Igreja da Pampulha: recuperação resolve falha histórica de juntas de dilatação

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Inaugurada em 1943, a Igreja de São Francisco de Assis, com projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer, paisagismo por Burle Marx e painéis do pintor Cândido Portinari, foi reaberta no dia 4 de outubro após minucioso trabalho de recuperação estrutural, reparo de infiltrações e reconstrução de cobertura e forro. Por Allaf Barros e Gustavo Curcio

Forro recuperado da Igrejinha da Pampulha após minucioso trabalho de reprodução das peças originais para garantir autenticidade da obra. Foto: Lucas Nishimoto

Um dos principais cartões-postais de Belo Horizonte (MG), a Igreja da Pampulha foi reaberta em 4 de outubro após trabalho de restauro realizado por equipe interdisciplinar. Conduzido pela Construtora Tecnibras e pela Recuperação – Patologia e Durabilidade das Construções, o trabalho teve início em junho de 2018. Com participação ativa da equipe da paróquia, profissionais especializados levaram adiante o conserto de infiltrações, incluindo um complexo trabalho de substituição do forro de madeira da nave central, além de manutenções gerais, como a limpeza e recuperação do revestimento externo das pastilhas cerâmicas, repintura da capela e recuperação dos passeios da calçada portuguesa.

A preservação de um patrimônio histórico

A Igreja de São Francisco de Assis, popularmente conhecida como Igrejinha da Pampulha, é um prédio com alto valor histórico, marco da arquitetura moderna, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e, desde 2016, é Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO. “A grande novidade aplicada à Igrejinha da Pampulha é o fato do Niemeyer ter usado catenárias sobrepostas, usadas como parede e teto, funcionando com invólucro geral do espaço. A tecnologia do concreto armado, que já vinha sendo discutida desde o começo do século XIX e já em São Paulo na Escola Politécnica, no Gabinete de Resistência dos Materiais que mais tarde deu origem ao IPT, já tinha desenvolvimento suficiente para amparar o emprego da plasticidade desse material na última dimensão”, explica o doutor Fernando Atique, arquiteto e professor associado do Departamento de História da Universidade Federal de São Paulo. Segundo o especialista em história da arquitetura, o grande feito de Niemeyer nesta obra foi usar a abóbada não como forma de cobertura, mas como estrutura completa da igreja. “A igreja da Pampulha vem para reescrever de forma moderna o modelo da igreja tradicional mineira, que tem o altar destacado com um arco cruzeiro. Niemeyer faz isso pela sobreposição das duas catenárias de tamanhos diferentes, fazendo a separação entre a nave e o espaço restrito religioso, sem que se toquem, mas encaixando-se. Ao fazer isso, ele permite a entrada de luz, que é quem faz a separação entre nave e altar”, explica Atique. O arquiteto finaliza reforçando a recriação do arco cruzeiro a partir do efeito da luz. 

O Conjunto Moderno da Pampulha conquistou o título de Patrimônio Cultural Mundial da Humanidade. A decisão foi tomada durante a 40ª sessão do Comitê do Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), realizada entre os dias 15 e 17 de julho de 2016, no Centro de Convenções de Istambul, na Turquia. A indicação da Pampulha foi ratificada pelos 21 países integrantes do comitê, por consenso, informou o Ministério da Cultura.

As obras na igreja fizeram parte de compromissos assinados com a UNESCO para modificações nos projetos do Conjunto da Pampulha após sua nomeação como Patrimônio Cultural da Humanidade. Devido à importância do projeto da igreja, foi realizado um amplo estudo para garantir a preservação dos valores patrimoniais. O projeto de restauro contou com uma intervenção atenta aos detalhes construtivos para que não houvesse uma descaracterização do bem cultural e para que fossem mantidas as condições de autenticidade e fruição. Também foi feita a proteção dos bens materiais que compõem o conjunto. “A igreja da Pampulha é tombada nas três instâncias: municipal, estadual e federal. Semanalmente, técnicos das três esferas se reuniam no canteiro de obras para realizar o acompanhamento de tudo o que estava acontecendo”, explica Françoise Jean, diretora de Patrimônio Cultural da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte.

Um problema desde a construção

A Igreja foi feita em 1943, à época de Juscelino Kubitschek como prefeito de Belo Horizonte. No projeto original, o calculista previu a necessidade de três juntas de dilatação, mas isso não foi feito. “Quando a junta não é feita corretamente, o concreto naturalmente apresenta fissuras. Estas juntas espontâneas não são regulares”, explica o professor doutor José Eduardo de Aguiar, engenheiro especializado em patologia e durabilidade de concreto e diretor da Recuperação Serviços Especiais de Engenharia. Segundo o engenheiro, duas grandes juntas se abriram espontaneamente na cobertura da Igrejinha da Pampulha. Diante disso, por meio destas fissuras, houve infiltração nesta estrutura desde a época da sua fundação. Em 1980 foi feita uma primeira intervenção na igreja, mas as juntas continuavam fechadas. Foram vedadas para se conter a água. Niemeyer não queria que as juntas estivessem aparentes. “Pouco tempo depois, os azulejos que revestiam estas juntas começaram a fissurar novamente”, explica Aguiar. No ano de 2004, a prefeitura contratou a Recuperação para resolver o problema. “Nesta ocasião, nós abrimos as juntas efetivamente, da mesma forma que se faz em outras estruturas, como pontes. Para não entrar água, foi instalada uma borracha de neo-prene norte-americana para conter a infiltração das juntas. No entanto, indevidamente utilizou-se uma lâmina do tipo ‘maquita’ sobre esta vedação, por uma falha da construtora, e a água voltou a infiltrar nessa estrutura”, diz. Nesta última intervenção, optou-se, em parceria com a Tecnibras, por um sistema de calhas na parte interna do forro. 

As infiltrações

“Ninguém sabia o que estava escondido sob o forro”, explica Henrique Aidar, diretor de relações institucionais da Construtora Tecnibras, empresa responsável pelo restauro. Segundo o engenheiro, por conta dos processos de infiltração, todo o forro estava muito danificado. “Os barrotes de sustentação tinham apodrecido. Após a remoção do forro, foi verificada a necessidade de recuperação de parte da estrutura de concreto”, relata. Duas juntas de dilatação estavam severamente afetadas do ponto de vista de infiltrações. “A partir das áreas de junto, a umidade passou a migrar para outros pontos da estrutura de concreto sobre a nave”, conta. A empresa Recuperação – Patologia e Durabilidade das Construções foi responsável pelo projeto de recuperação dessa estrutura. A solução adotada foi desenhada especificamente para as necessidades da igrejinha. A técnica híbrida combinou a instalação de telhas de poliuretano de espessura mínima e o uso de impermeabilizante cristalizador (Penetron) para estancar a entrada de água pelas fissuras. Posteriormente, foram tratadas as juntas. Sobre estas juntas, após a recuperação estrutural dos pontos danificados, foram instaladas as telhas. Caso a água penetre pelas juntas, ela será conduzida pelas telhas e jogada sobre calhas de inox. Todo este sistema está escondido pelo novo forro que foi instalado. Essas calhas de inox levam a água para caixas externas que foram construídas fora da nave principal. 

Infiltrações nas juntas dilatação. Observar as deteriorações nos barrotes de madeira no alinhamento das juntas, confirmando a presença de umidade.

Sobre a sequência dos trabalhos

A Recuperação elaborou para a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, através da Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), um projeto para correção de infiltrações e outras intervenções na Igreja da Pampulha, com data de 11 de agosto de 2015. Este documento alertava que somente após a retirada do forro de madeira e das placas existentes na face inferior da igreja poderia ser feita uma análise mais detalhada das infiltrações das juntas e dos espaços disponíveis para instalação dos sistemas para a drenagem das águas pluviais, lançando-as para fora do monumento.

A retirada do forro da Igreja da Pampulha somente ocorreu em novembro de 2018. Após a remoção dos revestimentos internos do monumento, foi realizada uma inspeção em conjunto com a Sudecap para verificar os locais onde de fato estavam ocorrendo infiltrações. Esta inspeção confirmou a presença das infiltrações nas duas juntas de dilatação da Igreja, ocorridas em função do corte das borrachas de vedação feito por disco de “maquita” durante as obras de restauro realizadas entre julho de 2004 e julho de 2005. Mas a inspeção identificou outros problemas não esperados, como vestígios de umidade e infiltrações nas adjacências das juntas, no encontro do graute do berço das juntas com o concreto original. Além disto, foram constatados vários pontos de infiltrações em outros locais afastados das juntas.

Diagnóstico para elaboração de plano de ação

Fonte: Relatório elaborado pela Recuperação para a Prefeitura de Belo Horizonte. 

Já era de conhecimento dos órgãos envolvidos que as infiltrações nas juntas de dilatação estavam relacionadas com o corte feito com disco, procedimento não previsto no projeto. Mas como explicar as outras infiltrações se toda a casca havia sido impermeabilizada com produto de reconhecida qualidade? Para explicar as causas prováveis destas novas situações que foram encontradas agora foi feita uma pesquisa junto a pessoas que participaram da obra de 2004 e feita uma busca de fotos antigas. Com as informações obtidas foi possível tomar conhecimento de alguns fatos novos que elucidaram os casos. As pastilhas apresentaram desnivelamento em vários pontos no final da obra de 2005. Para corrigir o problema, os responsáveis pela execução da obra fizeram a remoção das partes desniveladas. Esta remoção foi feita com maquita e talhadeira.

Em vários locais, conforme as fotos, a impermeabilização foi afetada e corrigida. Constata-se que a correção não foi perfeita, permitindo a infiltração de água das chuvas em diversos pontos da casca. O fechamento das juntas na parte de baixo, não permitindo a livre movimentação para dilatação das juntas, causou tensões no concreto e a abertura de trincas na casca, por onde também estão ocorrendo infiltrações.

Etapa 1: Abertura das juntas de dilatação com martelo rompedor. A abertura foi feita com dimensionamento de 30 cm de largura para cada lado. Para preparo da sede das juntas, as armaduras da laje original foram removidas. A terceira junta de dilatação não segmentou toda a extensão da casca da calota, sendo do tipo induzida, através de corte parcial. O corte da nova junta atingiu 1/3 da espessura do concreto.

Etapa 2: Instalação de fôrmas de madeira e concretagem dos berços.

Etapa 3: Instalação das juntas de alumínio com vedação de borracha em neoprene. Os perfis foram aparafusados no concreto e aplicado véu de poliéster nas laterais.

Etapa 4: A impermeabilização da laje foi feita em sua totalidade, sobre as juntas, com revestimento flexível e elástico.

Etapa 5: O assentamento das pastilhas cerâmicas foi executado com argamassa colante AC II. Após o assentamento das pastilhas, foi feito um corte com disco do tipo “maquita” para abertura do revestimento sobre as juntas e aplicado silicone na junta de 6 mm que foi aberta. Importante ressaltar que este procedimento não era previsto no projeto original de recuperação da Igreja e provocou o corte das borrachas das juntas.

A solução adotada

A equipe da Recuperação, sob os cuidados de Aguiar, constatou que a impermeabilização realizada ficou seriamente comprometida em função dos retoques feitos nas pastilhas utilizando disco de corte e talhadeira, que danificaram o revestimento aplicado. Os fatos descobertos após a remoção dos revestimentos internos forçaram uma revisão do projeto original, que inicialmente previa a instalação de três sistemas de impermeabilização, sendo um principal e dois de segurança. O sistema principal seria constituído por uma injeção de poliuretano flexível, feita sob pressão e contida entre mangueiras plásticas. Os sistemas complementares seriam constituídos por um perfil de borracha (Junta Jeene) abaixo do poliuretano e uma calha de inox na superfície do concreto vedando todos os sistemas. 

Os sistemas propostos foram projetados partindo-se do princípio que as borrachas das três juntas de dilatação da casca da igreja não seriam trocadas. Em reunião realizada em dezembro de 2018 com a presença da Diretoria da Sudecap e demais órgãos ligados aos patrimônios públicos históricos (Iepha, Iphan e Secretaria Municipal), definiu-se que a parte externa da casca seria recuperada em uma etapa posterior a ser licitada, incluindo a troca das borrachas danificadas. Em função desta decisão, que prevê a substituição dos perfis de borracha que estão danificados, procederam-se algumas revisões do projeto visando uma redução de custos, mas mantendo-se a estanqueidade interna da Igreja. 

Procedimentos originais previstos

Impermeabilização interna do concreto

A primeira alteração relevante introduzida foi a impermeabilização interna do concreto da casca com a aplicação do produto PENETRON, que é um cristalizante de excelente qualidade que tem como função penetrar pelos poros do concreto, cristalizando a matriz de cimento e fechando (cicatrizando) as fissuras até 0,4 mm de abertura, deixando-o impermeável. Para que aconteça a cristalização, é preciso que o substrato esteja saturado, pois a água é o catalizador desta reação. Foi feita a saturação por água potável do concreto, tomando-se todos os cuidados para que a água não provocasse danos no interior do monumento. Para isto foi utilizada uma bomba de alta pressão para abrir os poros do concreto. Em seguida o produto Penetron foi aplicado por equipamento “airless”. Para não danificar as madeiras do forro foi preciso proteger todos os barrotes com plástico, conforme as fotos.

Substituição dos sistemas de impermeabilização por telhas de polipropileno

A segunda revisão introduzida foi a substituição dos três sistemas de impermeabilização previstos inicialmente — sistema principal (injeção de poliuretano flexível) e sistemas complementares (Junta Jeene e calha de inox). Todos eles foram substituídos pela colocação de telhas de onda baixa em polipropileno, de 6 metros de comprimentos e 1,10 m de largura cortadas longitudinalmente ao meio para melhor conformação às superfícies do perímetro da Igreja, coletando e encaminhando as águas para os sistemas de drenagem projetados, sendo estas telhas bem mais flexíveis que as chapas de inox previstas. Para a fixação das telhas foram utilizados pinos de aço com rosca diâmetro de ¼” x 30 x 20 mm, associada a uma arruela metálica e outra de borracha. Importante ressaltar que as telhas seriam aplicadas não só nas três juntas de dilatação, mas em todos os locais onde haviam sido detectadas infiltrações, conforme mostrado nas fotos a seguir.

Utilização de calhas de aço inox

As águas das chuvas que vão infiltrar pelas aberturas nas borrachas das juntas de dilatação que estão cortadas, mas que serão substituídas na próxima etapa da obra, irão de encontro com as telhas de polipropileno, que atuarão como barreira na progressão das infiltrações, sendo, então, direcionadas para a parte baixa das telhas. Lá elas serão coletadas por calhas de inox, fixadas no concreto e instaladas embaixo das telhas, antes do forro de madeira. As calhas terão dimensões pequenas, em torno de 2 centímetros de largura e 5 centímetros de altura, adequando-se ao pouco espaço disponível, mas suficiente para coletar as águas e encaminhá-las para fora da estrutura através de tubos de PVC de 19,00 mm (3/4”), instalados dentro de um furo feito por perfuratriz elétrica na casca da Igreja. Os tubos são interligados às caixas de drenagem que foram construídas do lado externo da Igreja, abaixo da calçada externa, conforme os desenhos.

Detalhamento do direcionamento de água para fora da estrutura.

O sistema híbrido

As telhas de polipropileno terminam dentro das calhas de aço inox, que são fixadas por parafusos na casca de concreto. As águas acumuladas no interior das calhas são direcionadas para fora da estrutura através de tubulações de PVC, sendo lançadas nas caixas de drenagem construídas do lado de fora da Igreja. Após a remoção do forro da Igreja constatou-se a presença de muitas armaduras expostas já em processo de corrosão. Estas armaduras ficaram sem o devido cobrimento durante o processo construtivo, sendo instaurada a corrosão ao longo do tempo, ressaltando que a construção tem mais de 70 anos. 

Impermeabilização da marquise frontal da Igreja

A marquise frontal da Igreja da Pampulha apresentava infiltrações e precisava de impermeabilização. O produto originalmente aplicado no final de 2004 na face superior da laje foi o Hemisfério 1144 com proteção de tinta acrílica branca sobre a impermeabilização, ou seja, há 14 anos. Como este prazo foi considerado satisfatório, recomendou-se sua utilização, seguindo as recomendações descritas abaixo. Remover por lixamento mecânico o máximo possível dos produtos incrustados na superfície. Depois, sobre o que ficar remanescente (provavelmente estará bem aderido), aplicar uma demão de HEM 1135 em mistura com cimento 1:1,5 (Cimento Portland CPIII ou II-E). Isto vai aumentar a aderência do sistema no substrato, mesmo sem estar totalmente limpo. Depois são aplicadas três demãos de HEM 1144 em mistura de 1:1 com o mesmo tipo de cimento com pelos menos 6 horas de intervalo entre as demãos. O cimento Portland pode ser substituído por cimento estrutural branco e com isto eliminar a necessidade de tinta acrílica branca.

Impermeabilização do encontro da nave principal com a capela mor

A junta existente no encontro entre as estruturas da Nave Principal com a Capela Mor da Igreja da Pampulha apresentava infiltrações. Para corrigir o problema recomendou-se a aplicação de um selante elástico, monocomponente, à base de poliuretano, que cura com a umidade do ar. Este produto é recomendado para juntas de movimentação e de conexão em aplicações internas ou externas, especialmente juntas de fachada. Com uma esmerilhadeira abrir um sulco de 2 centímetros de largura por 2 centímetros de profundidade ao longo de todo o contato entre as estruturas da capela mor e nave principal.

Sobre preservar uma obra notável do gênero humano criativo

Entrevista com Françoise Jean, diretora de Patrimônio Cultural da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte.

Fale de maneira objetiva sobre a participação do Patrimônio na restauração da Igreja da Pampulha. 

Nós participamos de todo o processo, desde o planejamento e elaboração do projeto de restauração passando pelo acompanhamento de toda a obra, realizando inclusive reuniões semanais no canteiro. Todas as intervenções, desde questões técnicas como por exemplo infiltrações, até a limpeza do revestimento cerâmico, tudo foi discutido com as empresas responsáveis pela execução e a equipe do Patrimônio. Nenhuma decisão foi tomada sem que fosse considerada a autorização das três instâncias de tombamento: municipal, estadual e federal. 

Quais foram os principais problemas levantados no prédio?

Foram verificadas infiltrações na cobertura da igreja. Para isso, foi necessário remover o forro, porque a princípio, imaginava-se que o problema vinha das juntas de dilatação. Após remover o forro, foi realizado o estudo de intervenção e decidiu-se aplicar um impermeabilizante no concreto da laje, que entra nas fissuras e preenche estas aberturas que eram a causa destes vazamentos. Além disso, foi feita a instalação de um sistema de calhas entre o forro de madeira e o concreto. Isso foi o que mais dificultou o processo, já que inicialmente previa-se apenas a revisão da questão das juntas de dilatação e recomposição do forro.

Como é realizar uma intervenção num edifício histórico?

Nós estávamos trabalhando sobre uma obra que faz parte de um conjunto, segundo a UNESCO, que é obra notável do gênero humano criativo, com valor universal excepcional. Qualquer intervenção realizada numa obra desta envergadura deve considerar a preservação da integridade e da autenticidade dela. Antes de empregar qualquer técnica construtiva de reparo, é preciso verificar se não estará ferindo a autenticidade da obra. Não é uma simples troca de revestimento. Em alguns casos, mesmo existindo técnicas mais avançadas, é preciso reproduzir a técnica empregada à época da construção, hoje considerada ultrapassada. Essa é uma das formas de se garantir esta autenticidade. Além da restauração da igreja, nós acompanhamos a restauração dos painéis da Via Sacra, de Candido Portinari, bens integrados do conjunto, que também foram recuperados. Para completar, também requalificamos os jardins assinados pelo Burle Marx, no entorno da Igreja de São Francisco, que durante muito tempo estiveram deteriorados. Foi criado em Belo Horizonte um viveiro para cultivo das mudas que farão a alimentação de todo o jardim. Manter um jardim de Burle Marx é algo muito caro, principalmente em função das mais de 200 espécies de mudas empregadas em todo o complexo. A ideia é de que daqui para sempre o jardim esteja continuamente preservado. Quem financiou a recuperação da igreja foi o Governo Federal, a execução da obra foi o município e a arquidiocese, que é proprietária do edifício, entrou com os recursos para a recuperação dos painéis. Para isso, foi contratado o Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis da Universidade Federal de Minas Gerais, instituição de referência e excelência na restauração, que trabalhou mais de um ano sobre os
painéis com pesquisadores e estudantes. 

Foto: Lucas Nishimoto

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