Estudo iniciado em 1933 irá gerar banco de dados sobre durabilidade do concreto brasileiro

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Após ruptura de corpos de prova históricos, amostras de até 86 anos passarão por novos ensaios; estudo inédito pode auxiliar na preservação de obras de construção civil e desenvolvimento de novas tecnologias de concreto

O ano era 1933 e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas ainda não era o IPT – o então Laboratório de Ensaios de Materiais, ou LEM, só receberia essa alcunha um ano depois, sob a liderança do engenheiro civil, pesquisador, educador e empreendedor Ary Torres. Nessa época, Torres já tinha em seu currículo trabalhos como especialista em materiais de construção, sobretudo ligados ao concreto. E foi com o objetivo de estudar a durabilidade e o desempenho desse material que foi lançado um projeto visionário e pioneiro até os dias de hoje: por que não estudar a resistência do concreto ao longo de 50 anos após sua produção?

Daquele ano até 1965, o IPT produziu mais de 15 mil amostras de concreto com cinco diferentes cimenteiras nacionais. Os corpos de prova foram produzidos em seis diferentes traços – ou seja, seis diferentes proporções de mistura dos ingredientes principais do concreto (cimento, areia, brita e água). Periodicamente, equipes de diversas gerações promoveram a ruptura das amostras com diversas idades de 2 dias até 50 anos, para verificar a sua resistência à compressão.

A conservação de 422 desses corpos de prova propiciou um momento histórico em 2019: a ruptura de um corpo de prova de 86 anos de idade. Os dados, comparados aos da ruptura de amostra semelhante em 1933, com 28 dias de sua produção – o tempo definido pelas normas para realização desse tipo de ensaio –  mostraram que a resistência do concreto praticamente dobrou ao longo dos anos. Além dele, outros onze corpos de prova produzidos entre 1933 a 1965 foram rompidos, também apresentando aumento considerável da resistência do material.

“Não há projetos semelhantes a esse no Brasil. Mesmo no mundo, o único de que temos conhecimento é um projeto na Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos”, aponta Karoline Mariana Gonçalves, pesquisadora do Laboratório de Materiais de Construção Civil do IPT. “As normas têm como padrão a análise do concreto após 28 dias da confecção. Para o concreto de 86 anos que rompemos, por exemplo, verificamos que a resistência continuou a crescer após esse período. Isso permite criar parâmetros para o comportamento do concreto em obras de construção civil, muitas datadas da mesma época de confecção dos corpos de prova”, analisou.

Agora, organizar um banco de dados capaz de fornecer informações de valor para o meio acadêmico e industrial da construção civil, bem como para a sociedade, é uma das prioridades da equipe atual do Laboratório de Materiais de Construção Civil do IPT.

“Dispomos hoje de novas tecnologias que permitem uma análise mais apurada do concreto. Pretendemos fazer uma análise microestrutural das amostras, com a qual poderemos avaliar a evolução do material cimentício em termos de distribuição e composição. Também serão feitas análises mineralógicas e químicas, além de outras mais refinadas, como tomografia computadorizada, por exemplo”, enumera Priscila Rodrigues Melo Leal, coordenadora do trabalho que deu seguimento ao estudo iniciado em 1933.

Para Paulo Roberto do Lago Helene, ex-presidente e atual diretor do Instituto Brasileiro do Concreto (Ibracon), os resultados do trabalho serão importantes não apenas para a tecnologia do concreto, mas para a evolução da indústria brasileira.

“Embora o concreto seja um material antigo, a fabricação dentro de um protocolo, com composição química definida, é recente, tem cerca de 100 anos. É um material muito jovem”, explica. “Agora, teremos informações fidedignas do comportamento do material ao longo do tempo – é um material de referência, importante para o crescimento do setor e da consolidação da nossa forma de construir”.

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