Fachadas ventiladas com placas cerâmicas e porcelanatos

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Sistema construtivo de duas peles melhora o conforto térmico, isolamento acústico e facilita trabalho de manutenção. Por Allaf Barros e Pedro Zuccolotto

Na busca de soluções sustentáveis, novos empreendimentos e edifícios em revitalização estão apostando nas fachadas ventiladas, tecnologia que proporciona, entre outros benefícios, eficiência energética, conforto térmico nos ambientes internos e maior facilidade na manutenção e limpeza de áreas externas.

Foi ainda no início século XX que o franco-suíço Le Corbusier concebeu a ideia de um sistema construtivo com uma parede neutralizante para melhorar o conforto térmico da construção. Hoje, produzido a partir de diversos materiais e com fins até mesmo estéticos, a fachada ventilada se tornou uma opção para arquitetos e construtoras.

João Carlos Gabriel, coordenador do curso de Engenharia Civil do Centro de Ciências e Tecnologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie Campinas, conta um pouco sobre as utilizações desse sistema. “Utilizado hoje principalmente para fins estéticos e arquitetônicos, esse sistema pode promover isolamento acústico em locais com muito ruído”.

Os materiais utilizados para a composição são os mais diversos: alumínio e vidro, aço inoxidável, alumínio, madeira, chapas de aço carbono, aço galvanizado, zinco, cobre, bambu, placas de rochas naturais, cerâmicas, placas de fibras, placas poliméricas – fenólicas, de polimetilmetacrilato, de policarbonato, placas de fibrocimento, porcelanatos, entre outros. “Estes materiais propiciam grande variedade de cores, formas e geometrias e texturas”, explica o professor João Carlos.

Se comparadas aos sistemas tradicionais de fachada, as ventiladas oferecem algumas vantagens. Segundo Luiz Henrique Manett, gerente de Inovação e Sistemas Construtivos da Portobello, “para o morador, além do conforto térmico, — amenizam a passagem de calor no verão e mantém o calor interior no inverno —, elas podem economizar até 20% de energia elétrica”. Para Manett, isso acontece pela redução do consumo de ar-condicionado nas estações mais quentes do ano, por exemplo. Outra vantagem é a beleza estética. “A escolha por placas de grandes formatos, sem eflorescência, sem rejuntes manchados e perfeitamente alinhadas,
contribuem para uma melhor aparência e também refletem na valorização do imóvel. Por fim, o sistema dispensa qualquer manutenção técnica durante toda sua vida útil, reduzindo drasticamente os custos de condomínio”, explica. “O fato de as placas estarem ‘soltas’ do corpo do edifício, permite a ventilação por trás do revestimento, esfriando o edifício no verão e isolando-o no inverno”, complementa.

Com áreas expressivas, as estrutras provisórias têm sido erguidas em tempo recorde. Este é o caso do hospital de campanha em Águas Lindas (GO), que tem área construída de 5 mil metros quadrados. A estrutura da unidade está dividida em dois galpões, sendo o menor utilizado pelos profissionais da área da saúde, como dormitório, refeitório, banheiros e para higienização. No galpão maior estão instalados duzentos leitos, que podem ser adaptados para o funcionamento de unidades de terapia semi-intensiva. Destes leitos, quarenta funcionarão com respiradores, difusores e bomba difusão.

Ainda durante a fase de construção, segundo o prefeito de Águas Lindas de Goiás, Hildo do Candango, a unidade foi pensada para atender não somente à própria cidade em que foi erguida, mas à diversas regiões do entorno. À época, disse: “O hospital de campanha de Águas Lindas contará com estrutura e profissionais especializados para o enfrentamento da Covid-19. A unidade atenderá além da população águaslindense, seis municípios do entorno, como: Santo Antônio, Valparaíso de Goiás, Novo Gama, Luziânia, Cidade Ocidental e Cristalina. Juntos, os municípios têm uma população estimada em 1,2 milhão de habitantes, e se necessário, pacientes do Distrito Federal também”, declarou o prefeito. A primeira paciente foi recebida na estrutura em 14 de junho.

Montagem

A fachada ventilada é montada como uma segunda estrutura sobre a fachada principal, fixada e distanciada por mais de 10 centímetros, criando uma câmara de ar pelo efeito chaminé — fundamentado no princípio da física de correntes de convecção. A largura da camada isolante, no entanto, pode ser modificada conforme o projeto. Os fechamentos do sistema de fachada ventilada são aplicados com sistemas de juntas abertas, ou seja, o espaço entre as placas de revestimento não são integralmente vedadas, permanecendo entre elas aberturas. Isso permite o fluxo de ar e também dificulta a formação de patologias devido à dilatação térmica das placas. “As fachadas ventiladas podem variar em tipos de materiais, geometrias, combinações de materiais, texturas, mas também podem ter sistemas de fixação diferentes assim como ter juntas diferentes”, explica João Carlos.

Os tipos de fixação podem ser visível ou oculto. “O conjunto pode ter fixação para revestimentos de grande espessura, fixação à vista para revestimentos de pouca espessura, fixação sobreposta para revestimento de espessura fina e fixação oculta para revestimento de pouca espessura”, explica o professor. As fachadas ventiladas são fixadas na estrutura do prédio por meio de ancoragens químicas ou mecânicas e elementos de fixação. A estes elementos são fixos os perfis (ou trilhos) que sustentam os elementos da fachada. Alguns dos elementos podem ser parafusados e outros encaixados e fixos. Segundo a engenheira Karina Campos, gerente da Eliane Tec, o portfólio da empresa oferece “sistema oculto de inserts metálicos para vitrocerâmica e porcelanatos, sistema stick para placas de grandes formatos e sistema oculto de grampos metálicos para porcelanatos”.

Com relação às juntas, elas podem ser de juntas abertas e de juntas fechadas, estas usadas nos locais onde as condições climáticas são muito extremas ou devido à ação das águas da chuva. Diante disso, não é incomum verificar problemas de estanqueidade (principalmente em períodos longos de chuvas) e também formação de sujidades que devem ser removidas com constância nas fachadas ventiladas.

Onde aplicar

Segundo o professor João Carlos, toda a aplicação de uma fachada ventilada deve ser avaliada por equipe de engenharia especializada. Se as fachadas ventiladas não foram previstas ainda na fase do projeto estrutural, é necessário que se faça avaliação estrutural e, se for o caso, o reforço das estruturas para que suportem tanto a carga da fachada ventilada como as ações de vento que agem sobre esta estrutura. Nos locais onde existem riscos de incêndio, as fachadas ventiladas podem conduzir fumaça e calor. É possível usar em um retrofit também, desde que um engenheiro civil estrutural faça uma análise para verificar que a estrutura da edificação suporta a estrutura da fachada ventilada. A engenheira Ligia Voss, responsável pela obra de retrofit e troca de fachada do Floripa Shopping, na capital catarinense, justificou a escolha do sistema implementado no segundo semestre de 2019. “Partindo da fachada existente, diversos requisitos técnicos precisaram ser atendidos para o bom funcionamento, como por exemplo, a regularização das superfícies do ponto de vista geométrico e estrutural. A fachada ventilada foi uma opção devido à uma série de vantagens sobre o sistema de revestimento cerâmico convencional, fácil manutenção e limpeza, segurança e eficiência energética, estão entre essas vantagens”, contou.

Contra incêndios

É fundamental que nas fachadas ventiladas não se utilizem materiais que propagam chamas e que os elementos de fixação tenham ponto de fusão elevado, para que não sejam afetados quando expostos ao calor excessivo. Também é preciso que, no projeto da edificação, sejam atendidas as Instruções Técnicas do Corpo de Bombeiros, como no caso do Estado de São Paulo, a INSTRUÇÃO TÉCNICA Nº 09/2019 – Compartimentação horizontal e compartimentação vertical. “A fachada ventilada, se não for corretamente produzida e instalada, pode potencializar incêndios, pois alguns sistemas do mercado utilizam componentes que propagam chamas como alguns tipos de ACM e revestimentos resinados”, explica Manett.

Décadas de aprimoramento

A Portobello, um dos players do mercado no fornecimento da tecnologia de fachadas ventiladas, desde 2005 realiza pesquisas sobre o sistema construtivo. “O sistema é fruto de um processo industrializado de construção e é a forma mais rápida, segura e garantida de se revestir qualquer estrutura. Por meio parceiras instaladoras, fornecemos o serviço completo com materiais, ferramentas, projeto e mão de obra, além da garantia dos serviços prestados por um período de 10 anos”, explica Luiz Henrique Manett, gerente de inovação e Sistemas Construtivos da Portobello, fala sobre o sistema oferecido pela empresa.

Segundo Manett, o sistema atende às normas brasileiras de ventos e impactos, tem mais durabilidade, é de fácil gestão na obra, tem menor custo de manutenção, rápida instalação, além de trazer conforto térmico.

Ao contrário do que muitos pensam, o sistema de fachada ventilada não está restrito a obras de grande porte. Manett explica que pode ser aplicado “desde uma residência térrea ou loja de rua até altas torres residenciais, shoppings centers, hospitais e edifícios comerciais”. Segundo o gerente, a maioria das obras de fachada ventilada realizada pela Portobello não é comercial, mas de edifícios residenciais. A empresa forneceu, por exemplo, o sistema instalado no edifício residencial Sint Maarten, no Barra Sul do Balneário de Camboriú, da construtora J. A. Russi e no edifício residencial Senset Plaza, em Maringá, Paraná, obra da construtora Pedro Granado.

Os sistemas desenhados para a máxima performance oferecem entre 200 e 300 vezes mais área de fixação do que os de grampos simples ou inserts metálicos. “Desde o seu lançamento em 2013, não houve registro de qualquer tipo de defeito, patologia, quebra ou queda de placas de suas fachadas, todas ainda estão dentro do prazo de garantia de 10 anos”, garante Manett. A Portobello também trabalha com placas de porcelanato de até 1,60 x 3,20 m, que tornam as fachadas mais competitivas e sustentáveis.

Fachada completa do edifício residencial Sunset Plaza, em Maringá, Paraná. Obra da construtora Pedro Granado utiliza tecnologia de fachada Portobello.

A tecnologia

Os sistemas apresentados por Manett utilizam materiais de alta durabilidade e resistência às intempéries. “Desde os parafusos de aço inoxidável até os porcelanatos que não perdem a aparência inicial ao longo do tempo, o sistema é composto por diferente de soluções em alumínio composto (ACM)”, explica Manett. O profissional defende o uso do porcelanato pela perenidade do aspecto visual, “o que não ocorre com pedras naturais, cimentos e outros materiais que desbotam, mancham ou degradam com o tempo”, detalha. Por trás destas placas, todos os componentes (perfis de alumínio, adesivos e parafusos) são totalmente dimensionados e industrializados, diferente dos revestimentos tradicionais (pintura, pedras e cerâmicas aderidas) que são processos empíricos e artesanais cujo sucesso depende muito das experiências anteriores do projetista e dos executores.

Sistema universal

“Até 2018 trabalhávamos com três sistemas diferentes, conforme o tamanho e espessura das placas de porcelanato, bem como com a limitação de peso das peças maiores que 90 x 90 centímetros, no entanto a partir de 2018, uma nova tecnologia foi desenvolvida por um de nossos parceiros que permite que um único sistema comporte qualquer tamanho e espessura de placas com duas vezes mais resistência ao impacto e ao vento que nossos sistemas anteriores”, explica Manett.

A instalação

Trata-se de um sistema industrializado de instalação a seco de alta produtividade, que permite a instalação em pelo menos cinco vezes menos tempo do que se fosse pelo método tradicional. “Esse método praticamente não impõe limites para altura do edifício e tamanho de placas. Com a estrutura e alvenaria prontas, são parafusados os perfis de alumínio diretamente no concreto da estrutura, corrigindo qualquer desaprumo ou desalinhamento que possa ter ocorrido”, explica Manett. Em seguida, são fixadas as placas de porcelanato com polímero MS, o mesmo adesivo utilizado em fachadas de vidro e para-brisa de aviões. “Por fim, são instalados os elementos de acabamento, como pingadeiras, requadros de portas e janelas, brises, rufos e frisos”, conclui.

Instalação das placas da fachada ventilada do edifício residencial Sunset Plaza, em Maringá, Paraná. Obra da construtora Pedro Granado.

Tecnologia japonesa

O sistema japonês oferecido pela Eliane Tec, serviço da Eliane especializado em soluções construtivas completas, é composto por uma tecnologia híbrida à base de dióxido de titânio e metais nobres, sendo eficaz na prevenção de bactérias Escherichia Coli (E.Coli), Staphylococcus Aureus (S. Aureus) e Pseudomonas Aeruginosa e vírus (Influenza/H1N1), eliminando até 99,99% desses organismos. “Cleantec é aplicado sobre os revestimentos cerâmicos e possui fórmula distinta para cada uma de suas aplicabilidades, relacionadas aos benefícios e seu local de uso”, explica a engenheira e gerente da empresa Karina Campos, mestre em engenharia civil pela Universidade Federal de Santa Catarina.

O sistema pode aplicado nos mais diversos projetos, sendo utilizado em fachadas ventiladas e aderidas, paredes, pisos residenciais internos e bancadas de construções comerciais e residenciais. “Quando aplicada em fachadas, a tecnologia ajuda na purificação do ar por meio de uma reação química semelhante à fotossíntese. Uma fachada revestida com 150 m² do produto aplicado purifica a mesma quantidade de ar que uma área verde de aproximadamente 910 m²”, explica Campos. A engenheira explica que o sistema também auxilia na eliminação de sujeiras das fachadas, facilitando e reduzindo custos de limpeza. “Na presença de luz natural, ocorre uma reação de oxidação na superfície do revestimento onde há aplicação de Cleantec, criando uma reação que dificulta a adesão de líquidos e resíduos orgânicos, permitindo que a água da chuva retire os resíduos de sujeira”, complementa.

Os principais diferenciais da fachada ventilada, segundo a Eliane, são a eficiência energética associada à alta produtividade gerada pelos painéis pré-fabricados na indústria e a eliminação de manifestações patológicas nas edificações. “Por apresentar afastamento entre o revestimento externo e a base suporte do edifício, ela forma uma câmara de ar entre eles, por onde o ar frio entra pela base e o ar quente sai pela parte superior, permitindo ventilação contínua”, explica Campos. A circulação de ar promovida pelo sistema proporciona maior conforto térmico aos ambientes internos do edifício, reduzindo em 30% o consumo de energia. Outros diferenciais da Fachada Ventilada Eliane Tec são a uniformidade, maior resistência a cargas de vento e impactos, além de potencial criativo. Ela também é mais leve que as fachadas de projetos tradicionais.

A fachada do Floripa Shopping, na capital catarinense, foi remodelada com sistema híbrido de fachada e revestimento, incluindo o Eliane Tec.

Fachada renovada com shopping em funcionamento

A solução oferecida por sistemas de fachada ventilada tem chamado a atenção principalmente em construções ligadas à infraestrutura urbanística, como é o caso do Floripa Shopping. Neste projeto, o sistema é oferecido pela Eliane Tec.

Inaugurado em 2006, o shopping – localizado às margens da rodovia SC-401, principal acesso às praias mais conhecidas da capital Florianópolis – passou no segundo semestre de 2019 por uma reforma que teve como foco revitalizar toda a fachada do local. Com cerca de 450 mil visitantes por mês, os proprietários do empreendimento identificaram a necessidade de mudar a aparência já conhecida e apostar em uma eficiência energética. “Para marcar esta importante data – nosso aniversário de 13 anos –, realizamos uma reforma completa da fachada, adotando a solução da fachada ventilada para destacar ainda mais o Floripa Shopping dentre os demais empreendimentos corporativos da região. Além de optar por um recurso arquitetonicamente elegante, procuramos uma tecnologia que se adequasse a nossa política de sustentabilidade”, afirmou à época Jean Carlos, diretor e superintendente do shopping. “O projeto final foi uma combinação de diferentes materiais, incluindo pele de vidro, fachada ventilada, brises, revestimento argamassado e novos elementos, como marquises e esquadrias”, explica a engenheira Ligia Voss.

A solução construtiva empregada no shopping utiliza sistema retrofit, o que permitiu a modernização da fachada do Floripa Shopping, indo além de uma simples reforma, mantendo os conceitos arquitetônicos iniciais do projeto, mas adequando-o às novas necessidades dos visitantes, além de possibilitar a implantação de novas soluções que facilitam a manutenção. Por se tratar de uma construção de grande circulação de pessoas, que ficará aberta durante a revitalização, o serviço da Eliane permite que a obra seja feita em etapas, reduzindo ainda o tempo de execução drasticamente. A tecnologia também proporciona um isolamento térmico e uma baixa dispersão de calor em períodos frios e baixa absorção de calor em meses quentes, mantendo a temperatura dos espaços interiores sempre amena. “A obra foi executada de maneira setorizada seguindo uma logística compatível com a operação do Shopping em funcionamento”, explica Voss.

Patrizia Chiparri, arquiteta responsável pelo projeto, destaca que a reforma veio da necessidade de um reposicionamento do Shopping, que buscava uma modernidade na linguagem que utilizava. “O nosso projeto precisava criar um invólucro sem que afetasse as atividades do shopping. O retrofit possibilitou uma obra limpa e sustentável”, destaca.

Outra vantagem do sistema é gerar importantes reduções dos custos com manutenção dos edifícios. “As fachadas ventiladas proporcionam uma maior facilidade de manutenção das construções, já que permitem a instalação de novos sistemas construtivos que originalmente não existiam no Floripa Shopping. Por ser um sistema retrofit, também conseguimos atender as demandas do empreendimento e seus visitantes em menor tempo e otimizando a obra como um todo – sem a necessidade do espaço ser fechado durante a revitalização, por exemplo”, conta Karina Campos, gerente da Eliane Tec. “Apesar do grande desafio logístico, em parceria com o Floripa Shopping, conseguimos elaborar um plano de execução priorizando agilidade e segurança”, concluiu o engenheiro civil Guilherme Marques Barbaresco.

Matéria publicada originalmente na revista Téchne.

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