Texto: Mariana Meneghisso | Imagens: Meneghisso & Pasquotto

Se, no passado, a casa era ponto de partida e chegada, hoje ela se tornou também destino. Um destino afetivo, estético e funcional. As mudanças no ritmo de vida, associadas ao desejo crescente de conforto e segurança, têm transformado a forma como habitamos e, sobretudo, como nos divertimos. O lazer, que antes era buscado quase sempre fora, agora se instala no endereço mais íntimo: o nosso próprio lar.
A neuroarquitetura nos lembra que ambientes moldam emoções. Cada decisão de projeto da temperatura da luz ao toque dos materiais influencia diretamente no nosso humor, na sensação de acolhimento e até no nível de energia. Pisos que convidam a andar descalço, tecidos que abraçam a pele, cores que inspiram, tudo dialoga com o propósito do espaço. Cores quentes e terrosas favorecem o convívio social; tons suaves e frios promovem contemplação e descanso. A escolha deve ser guiada pelo
tipo de lazer que se deseja estimular. Quando falamos em lazer em casa, projetar é mais do que distribuir móveis: é criar cenários que convidem à pausa ou ao movimento, ao encontro ou à introspecção, de acordo com a identidade de quem vive ali.
Espaços flexíveis são protagonistas dessa nova forma de morar. A sala, tradicional território de recepção, ganha dupla função: é também cinema íntimo, palco para jogos de tabuleiro, ou pista improvisada de dança em noites de celebração. O layout se molda à vida real — sofás modulares, mesas expansíveis e móveis com rodízios permitem que um mesmo ambiente seja reorganizado conforme o momento pede.
A conexão com a natureza, elemento central na neuroarquitetura, é outra chave do lazer doméstico. Janelas generosas para vistas valiosas, varandas bem aproveitadas, jardins verticais ou até vasos estratégicos integram o verde à rotina. O simples gesto de olhar para plantas, ou sentir o sol atravessando o espaço, ativa no cérebro respostas associadas ao relaxamento e à felicidade.
A iluminação sempre uma mistura regrada de funcionalidade e atmosfera, criando cenários que favoreçam tanto o descanso quanto a interação. Para momentos de pausa e lazer, a luz mais indicada é a quente, difusa e regulável — como a proporcionada por luminárias de piso, pendentes com dimmer ou até velas, que criam aconchego e aproximam as pessoas. Já para cozinhar à noite, é essencial investir em luz neutra ou levemente fria, bem direcionada sobre bancadas e fogão, garantindo clareza visual, segurança e conforto durante o preparo dos alimentos. Assim, a iluminação se torna aliada na criação de experiências e capaz de orquestrar nosso corpo da forma ideal. Cuidamos muito disso em projeto.
Falando em ambiente, a cozinha é, como dizem os antigos, o coração da casa, ponto de encontro protagonista, muitas vezes. Integrada a salas ou varandas gourmet, convida a experiências culinárias compartilhadas. Cozinhar junto é, em si, um ato de lazer que ativa memórias, desperta sentidos e cria vínculos. O projeto desses espaços prioriza ergonomia, ventilação superfícies de fácil manutenção, sem abrir mão da identidade na escolha dos elementos e materiais.
Tecnologia, quando bem dosada, amplia as possibilidades. Sistemas de som embutidos, automação de iluminação e cortinas, projetores retráteis e climatização inteligente permitem transformar a atmosfera com poucos comandos. A chave está no equilíbrio: tecnologia comedida e racional em prol da saúde e bem-estar.
Na área externa, mesmo pequenos espaços podem se converter em refúgios de lazer. Uma varanda com chaise longue para leituras, um deck com spa para relaxar à noite, ou uma churrasqueira compacta para encontros. O que importa é a intenção do projeto — traduzir o estilo de vida dos moradores em metros quadrados de prazer. Essa tendência de investir no lazer doméstico é, no fundo, um reencontro com a essência do morar. A casa deixa de ser apenas abrigo e passa a ser palco da vida em todas as suas camadas: o trabalho, o descanso, a festa, o silêncio. É o lugar onde colecionamos não só objetos, mas momentos. Que essa tendência seja perene, é nossa torcida.
Projetamos para esse novo viver, entendendo que cada detalhe influencia no quanto a casa convida a ficar. É usar os princípios da neuroarquitetura para criar ambientes que estimulem o convívio, a criatividade e o descanso. É aplicar o design de interiores não como enfeite, mas como ferramenta para moldar experiências. No fim, o lazer em casa é menos sobre o que temos e mais sobre como vivemos o que temos. É transformar o espaço em cenário de vida, no melhor espetáculo que se pode fazer parte.
Mariana Meneghisso, Esposa, 3X mãe. Arquiteta Urbanista pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo, Design de Interiores pela Escola Panamericana de Artes, Especialista em Perceptual Design pelo Instituto Politécnico de Milão. Pós Graduada em Responsabilidade Civil pela Fecaf, Pós Graduada em Neuroarquitetura pelo Ipog. Membro da Anfa Brazil, Academy of Neuroscience for Architecture. Titular, há 20 anos, do escritório Meneghisso e Pasquotto Arquitetura.