se tratar de uma estrutura de fachada com mais de 26 metros de altura, redobramos o cuidado com nossos colaboradores que executaram a instalação in loco. Utilizamos guindastes e plataformas mecânicas que nos permitiam chegar a altura necessária para execução”, explica.

Garagem e subsolo

No subsolo, optou-se pela galvanização de chapas metálicas para a condução das águas pluviais. O sistema tem funcionamento análogo ao de telhas, logo, não há risco de oxidação. O material foi aplicado diretamente sobre a cortina de contenção e não houve necessidade de reboco ou pintura. “A água que passa pelo subsolo deve ser conduzida para que escorra entre a chapa e por todo o perímetro do lote. Um sulco de drenagem com 15 cm de profundidade separa o piso de concreto polido da cortina. O vão é preenchido com brita compondo o sistema de drenagem”, explica Kopper. O sistema de drenagem do subsolo, de trincheira, é do tipo espinha de peixe com queixeira, tubos perfurados e de dreno conduzem a água ao poço do sistema de bombeamento. “Tudo acontece no perímetro do lote, e a água escorre sem passar pelo piso da garagem”, completa o engenheiro. O método foi desenvolvido e customizado por conta da preocupação com o acabamento impecável também na garagem do edifício.

Brises

Os brises foram feitos de alumínio, mas pintados com uma tinta eletrostática assemelhada à madeira. A justificativa é que esse tipo de cobertura garante maior durabilidade, além de dispensar manutenção constante como a madeira – que necessita de verniz periodicamente reaplicado. Esses brises, quando estão em contato com as sacadas, deslizam e os moradores conseguem manuseá-los facilmente, segundo o arquiteto Maurício Rissinger. “É um quadro de metal muito leve com cantoneiras de alumínio que foram desenvolvidos junto da MKS. No restante da fachada, que não tem contato com a sacada, esses brises são fixos e servem apenas para mimetizar e esconder a perfuração aleatória da fachada. Além de barrar um pouco de sol”, explica o profissional.

Circulação vertical

Para a equipe de engenheiros, outro desafio foi a construção do núcleo da caixa de elevadores, casa de máquina e caixa d’água, volume que ultrapassa a cota mais alta do prédio em si, feito de concreto aparente. “Como solução, construímos uma estrutura ripada com três espessuras de ripas diferentes, com aspecto bruto de acabamento. O processo de composição foi praticamente artesanal, ripa por ripa. Existem no mercado fôrmas metálicas que simulam o efeito do ripamento, mas preferimos utilizar o método tradicional para obter um aspecto mais natural das marcas da madeira”, conta Kopper. Segundo o engenheiro, a grande dificuldade na execução da fôrma foi a questão relacionada à fixação, como parafusos de fixação, que foram substituídos por arame galvanizado. “Depois de cortar o arame, para evitar os tradicionais furos do concreto aparente, utilizamos verniz à base de poliuretano para conter eventuais infiltrações na casa de máquina, elevador, etc”, conclui.

Entrevista: Maurício Rissinger

Qual foi o briefing do cliente?

O projeto foi contratado pela MKS Empreendimentos. É o terceiro projeto que nós desenvolvemos para eles. Já tínhamos uma sinergia de trabalho em função dos dois primeiros trabalhos, então foi bem tranquilo a logística de como apresentar e lançar o edifício. A diferença desse projeto para os outros foi realmente o terreno: é o maior projeto da MKS em termos de área construída. É um prédio um pouco maior do que os outros dois anteriores também, mas ainda em uma escala bacana de se trabalhar. Outro grande diferencial é o terreno ser de esquina. Mas não é simplesmente uma esquina comum. Em termos urbanísticos, a gleba funciona como uma península naquele trecho da malha. Ou seja: a rua de trás se conecta com a rua da frente formando uma ponta, que termina em uma “mini praça”. Esse espaço aberto faz conexão com a igreja ao lado. Há pessoas passando o tempo todo, por conta da igreja e também do colégio.

A arquitetura do edifício, autoral, encarece o preço das unidades?

As preocupações com a distribuição das áreas do condomínio, no sentido de gerar unidades atrativas sob o ponto de vista de custo, constitui o paradigma do que está sendo chamado de arquitetura autoral. Para nós, isso é simplesmente arquitetura. O paradigma da arquitetura autoral, geralmente associada aos empreendimentos de alto padrão, foi desmistificado com o Esquina Chartier. Esse prédio da MKS prova que é possível construir um edifício com arquitetura de alto nível, impactando na paisagem da vizinhança de maneira positiva.

Fale sobre a preferência para uma estrutura metálica.

A planta-tipo tem três apartamentos por andar, todos com balcão. Vamos chamar de balcão por que é uma sacada um pouco mais vantajosa, voltada para a Rua Eduardo Chartier. Na outra esquina, há um balcão piso-teto, que funciona como balcão europeu. Não tem uma amplitude de sacada mas consegue ter essa especialidade concretizada. Nós temos esses balcões voltados para a fachada Oeste, que tem maior incidência de sol. A implantação gerou a necessidade de um trabalho relativo ao conforto térmico. A sacada foi conectada ao corpo do edifício por meio de uma viga metálica. Os apartamentos têm cozinha, sala de estar e dormitórios com aberturas. Além disso, utilizou-se um tipo de escada protegida, mas ventilada. As tipologias diferentes poderiam gerar um ruído no volume do prédio. A solução foi criar um plano de fundo mais escuro, obtido a partir de um revestimento cerâmico preto em formato de tijolinho. Essa área escura unificou o fundo dessas aberturas e permitiu a construção dos brises deslizantes. Para que tudo isso fizesse sentido, utilizamos a estrutura metálica para conectar as duas sacadas voltadas para a Rua Eduardo Chartier. Caso essa conexão fosse feita de concreto armado, a seção da viga seria muito alta. Para deixar o resultado mais leve, optamos por esse casamento, digamos, da estrutura metálica com a estrutura de concreto, que é a estrutura do prédio propriamente dita.

Além dos desafios da fachada quais foram os outros desafios durante a execução?

O formato do terreno por um lado nos possibilitam um prédio solto, quase um ícone para quem passa pela região. Não é um prédio em que existe a lógica de fachadas da frente e de fundos. O terreno da Chartier é de médio porte, mas se destacou porque tem várias faces voltadas para a rua. Consequentemente, exige mais questões obrigatórias, relativas à legislação. O formato península amarra a solução de repetição do perímetro, o que gera um subsolo difícil de trabalhar, principalmente por conta da garagem. Articular as exigências da garagem com o espaço disponível foi um desafio. Entramos com um estudo de viabilidade junto à prefeitura, pleiteando a isenção do recuo de jardim no subsolo em uma das ruas. Foram quase oito meses tentando viabilizar. Felizmente conseguimos. O estudo de viabilidade permitiu a implantação de mais vagas de estacionamento. Para os moradores, isso ainda era uma premissa obrigatória na época de concepção do empreendimento. Hoje em dia, já não é mais obrigatório ter uma vaga por apartamento. É o incorporador que decide quantas vagas de carro ele quer ter no empreendimento. Essa lei municipal dá mais liberdade para projetar e o incorporador lançar um produto de acordo com a infraestrutura disponível na área. Os moradores, na região central da cidade, podem optar por fazer muita coisa a pé ou de bicicleta, o que desobriga essa questão da vaga de garagem.

Ficha técnica

Nome do projeto: Esquina Chartier
Local: Porto Alegre, RS.
Arquitetura: Oficina Conceito Arquitetura
Construção e Incorporação: MKS Empreendimentos
Equipe: Guilherme Nogueira, Maurício Ambrosi Rissinger, Tiago Scherer, Daniel Dagort Billig, Yasmin Feijó Jaskulski, Ana
Paula Sperinde, Sophia Frantz Do Amaral, Alessandra Mello, Victória Potrich Manfroi, Amanda Hoffmann De Abreu, Alice
Bernardo Tremarin, Massilon Kopper, Rafael Kopper.
Ano de conclusão da obra: 2020
Área total construída: 2.272,96 m²
Projeto de interiores das áreas comuns: Rafael Kopper
Projeto de interiores apartamento 84m²: ArqEstudio
Projeto de interiores apartamento 65m²: Oficina Conceito Arquitetura
Empresa/Produto: Alupex – Esquadrias e Brises, STO Tinta Branca Autolimpante, NGK – Pastilhas cerâmicas.

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