Lama de Mariana (MG) é matéria-prima para revestimento cerâmico

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Lâminas extremamente finas, grandes formatos, redução do emprego de zircônio. Conheça as iniciativas de empresas do setor para tornar o processo industrial sustentável. Texto: Pedro Zuccolotto. Fotos: Tânia Rêgo / Agência Brasil

Revestimento da Lepri Cerâmicas produzido com refugo da lama de Mariana (MG) ficou em segundo lugar na categoria Construção do 33 Prêmio Design do Museu da Casa Brasileira. Em nota, o júri comentou o produto: “Este material de revestimento cerâmico, de aparência rústica, destaca-se por sua composição: resíduos da construção civil, vidro de lâmpadas fluorescente e lama oriunda do rompimento da barragem de Mariana, MG. Fruto de uma louvável iniciativa que incorpora resíduos de difícil destinação, valorizando-os, em claro comprometimento com a questão de minimização dos impactos ambientais. Chama a atenção sua forte dimensão simbólica ao incorporar a lama resultante de um dos maiores desastres socioambientais brasileiros”.

Os revestimentos cerâmicos são produzidos a partir da mistura de diversas argilas que recebem uma técnica de queima diferente para cada resultado desejado. Basicamente, são os insumos “argila, feldspato, quartzo, caulim, filito, torta e resíduos moídos resultantes do processo de fabricação” os principais elementos utilizados na produção, explica Davi de Almeida Fernandes, operador de sistema de gestão da Cerâmica Atlas. Atualmente, “na produção dos revestimentos, utiliza-se também vidros de telas de TVs e monitores de computadores, vidro de lâmpadas fluorescentes descontaminadas e até cinzas provenientes da queima da lenha”, conta Ludmila Lepri, diretora de marketing da Lepri Cerâmicas. Para baixar o consumo de energia, a marca tem diminuído o tempo de queima dos produtos, o que provoca a redução do consumo de gás, de energia elétrica e a diminuição da emissão de gases poluentes. A Cerâmica Atlas criou a linha REC – Revestimento sustentável: feita com 65% de material reciclado da própria fábrica. Segundo Almeida, “são revestimentos indicados para projetos de engenharia que se preocupam com o meio ambiente e priorizam produtos ecologicamente corretos”.

Resíduos

“A Indústria Cerâmica tem um poder muito grande de absorver na produção industrial diversos materiais descartados na construção civil.” É o que garante Ludmila Lepri, diretora de marketing da Lepri Cerâmicas. A empresa, em seu processo produtivo, investe desde 2005 na busca por matérias-primas que venham do descarte de outros processos industriais, seja da própria empresa, seja de outras fontes, com o foco no reaproveitamento de materiais. A executiva conta que  a primeira substituição começou com a utilização de vidros de lâmpadas descontaminados e seguiu para telas de TV e monitores de computador: “Utilizamos ainda resíduos de louças sanitárias e até lama proveniente do desastre de Mariana”. Cerca de 95% do portfólio de produtos da marca são fabricados com materiais descartados, como a Coleção de Bricks, Coleção Terracota e Coleção Raku. Um exemplo desse processo é o Brick Natura Cappuccino, que surgiu com o reaproveitamento da lama de Mariana.

O rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Samarco, cujos donos são a Vale e a anglo-australiana BHP, causou uma enxurrada de lama que inundou várias casas no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, na Região Central de Minas Gerais. Inicialmente, a mineradora afirmava que duas barragens haviam se rompido, de Fundão e Santarém. No dia 16 de novembro, a Samarco confirmou que apenas a barragem de Fundão se rompeu. Local: Distrito de Bento Rodrigues, Município de Mariana, Minas Gerais. Na foto da página ao lado: Distrito de Barra Longa. A comunidade foi parcialmente encoberta pela lama
que chegou pelo rio Gualaxo do Norte. 

Impressora HD reduz uso de água

A Cerâmica Atlas adquiriu impressora digital (HD) que proporciona considerável redução no consumo de água e energia elétrica durante a utilização. A empresa “tem perspectivas de novas aquisições deste tipo de equipamento para substituir as linhas convencionais de esmaltação. Atualmente, faz-se a aplicação das texturas por meio de cabines”, explica Davi Fernandes.

Melhoria contínua

Segundo Patrícia Uchida, gerente industrial da Roca Brasil Cerâmica, quando se fala em grandes formatos, a inovação está nas lâminas extremamente finas, com apenas 7 mm de espessura. “Isso foi alcançado graças à tecnologia Contínua+, exclusiva da Roca Cerâmica nas Américas, que utiliza uma supercompactadora para produzir os revestimentos em lâminas contínuas”, explica. O resultado são revestimentos de dimensões amplas, com extrema resistência. A tecnologia Contínua+ reduz potencialmente o consumo de recursos naturais, principalmente de zircônio, material extremamente escasso, encontrado em apenas duas minas no mundo. Restringiu–se a quantidade empregada do material e o consumo de energia. “O moinho contínuo de dois estágios utiliza apenas um terço da energia necessária para moinhos descontínuos”, explica Uchida. Isso resulta em maior economia de água no processo de fabricação, pois não é necessária a limpeza do equipamento a cada troca de massa.

8 iniciativas para o aprimoramento de processos

Fonte: Davi Fernandes, operador de sistema de gestão da Cerâmica Atlas.

  1. Tratamento de efluentes gerados no processo produtivo.
  2. Reutilização da água tratada na produção.
  3. Reaproveitamento
    dos resíduos moídos descartados pelo processo fabril, reaproveitamento de resíduos do processo
    da Estação de Tratamento
    de Esgotos (ETE)
    posteriormente reintegrados no processo produtivo.
  4. Controle na geração, armazenamento e destinação correta dos resíduos perigosos gerados no processo produtivo, destinando-os a coletores credenciados pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB) ou órgãos correspondentes em outros estados.
  5. Política interna de coleta seletiva e destinação aos coletores.
  6. Instalação de equipamentos adequados para a captação de materiais particulados gerados pela atividade fabril.
  7. Frequente umidificação dos pátios de matérias-primas
    e vias de tráfego da empresa, a fim de evitar a poluição
    do ar ocasionada pela ação dos ventos.
  8. Aquisição de novas tecnologias de fabricação para reduzir o consumo energético e aumentar a eficiência na produtividade.

Zircônio para opacificação de esmaltes cerâmicos

Fonte: Camila Ribeiro dos Santos, Thannira Luciano Bez Fontana, Fernando Macedo Ambrosini, Adriano Michael Bernardin, Edison Uggioni, (Universidade do Extremo Sul Catarinense)

As propriedades técnicas dos revestimentos cerâmicos são avaliadas por normas específicas: a NBR13.818:1997 e a ISO10.545 são dois exemplos de normas em que uma série de procedimentos de ensaios é descrita para a avaliação do desempenho dos produtos cerâmicos. Entretanto, muitos desses ensaios apresentam resultados duvidosos. Um deles é a determinação da variação de tonalidades nos revestimentos cerâmicos esmaltados. Para a obtenção de tons estáveis,  empregam-se agentes que atuem na opacidade dos esmaltes cerâmicos. Esses agentes são utilizados como aditivos no processamento dos esmaltes, sendo fundamental o controle de seu efeito durante a queima dos produtos cerâmicos, de modo a permitir a diminuição da variação de tonalidades. 

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