Após um ano de exposições temáticas com histórias femininas, o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand anuncia aquisição de 296 trabalhos de artistas mulheres. Por Pedro Zuccolotto. Fotos: Divulgação MASP

Mulheres em geral experimentam uma realidade distinta da vivida pelos homens no que tange a direitos civis e papéis sociais. Ao longo da história, a diferença de gênero teve momentos dramáticos, como no século 19, em que teorias de suposta base científica foram forjadas para explicar e justificar a dominação masculina. O sociólogo positivista francês Auguste Comte, por exemplo, procurou naturalizar a desigualdade em sua teoria da ordem espontânea da sociedade humana, de 1839. Já que as mulheres eram
vistas como naturalmente incapazes de entender e raciocinar, não seriam, portanto, capazes de produzir algo tão complexo como a arte. Muitos esforços têm sido empreendidos desde o final do século 19 para afirmar
a importância das mulheres artistas e de suas obras, como a fundação, em Paris, da Union des femmes peintres et sculpteurs (União das mulheres pintoras e escultoras) em 1881 e, mais recentemente, o surgimento do movimento MeToo, contra o assédio sexual, em Hollywood. A programação do MASP em 2019 se uniu a essa rede de esforços que questiona os valores de gênero dentro da história da arte e celebra as histórias e os trabalhos de
mulheres que, de modo deliberado ou não, foram ignoradas ao longo dos séculos.

Embora pouco falada no Brasil, a pintora, desenhista, muralista e cenógrafa Djanira da Motta e Silva tem tamanha relevância no cenário internacional das artes que uma de suas telas, Senhora Sant’Ana de Pé, faz parte do seleto acervo de Arte Moderna do Museu do Vaticano. Jorge Amado encomendou a ela o mural “Candomblé”, para sua própria casa em Salvador. O escritor, ao discorrer sobre a artista, conseguiu sintetizar seu legado: “sendo um dos grandes pintores de nossa terra, ela é mais do que isso, é a própria terra, o chão onde crescem as plantações, o terreiro da macumba, as máquinas de
fiação, o homem resistindo à miséria. Cada uma de suas telas é um pouco do Brasil”.

Com expressivos 130 m2 de área, o painel do Liceu Municipal de Petrópolis, que hoje se encontra no Museu Nacional de Belas Artes, mostra o ápice de sua produção. “A força incontida de Djanira é vital e fecunda. É uma gênese, uma gestação, é o nascimento de um mundo, mundo brasileiro por excelência e na essência”, escreveu em 1985 Mário Barata, em “Djanira: acervo do Museu Nacional de Belas Artes”.

Djanira em seu ateliê, no Rio de Janeiro, em 1958.

Djanira: a memória de seu povo

Três Orixás, 1966. Óleo sobre tela, 129 x 193,5 cm.
Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Foi a primeira grande exposição monográfica dedicada à obra de Djanira da Motta e Silva (Avaré, São Paulo, 1941– Rio de Janeiro, 1979) desde seu falecimento, há quarenta e um anos. Autodidata e de origem trabalhadora, a artista surgiu no cenário da arte brasileira nos anos 1940. Embora tenha trilhado sólida carreira em vida, nas últimas décadas Djanira foi colocada de lado nas narrativas oficiais da história da arte brasileira. Esta mostra busca, portanto, examinar o papel fundamental da artista na formação da visualidade brasileira e reposicioná-la na história da arte do país durante o século 20.

O título “Djanira: a memória de seu povo” – emprestado de uma reportagem dos anos 1970 de Mary Ventura – referiu-se à trajetória da artista, sua história de vida e muitas viagens pelo Brasil, bem como à pintura profundamente engajada com a realidade à sua volta. No caso de Djanira, falar em memória remete ao extraordinário imaginário que a artista criou com base na vida cotidiana, nas paisagens e na cultura popular brasileira, em torno de assuntos frequentemente marginalizados pelas elites.

O Circo, 1944. Óleo sobre tela, 97 x 117,2 cm. Doado em 2001 pela
Fundação Nacional de Arte – FUNARTE – ao Museu Nacional de Belas Artes.

A exposição incluiu obras de todos os períodos da produção de Djanira, do início dos anos 1940 ao final dos anos 1970, e segue um princípio cronológico, ao mesmo tempo que reúne trabalhos dos principais temas da artista: retratos e autorretratos, diversões e festejos populares, o trabalho e os trabalhadores, a religiosidade afro-brasileira e católica, os indígenas de Canela do Maranhão, entre diversos povos, e paisagens brasileiras.

A obra de Djanira foi por vezes rotulada pela crítica como arte primitiva ou ingênua, classificações que hoje são entendidas como preconceituosas e perversas, pois refletem uma perspectiva elitista e eurocêntrica, segundo a qual todos os trabalhos que não seguissem os estilos e gostos eruditos tidos como “oficiais” eram considerados menores — primitivos, ingênuos, naïfs. Esta exposição e o livro que a acompanha visam reparar esses equívocos e incompreensões, devolvendo a urgente visibilidade que a obra de Djanira merece.

Ano após ano

Em 2019, o MASP dedicou todo o seu programa de exposições, publicações, oficinas e palestras ao “Histórias Femininas, Histórias Feministas”. Todas as exposições temporárias apresentaram exclusivamente artistas autoidentificadas como mulheres.

Nesse contexto, todos os esforços resultaram na aquisição de 296 obras realizadas por 21 artistas contemporâneas, um coletivo e muitas mulheres artistas desconhecidas do século XIX.

Leonor Antunes vazios, intervalos e juntas (2019).
Fio de madeira, latão e nylon Foto: Eduardo Ortega

Rico acervo

A aquisição inclui peças de de artistas desconhecidas (ou grupo de artistas) do Egito, Grã-Bretanha, Marrocos, Império Otomano, Filipinas, Estados Unidos e Uzbequistão, e também das seguintes artistas: Aline Motta; Ana Mazzei e Regina Parra; Anna Bella Geiger; Carolina Caycedo; EvaMarie Lindahl e Ditte Ejlerskov; Kaj Osteroth e Lydia Hamann; Leonor Antunes; Lucia Guanaes; Luiza Baldan; Lyz Parayzo; Marcela Cantuária e Ruth Buchanan; Sallisa Rosa; Santarosa Barreto; Serigrafistas Queer; Tuesday Smillie; Valeska Soares; Virgínia de Medeiros. Além disso, uma pintura icônica de Tarsila do Amaral (Composition, Lonely Figure, 1930) foi trazida
para a coleção como um empréstimo de longo prazo.

Edredão de lâminas de moinho de vento, por volta de 1980.
Seda e veludo, 161 x 162 cm.

Sobre o profícuo caminho percorrido no ano passado, Adriano Pedrosa, diretor artístico do MASP, afirma: “2019 foi um ano extraordinário para o MASP, tanto em termos de aquisições quanto de programação, pois muitos artistas que se identificaram como mulheres foram levados ao museu. O impacto dessas aquisições na coleção e, acima de tudo, na sua exibição é bastante radical e, como tal, nos tornamos muito mais um ‘museu diversificado, inclusivo e plural’, algo já declarado em nossa missão”.

Isabella Rjeille, curadora de “Histórias Feministas: artista depois de 2000” e que liderou muitas das aquisições, comentou: “Este é um passo histórico para a instituição em direção a uma representação mais equilibrada da História da Arte em sua coleção, conhecida por sua maior presença de brancos, artistas masculinos e europeus”.

Anna Bella Geiger
Brasil nativo / Brasil alienígena, 1976-1977
2 de 18 cartões postais, 10 × 15 cm (cada).

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.