Plaza Athénée, conhecido como o hotel da “Alta Costura” — legitimado por sua localização à Avenue Montagne, em Paris —, promove importante série de exposições em suas instalações na capital francesa. Por Gustavo Curcio

A tradição vanguardista da icônica Avenue Montagne, no 7ème Arrondissement, consolidou-se pelo legado de importantes nomes como Christian Dior e Yves Saint-Laurent. Não à toa o Plaza Athénée traz consigo a fama de ser o endereço da “Alta Costura”. À altura da herança que o envolve, o hotel promoveu, desde fevereiro de 2019, uma série de exposições em seu Golden Courtyard, transformando o ambiente, que ganhou ares de galeria de arte, com esculturas, pinturas e fotografias.

FEMMES JE VOUS AIME

Organizada pela Art Photo Expo Production, trouxe em seu nome uma clara referência à música homônima de Julien Clerc’s (veja transcrição na página ao lado). A exposição colocou em evidência a produção de mulheres à frente de acontecimentos importantes. Lançada concomitantemente à Paris Fashion Week e ao Dia Internacional da Mulher, a mostra reuniu 20 artistas contemporâneas internacionais que apresentaram sua visão de feminilidade. Foram expostas fotografias de Ormond Gigli (1925), fotógrafo norte-americano conhecido pela série “Girls in the Windows”. A coleção, produzida em 1960, documentou flashes de 43 mulheres posando na janela de um prédio que estava marcado para ser demolido no dia seguinte. Artistas como Claude Azoulay, Lirone, Russel Young e Mika Nak também tiveram seus trabalhos expostos na ocasião.

Etoile 1, de Dorothee Gilbert. Foto de Philippe Robert.

PIETRASANTA

Em homenagem à cidade toscana dedicada à escultura contemporânea, a exposição realizada em novembro de 2019 destacou a obra de quatro escultores. A mostra reuniu trabalhos do artista francês Pollès (nascido em 1945), considerado o inventor do “Cubismo Orgânico”, com Potenkina, escultura de bronze e platina. No pátio do hotel, a poucos passos, os visitantes puderam observar formas geométricas radicais e curvas elegantes, entre feminilidade e humor, arquitetura e misticismo. Os bronzes de Pollès, representando apenas mulheres, respondem aos trabalhos de Philippe Hiquily (1925–2013) em que a representação igualmente obsessiva das mulheres se torna uma fusão de movimento, humor e erotismo. A exposição apresentou ainda um espaço dinâmico com esculturas arquitetônicas criadas pelo italiano Francesco Marino di Teana (1920– 2012), professor da Universidade de Buenos Aires. Esculturas de ferro forjado de Hussein Madi (1938), artista libanês, fecharam a rica profusão de trabalhos.

FRANCESCO MARINO DI TEANA 

Nascido no coração de uma família de camponeses das montanhas italianas, Francesco Marino de Teana foi pastor e aprendiz de pedreiro na Itália (Teana), arquiteto e estudante de Belas Artes na Argentina (Buenos Aires) antes de se estabelecer na França. No início dos anos 1950, se tornou um dos escultores mais importantes da segunda metade do século XX. Representado por mais de quinze anos por Denise René, laureado de prêmios artísticos e reconhecido pelos maiores criadores e críticos de arte de seu tempo (de Vasarely a Giacometti, de Seuphor a Harry Bellet), é um artista cujas obras e criações monumentais, sempre imbuídas de uma modernidade atemporal e furiosamente atual, enriquecem as mais importantes coleções públicas e privadas e dinamizam os nossos espaços urbanos. Pintor, escultor e arquiteto, mas também poeta e filósofo, ele tinha um imenso talento e uma grande expectativa para o seu próprio trabalho.Dedicou sua vida e seu trabalho para observar, projetar e construir projetos de modelagem do espaço urbano e desenvolver suas teorias plásticas em torno da noção de “escultura arquitetônica”.

POLLÈS

O artista francês Pollès é considerado o inventor do “Cubismo Orgânico”. Fascinado pela anatomia, estudou medicina e participou das aulas de desenho da Charpentier Academy. Em 1966, descobriu a escultura graças a seu amigo, o escultor Enzo Plazota. “De um dia para o outro, assim que descobri a forma, pensei que poderia desistir de tudo”, disse certa vez. Em 1970, mudou-se para a cidade de Carrara e desde então mora em Pietrasanta, onde criou sua própria fundição, usando o bronze quase exclusivamente como material. Suas criações, em continuidade com as tradicionais esculturas gregas, são um curto-circuito entre a pureza de Brancusi, a abstração figurativa de Henry Moore e as linhas e formas de Modigliani. Foi levado a explorar a figura feminina pela sua complexidade e sensualidade, e desde seus primórdios criou uma forma cúbica estilizada, que se tornou sua assinatura.

HUSSEIN MADI 

Nascido em 1938, em Chebaa, no sul do Líbano, Hussein Madi, pintor, escultor e gravador é um dos artistas mais famosos do Oriente Médio. Entre 1958 e 1962, estudou pintura na Academia Libanesa de Belas Artes de Beirute, antes de se mudar para Roma, em 1963, para continuar seus estudos na Accademia di Belle Arti. Embora seu plano inicial fosse ficar lá por dois meses, Roma acabou sendo sua casa pelos próximos 22 anos! Ele aprendeu de tudo, desde afrescos e mosaicos até o trabalho de bronze e cera. Foi precisamente na Itália onde desenvolveu sua abordagem para a escultura, estabelecendo um método para criar volume a partir de formas dobradas e sem costura. Seus Toros, Pássaros, Mulheres com Cigarros e outras silhuetas humanas combinam dimensões geométricas radicais com a elegância da curva, o que lhes confere uma notável individualidade. Em suas pinturas, estreitamente relacionadas às suas esculturas — com o mesmo vocabulário, sendo a única adição colorida —, Madi retrata as variações de um sujeito em sua multiplicação e atinge excepcional profundidade e harmonia. Entre 1972 e 1987, Madi ensinou pintura no Instituto Nacional de Artes da Universidade Libanesa. Ele foi presidente da associação de artistas libaneses entre 1982 e 1992.


Sem título, escultura de metal pintado de Hussein Madi, 2011. 38 x25 x 60 cm.

PHILIPPE HIQUILY

O artista francês Philippe Hiquily combina controle e improvisação, especulação e sonhos, rigor e humor. O mecanismo continua a ser o defensor de uma liberdade e imaginação que reativa suas andanças em um desejo de inscrever sua escultura no tempo. Entre uma estilização eloquente e um simbolismo equívoco, suas deusas modernas transfiguradas em objetos de desejo nos aprisionam em seu jogo falsamente inocente. A ambivalência do mito de Eros está subjacente a um erotismo agressivo, perverso e terno para neutralizar a hipocrisia de uma moralidade castradora. Criava uma imagem tutelar da mulher: dupla, enigmática e universal. Ela identifica sua jornada unitária, representando uma obra emblemática que coloca Hiquily entre os grandes criadores da segunda metade do século XX.

Philippe Hiquily, La Marathonienne, 1981.

SOBRE A GALERIA MARK HACHEM

Mark Hachem abriu sua primeira galeria em 1996, em Paris. Em seguida, fundou novos espaços em Nova Iorque, em 2007, e Beirute, em 2010. Um colecionador de arte cinética, Mark Hachem tem estado envolvido na defesa desta grande corrente do século XX ao exibir Vasarely, Soto, Cruz Diez, Pérez Flores e outros artistas notáveis deste movimento. Em Beirute, Hussein Madi, Chaouki Chamoun, Sharbel Samuel Aoun, Laila Shawa e Leila Nseir. A galeria Mark Hachem apresenta os principais temas: a arte cinética, a redescoberta dos mestres do século XX, cuja fama é muito inferior à considerável contribuição de suas obras (como Hamed Abdalla, Marino Di Teana…), e finalmente a promoção da arte contemporânea e obras de arte únicas (Stephen Peirce, Mathias Schmied, Thomas Agrinier, Nasr- Eddine Bennacer).

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