Terca-Feira, 07 de Dezembro de 2021

Entrevista: Paulo Baruki fala sobre sustentabilidade e seus icônicos projetos de shoppings centers

“Somos bombardeados pelo imediatismo e estamos sufocando nossa capacidade de reflexão”. Paulo Baruki fala com exclusividade sobre ressignificação, compartilhamento e desejos.

Foto: Dario Zalis

Paulo Baruki prova por meio de seu extenso portfólio que é possível atribuir personalidade, irreverência e estilo em projetos para grande fluxo de pessoas. Criador de tendências no mercado de projetos de uso misto na América Latina, o arquiteto desenvolveu um estilo que entrelaça a beleza natural da paisagem com a sofisticação do ambiente urbano. Sua capacidade inata para produzir essa mistura fez dele um visionário no campo da arquitetura e do design. Com exclusividade, Baruki concedeu esta entrevista à revista aU. Conhecer como pensa o profissional que revolucionou o pensamento dos centros comerciais no Brasil (e que está com frentes de trabalho por toda a América), é um privilégio.   

            No mundo contemporâneo de enormes arranha-céus tão impessoais, Baruki redescobriu um passado humanista e o incorporou aos seus projetos. No ano de 2000, fundou a PBA, empresa inovadora e jovem. Com mais de 20 anos de carreira e reconhecido por seus projetos espalhados pela América Latina, mescla inovação, tendência, racionalidade e sustentabilidade. Aos 53 anos, assinou obras de Shoppings Centers por todo o Brasil e se tornou um dos nomes mais notórios da arquitetura contemporânea contemplado com cinco prêmios internacionais.

            Baruki acredita que a arquitetura é uma ferramenta de comunicação e que o diferencial de sua produção está nos cuidados iniciais, quando o projeto ainda está em fase de estudos. “Utilizando a arquitetura e o urbanismo como veículos de comunicação e transformação, penso ser a hora do projeto um testemunho otimista de vida que sempre segue a passos largos, evolucionando, expandindo-se, alegrando-se”, relata. Confira o bate-papo completo a seguir.

Fale-nos brevemente sobre sua escolha vocacional e trajetória profissional.

Desde criança tentava harmonizar tudo que estava a minha volta, digo materialidades e também questões emocionais conflituosas. Trazia dentro de mim a certeza que tudo poderia ser transformado para melhor, para se ter mais beleza, tranquilidade e acolhimento. Hoje aos cinquenta e três anos, consigo ainda sentir que este mesmo menino ainda vive dentro de mim, agora crescido e capaz de tecer caminhos harmônicos de muitos outros. Sinto assim, aplicando na minha própria vida esta percepção do universo, onde, escolha, vocação e trajetória se fundem num único propósito de emocionar-se e emocionar outrem.

Qual foi o projeto que mais marcou sua carreira?

Talvez tenha sido o ParkShopping Barigui, como bem lembrou há pouco tempo Rafael Santiago, querido amigo e colaborador desta árdua caminhada profissional. Há inúmeros importantes divisores de águas na minha trajetória profissional, mas talvez este projeto em Curitiba tenha sido minha primeira demonstração pública de amor comunitário, através de gestos arquitetônicos comprometidos com a releitura do inconsciente coletivo e com as motivações primitivas vitais do contexto, do local.

Qual foi a maior desafio que enfrentou profissionalmente?

Sem sombra de dúvida meu maior desafio há tempos é plasmar consciências, redirecionando e agrupando desejos de forma a lograr resultados coletivos efetivos. Este desafio filosófico se aplica tanto aos processos internos de criação e desenvolvimento de projetos dentro do nosso escritório, quanto no ato de apresentação e convencimento de uma ideia inovadora, frente a um cliente, uma instituição, uma coletividade.

O que é mais importante na hora de fazer um projeto arquitetônico? Penso que seja despir-se de si próprio e introjetar-se na memória do local onde a obra será erguida. Há neste instante uma responsabilidade gigante de sentir o contexto pulsante, com vida e alegria. Muitas vezes deparo-me frente a “terras arrasadas” onde a tristeza e o desalento são flagrantes. Mas convicto da importância do humanismo que permeia nossa profissão e

atento a possível regeneração urbana e a transmissão de memória, começo a traçar linhas e metas viáveis. E assim utilizando a arquitetura e o urbanismo como veículos de comunicação e transformação, penso ser a hora do projeto um testemunho otimista de vida que sempre segue a passos largos, evolucionando, expandindo-se, alegrando-se.

Você se tornou uma das maiores referências nacionais em projetos de centros comerciais e shopping centers. Conte-nos sobre esta experiência.

Não vi o tempo passar, tudo foi muito rápido e feliz. Fiz amigos profissionais de norte a sul e de leste a oeste neste país. Hoje sinto-me agraciado por perceber uma sólida estrada pavimentada atrás de mim, com colaboradores e seguidores, afetuosos e orgulhosos, transitando na mesma com desenvoltura e também convictos de um propósito coletivo consolidado. E com este amor e dedicação ao coletivo ando viajando pelo mundo, expondo a força do pensamento arquitetônico naturalista brasileiro. Sinto-me muito feliz em sentir-me acolhido em diversas plenárias longínquas, onde nossa miscigenação e diversidade são admiradas e percebidas como um belo legado do Brasil para o Mundo.

 Você tem feito projetos de retrofit? Como enxerga as possibilidades de intervenção em edifícios já em funcionamento (às vezes há décadas)?

Vejo como uma ótima oportunidade de ressignificação espacial. A vida é cíclica e o movimento e a transformação fazem parte deste processo. Por mais que tenhamos a intenção de eternizar nossos traçados, o dinamismo social e econômico nos faz pensar na beleza do transitório. Novamente vem em mim o forte propósito de sempre harmonizar, agora o tempo, os dias, as décadas. Nosso pensamento é infinito e temos esta liberdade e este poder de mesclar períodos, sobrepor atitudes, reconciliar objetivos e também novamente, reativar motivações e vida por onde passamos.

Fale-nos sobre os projetos em que está trabalhando atualmente. Alguma novidade que possa nos contar?

Com muito orgulho e otimismo digo que hoje estamos mais qualificados e prontos para novos desafios. Ultrapassamos a provável maior crise econômica já registrada em nosso país com altivez. Retivemos nossas conquistas, nossa esperança e aproveitamos o tempo intensificando intercâmbios internacionais.  Atualmente contamos com cinco prêmios internacionais, sendo esta visibilidade responsável pelo início da elaboração de estudos arquitetônico para cidades no México e nos Estados Unidos. Também acredito que sementes plantadas no Oriente Médio em breve frutificarão. Novamente tomado de uma forte onda otimista, notifico que teremos mais uma “casa na árvore” em São Paulo, cidade que crescentemente vem acolhendo nosso legado, meu interesse e minha emoção.

Onde busca inspiração para seus projetos?

Minha inspiração recorrente é a natureza; como disse Baruch Spinoza: Deus é Natureza. Pratico esta máxima com pompa e circunstância todo santo dia, pois há realmente algo de divino na fusão arte e técnica, propiciada pela arquitetura. Como consequência desse estímulo inspirador, acredito no poder da alegria, intrínseco ao ato de projetar e ao crescimento espacial: força motriz da expansão e evolução humana e arquitetônica. Fazemos parte de um país vibrante e exuberante, que detém em cada recanto um potencial gigante de alegria. Sinto-me novamente privilegiado por não ter sufocado o menino romântico, concebido com grande amor e protegido por inúmeros afetos, afeções positivas (salve Spinoza), durante estes anos todos…

Como tem trabalhado a questão da sustentabilidade em seus projetos. Cite exemplos. A sustentabilidade já nos rendeu alguns prêmios, inclusive internacionais. Seguimos standards, que nos qualificam a ter tranquilidade no diálogo com diversas instituições mundo a fora. Acredito que nos projetos selecionadas para esta entrevista muitos reconhecerão nossa pauta sustentável.  Particularmente hoje sinto-me muito interessado na sustentabilidade emocional. Somos bombardeados pelo imediatismo e estamos sufocando nossa capacidade de reflexão. Sinto um entristecimento naqueles que ainda não perceberam a grandeza e a maravilha da ressignificação, do compartilhamento e do redirecionamento dos desejos: tudo é possível e para um bem maior! Resumo esta postura numa visão holística necessária e praticada pelo nosso escritório, capaz de traduzir uma vontade primitiva e ancestral de inclusão e harmonização de conceitos e estilos de vida.

*Conteúdo publicado na edição 289 da Revista aU.

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