Geometria orgânica: racionalidade e emoção

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Arquiteta com expressiva produção em projetos de interiores em Tel Aviv, Ilana Wajcberg consolidou-se no Brasil com produção sui generis nas artes plásticas.

Bosque tropical, 170 cm x 140 cm, óleo sobre tela, 2017. O observador atento encontra escondidos pela flora animais da fauna brasileira.

Paulista de 1970, Ilana Wajcberg é formada em Arquitetura e Design pela Universidade de Tel Aviv, Israel, na turma de 1996. Em 2010 regressou ao Brasil, trazendo na bagagem um consistente portfólio de projetos de interiores. Mas foi frequentando o Jardim Botânico do Rio que se apaixonou pela natureza tão bem retratada em sua arte. O Jardim Europa, em São Paulo, foi o bairro escolhido para viver e trabalhar. Seu ateliê reflete a forte personalidade de seus trabalhos. Dividida em fases temáticas, sua produção é a síntese perfeita do olhar de uma arquiteta para formas orgânicas da natureza. Wajcberg parece carregar em sua essência a origem Bauhaus, que marcou de forma definitiva a arquitetura de Tel Aviv. “Minha escolha por permanecer nas artes veio depois que busquei uma forma de criação pura, independente da vontade e das ideias alheias (meus clientes na arquitetura)”, explica. Em entrevista, a artista que em 2020 acompanhará um grupo do ArqXP a uma viagem a Israel, fala sobre sua trajetória profissional, seu processo artístico e suas principais inspirações.

Como ingressou nas artes?

Eu pinto desde a infância. O colégio onde estudei, já mais velha, era voltado para as artes. Na época de decidir que curso eu faria na faculdade, meus pais me pediram que fosse para uma área mais “prática” e escolhesse uma profissão por meio da qual pudesse “ganhar dinheiro”. Foi então que ingressei em arquitetura na Universidade de Tel Aviv. Paralelamente à graduação, eu tinha aulas de anatomia e desenho, no ateliê do artista Menachem Mizrahi, um dos mais expressivos artistas figurativos de Israel. Tive um escritório de arquitetura, por 15 anos, e a principal influência nos meus projetos vinha sempre do campo da arte. Somente quando voltei a morar no Rio de Janeiro, em 2010, é que decidi me dedicar exclusivamente à arte.

Você começou a pintar no Rio, mas se mudou para São Paulo. Por quê? Como é a sua relação com as duas cidades?

Eu nasci em São Paulo, em 1970. Após o falecimento do meu pai, minha mãe decidiu que mudaríamos para Israel. Apesar da mudança, sempre fui apaixonada pelo Brasil, pela natureza, pelas paisagens e pela cultura daqui.

Como toda minha família é do Rio, eu os visitava uma ou duas vezes por ano e passeava muito por aqui. Cada visita dessas incluía viagens para outros lugares do país, como o Nordeste, o Norte etc.  A diferença entre os países Israel e Brasil é tão grande, que eu comecei a pesquisar e estudar botânica, pois Israel é um país com um tipo de paisagem completamento diferente, desértico, longe de ter essa variedade de plantas que existe no Brasil. Até que, em 2010, decidi voltar para o Brasil e, dessa vez, com meu filho pequeno. Morei no Rio durante 4 anos. Visitava muito o jardim botânico, fato que me fez aprofundar ainda mais meus estudos na área. Em 2016, voltei para São Paulo, pois tenho uma conexão cultural muito forte com essa cidade. Quando me mudei, procurei estar sempre muito próxima à cena artística. Frequentava exposições, vernissages, ia ao teatro etc. Então decidi continuar aqui, meu ateliê é aqui. Mas viajo muito, para continuar os estudos em relação a nossa flora. 

Você cursou Arquitetura e Design em Tel Aviv. Como isso influencia seu trabalho artístico?

No meu trabalho artístico, estão sempre presentes padrões da arquitetura. O modo como planejo o desenvolvimento das minhas criações vem dos anos como arquiteta. No meu trabalho é evidente a relação entre a geometria e as formas orgânicas. Por conta da minha formação plural, fica clara a relação entre a racionalidade proveniente da arquitetura e um lado mais “emocional”, que vem da arte. Isso se mostra nas minhas pinturas através de padrões que estou criando ao lado de formas orgânicas e abstratas. Minha escolha de permanecer nas artes veio depois que busquei uma forma de criação pura, independente da vontade e das ideias alheias (meus clientes na arquitetura).

A convivência com a cultura de Israel também ajudou a formar sua visão artística? Por quê?

A cultura israelense é muito prática, criativa, e os processos lá são muito rápidos. Como israelense, eu sempre procurei encontrar soluções criativas e uma forma de pensamento “fora da casinha”. No meu novo projeto, “Feminino Profundo”, Israel, sua paisagem e cores aparecem muito, como fases que me acompanharam como mulher, na maior parte da vida. Meu filho é israelense, tenho irmãos e outros parentes lá, minha conexão com aquele lugar é muito forte. Israel sempre foi e sempre será minha casa.

Quais são suas inspirações e influências na arte?

Nos últimos anos, tenho me interessado muito pela arte norte-americana, e minha pesquisa atual é sobre mulheres artistas e a revolução feminista promovida por Georgia O’Keeffe, Louise Bourgeois, Hilma Of Klint etc. Gosto do trabalho de Jonas Wood, maravilhoso! Outros artistas masculinos que admiro são Kehinde Wiley, Mickalene Thomas e um dos artistas mais conhecidos, com uma trajetória de trabalho muito rica, que envolveu muitos temas e técnicas, David Hockney. Toda semana eu pesquiso novos artistas, e hoje em dia, com o Instagram, há uma facilidade muito grande em conhecer e descobrir novos pensamentos artísticos.

Você possui interesses fora das artes plásticas, como cinema, livros, que influenciam sua obra? 

Sim, minha criação artística tem muita influência do cinema, da fotografia e da literatura. Cito como exemplo um diretor que influencia muito meu trabalho, o espanhol Pedro Almodóvar. Lembro quando vi um dos primeiros filmes dele, Kika. Achei corajoso fazer a escolha de ótimos atores, narrativa forte e uma seleção de cores muito pessoal, muito dele, que criou um cenário “teatral” único. 

My Little Bird of My Soul, 180 cm x 110 cm, 2017 .

Você trabalha muito com as cores em suas obras. Como é seu processo de criação? O que você busca expressar por meio da arte?

Como vivi por muitos anos em Israel, que é um país desértico, as cores da minha infância e adolescência foram sempre limitadas. Em uma das visitas ao Brasil, encontrei o livro da Beatriz Milhazes e achei incrível o uso das cores e a liberdade nos trabalhos dela. Para mim, toda a América do Sul é uma grande festa de cores, e eu escolhi adaptar essa festa aos meus trabalhos. Há obras em que uso uma paleta de cores mais ampliada, e outras em que a paleta é mais reduzida. Cores, para mim, são sinal de vitalidade. Como meu trabalho envolve muita natureza e botânica, vou sempre me expressar com mais cores. Estou buscando expressar assuntos que são importantes para mim. Por exemplo, meu projeto atual envolve o corpo feminino através de simbologias e metáforas relacionadas à botânica, criando uma nova linguagem e uma nova forma de olhar sobre o corpo feminino. A arte, para mim, é a melhor plataforma para expressar ideias, situações e emoções. 

Sua produção artística tem fases? Poderia explicar algumas delas? Qual a mais recente?

Desde a minha volta para o Brasil, em 2010, minha pesquisa foi relacionada à botânica, às formas e às cores, mas eu procurava não copiar a natureza, pois creio que a fotografia já cumpre esse papel. Procurava criar uma nova linguagem, algo surrealista, que expressasse minha paixão e admiração pela natureza. A segunda fase, com a mudança para São Paulo, já envolveu um padrão que lembra paisagens urbanas. Essa série eu chamei de “Camadas”. A relação abstrata entre as formas geométricas e a formas orgânicas criou uma série de várias telas em grandes formatos, que conseguiu expressar essa relação entre cidade e natureza. Nos últimos 2 anos, criei uma série chamada “Natureza Editada”, que também trata desse assunto. A série mais recente, “Feminino Profundo”, relaciona a natureza e o corpo feminino. 

O que você acha que não pode faltar para um artista?

O processo artístico pode levar meses ou anos. O artista precisa de apoio, de um suporte que possibilite sua dedicação à criação. É fundamental que o Estado invista em cultura e arte. É isso que determina a identidade de um povo, seu caráter. 

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