Entrevista

Entrevista exclusiva: Gustavo Penna e a arquitetura do sim

Apaixonado pela poesia e pela mineiridade, Gustavo Penna transforma palavras em arquitetura. “Em Minas, escrever é cortar palavras. Projetar também. Quem faz arquitetura são as palavras, não o ferro e a estrutura. Elas são ditas ao arquiteto por vários agentes, que constroem a espacialidade na nossa imaginação. O universo da terceira dimensão o surge do que nos dizem.” 

Gustavo Penna. Foto: Fernando Furtado

Seus trabalhos já foram expostos no Brasil e no mundo, dando destaque para a Bienal de Arquitetura, em São Paulo, a Bienal de Veneza, a Bienal de Buenos Aires, a Trienal de Arquitetura Mundial, em Belgrado e o Institut Français d’Architecture, em Paris. 

Gustavo Penna formou-se pela Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde lecionou por três décadas. É arquiteto e fundador do escritório GPA&A. Conquistou prêmios internacionais, como o The International Architecture Award, em Chicago, o World Architecture Festival (WAF), em Cingapura e o Architizer A+Awards, em Londres.   

É membro do Conselho Curador da Fundação Oscar Niemeyer e da Fundação Dom Cabral. Sócio-fundador da Academia de Escolas de Arquitetura e Urbanismo de Lingua Portuguesa (AEAULP).

Gustavo é autor de projetos como o Expominas (Centro de Feiras e Exposições de Minas Gerais), o Monumento à Liberdade de Imprensa, o Memorial da Imigração Japonesa, na Pampulha, os museus de Congonhas (patrimônio cultural da humanidade), Sant’Ana e Regina Mundi, o novo Estádio do Mineirão, a Escola Guignard (considerada uma das 30 obras mais relevantes da arquitetura no Brasil). Confira a entrevista exclusiva.

Confira a entrevista exclusiva, publicada na edição de julho da Revista aU. Acesse a edição na íntegra aqui.

aU: Fale-nos um pouco sobre sua vocação para arquitetura. 

Gustavo: Eu tinha 12 anos de idade e já trabalhava com trabalhos manuais. Gostava de ferramentas, de fazer papagaio. Eu tinha um canivete afiado, cortava o bambu e fazia a estrutura. Depois escolhia as cores. Construía carrinho de rolimã, caixote. Meu pai tinha uma oficina em casa e ali eu brincava demais. Foi uma coisa natural o fazer, a proximidade com a construção. Mas também foi porque eu nasci em Belo Horizonte, na terra da Pampulha, edifício que tinha apenas 10 anos quando eu nasci. Meu pai foi pioneiro em Brasília. Foi o primeiro engenheiro a pisar ali. Essa conjunção de fatores me levou a ser utópico. Porque arquitetura é pura utopia. Eu prestei vestibular para engenharia e arquitetura. Estudava numa escola que tinha como meta o curso de engenharia. Passei nos dois. Um padrinho meu perguntou qual dos cursos eu escolhi. A resposta você já sabe. 

aU: De que maneira acredita que a linha e o projeto pedagógico da escola de formação influenciam na sua trajetória como arquiteto?

GP: Eu tinha 12 anos de idade e já trabalhava com trabalhos manuais. Gostava de ferramentas, de fazer papagaio. Eu tinha um canivete afiado, cortava o bambu e fazia a estrutura. Depois escolhia as cores. Construía carrinho de rolimã, caixote. Meu pai tinha uma oficina em casa e ali eu brincava demais. Foi uma coisa natural o fazer, a proximidade com a construção. Mas também foi porque eu nasci em Belo Horizonte, na terra da Pampulha, edifício que tinha apenas 10 anos quando eu nasci. Meu pai foi pioneiro em Brasília. Foi o primeiro engenheiro a pisar ali. Essa conjunção de fatores me levou a ser utópico. Porque arquitetura é pura utopia. Eu prestei vestibular para engenharia e arquitetura. Estudava numa escola que tinha como meta o curso de engenharia. Passei nos dois. Um padrinho meu perguntou qual dos cursos eu escolhi. A resposta você já sabe. 

aU: De que maneira acredita que a linha e o projeto pedagógico da escola de formação influenciam na sua trajetória como arquiteto?

GP: O meu curso de arquitetura foi espetacular. Eu entrei numa escola de arquitetura que tinha os princípios didáticos baseados nos pensamentos do Sylvio de Vasconcellos, que escreveu sobre as questões da mineiridade, estudioso do patrimônio histórico de Minas. Era um curso de arquitetura cheio de entusiastas. Eu vivia uma escola em que você não podia sentar num banco sem sair com grafites na calça. Todos os bancos eram cheios de croquis. Eu tive grandes mestres, como o Humberto Serpa (autor do icônico edifício da sede do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais –BDMG, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte). Ele tinha a dimensão do devaneio. Do descolar. Meus professores me ensinaram a ter os pés no chão, os olhos no horizonte e a cabeça nas estrelas. Se você não tiver pé no chão, não consegue caminhar, vai perder a noção do perigo. Se não tiver os olhos no horizonte, não tem direção, não tem norte. Sem a cabeça nas estrelas, você não inventa nada. Passa a ser uma pessoa absolutamente terrena. De obsolescência rápida. O sonho é tudo. Esta dimensão onírica de uma certa fantasia, de algum lugar imaginário, é o que vale a pena. 

aU: Cite um arquiteto ídolo na época de formação e um arquiteto ídolo nos dias de hoje.

GP: Oscar Niemeyer era o grande ídolo exatamente porque tinha feito a Pampulha, Brasília e por ter a visibilidade internacional que nos batizou como arquitetos brasileiros. Essa noção começa quando Oscar disse “nós temos autonomia”. Eu gostava da arquitetura carioca, aquele sabor de tropical. Em que o modernismo se adaptava como se fosse uma planta nativa à paisagem. Ah, como o modernismo se assentou na organicidade das nossas matas, praias, as questões de clima… Como gostou desta terra! Ele não envelheceu mal. Ele continua. É um velhinho Rock’n’Roll. O Modernismo morreu? Não, ele continua dando brotos absolutamente interessantes, renovados e frescos. A avidez de conhecer nos levava a Mies Van der Rohe, Le Corbusier. Figuras como Kenzo Tange e Tadao Ando não existiam ainda. Mesmo os ibéricos, como o Álvaro Siza Vieira, sequer haviam significado alguma coisa em termos de mundo. As coisas que vinham de Portugal naquela época infelizmente não tinham sentido. Eu fui conhecer o pessoal ibérico, Rafael Moneo, Saez de Oiza, só na década de 1980. Nessa época, eu já tinha feito o projeto da TV Bandeirantes, muito antes de conhecer o Amílcar de Castro. Quando eu o conheci, tive aquela sensação de que “um gambá cheira outro” (risos). Eu não aceitava o pós-modernismo. A minha escola não gostava do decorativismo na arquitetura. Buscávamos o gesto simples. Em Minas, escrever é cortar palavras. Projetar também. Quem faz arquitetura são as palavras, não o ferro e a estrutura. Elas são ditas ao arquiteto por vários agentes, que constroem a espacialidade na nossa imaginação. O universo da terceira dimensão o surge do que nos dizem. Leveza: as toneladas de ferro e tijolo ficam no ar. Aconchego: ela se curva. Claridade: a janela abre larga e o teto sobe. As coisas são baseadas em como acompanhar o discurso, as cintilações dos pensamentos.  As palavras são pontos brilhantes no conjunto do discurso. Estes pontos reunidos e sintetizados, formam a ideia arquitetônica. 

aU: Conte-nos sobre sua trajetória profissional.

GP: Eu nunca fiz estágio em escritório de arquitetura. Minha primeira atitude foi ir para o IPHAN, no escritório de Minas. Aquele estágio foi a coisa mais importante da minha vida. Eu trabalhava no prédio do Ministério da Educação, no Rio, do Le Corbusier. Quem coordenava era simplesmente: Lúcio Costa. Ele ficava entre biombos, separados por portas de vidro fantasia.  A porta dele ficava aberta, a minha sala era exatamente em frente, a cinco metros. Distância de uma bala de revolver. Ele conversava comigo, eu passava na sala dele. Um dia ele me chamou pelo nome, pela primeira vez. Você pode imaginar o que significa um ídolo como aquele me chamar pelo nome? Ele disse “Gustavo, este trabalho, é um pedido do Professor Ivo Porto de Menezes, de Minas, sobre a fazenda do Rio São João. É um exemplo da arquitetura rural do século XVIII”. Era uma obra com pinturas e esculturas atribuídas a Aleijadinho. É uma fazenda-cidade, enorme, que tinha moinhos de água nas usinas internas. Essas construções pavilhonares, com a capela inserida dentro do edifício, o pátio na entrada para parar no entreposto carroças. Fazenda Bom Jesus do Amparo. No dia em que eu fui pela primeira vez à fazenda, eu lembrei o que o mestre Lúcio, estudioso da arquitetura colonial, tinha dito, e chorei. Depois, eu vim para um escritório que montei com colegas, quando ainda estava no segundo ano da escola, e nós reformávamos casas. Ali eu tive uma experiência prática. O fazer sem teoria. 

aU: Descreva cronologicamente suas obras mais icônicas. 

GP: Em 1979, eu fiz a TV Bandeirantes. O arquiteto tem muita coisa que não foi construída. Como a gente vive fora do tempo, tem essa coisa de viver adiantado. Estamos sempre lutando por uma coisa que ainda não existe. Estamos nos deleitando em vivenciar o que ainda não existe. É meio esquizofrênico. Muitas coisas que não foram feitas, são para mim encantadoras. Eu fiz uma igreja, a Paróquia da Ressureição, na divisa entre Copacabana e Ipanema, no rio, junto com um escultor alemão. Ele trabalhava com superfícies de sombra. Desenhava uns Cristos angulosos, captando linhas de sombra no braço, no olho. Fiz a Academia Mineira de Letras, que é uma história de diálogo. A estrutura de aço da Casa do Jornalista. As grandes janelas para o mundo, da Bandeirantes. O Espaço Popular, que era a reunião de gente. Mas, para mim, melhor projeto é o que virá. Mas isso é lugar comum. Para mim o melhor projeto nunca será feito. Você vai passar a vida inteira buscando uma coisa que ainda no último suspiro não conseguiu fazer. 

aU: Qual foi o principal desafio em toda a sua carreira? 

GP: Esta é uma grande pergunta. Do ponto de vista da interpretação de valores e simbolismo é o museu de Congonhas. Do ponto de vista da complexidade, é a Universidade Federal de Itajubá, Campus Itapira. O Mineirão foi de extrema complexidade. O Centro do Sesi/Senai do Futuro, em Brasília, que trabalha com tecnologia disruptiva. Nós trabalhamos cidade, em Governador Valadares, num projeto de 9 milhões de metros quadrados, com um novo jeito de morar no semi-árido, no Vale do Rio Doce. O Museu Maria Regina Mundi, 1744 metros de altitude. Um projeto fascinante, pura metáfora. Eu gosto de trabalhar da “faca só lâmina”, como dizia João Cabral de Melo Neto. Quando você não precisa dizer nada. Se você não disse algo, você desprestigia, desqualifica o valor simbólico. É o sim, não, talvez. Existe arquitetura do sim, que é aquele que arrasa montanha de forma narcísica. A arquitetura do não, você não consegue destacar, descobrir. A do talvez é a mais potente, que aparece quando é preciso e desaparece quando não é preciso. É a capacidade de falar e calar. 

aU: O que é arquitetura do futuro?

GP: Eu sou muito ligado à poesia. A dimensão poética está nos pensadores e artistas que são capazes de descobrir a pureza, a potência de uma ideia que carrega nela um simbolismo e uma força expressiva que consegue vencer o medo. A coisa mais importante para a arquitetura é ultrapassar o tempo e os valores de uma época. É mirar longe. Para dar um salto no futuro é preciso ter visão sensível do passado. É como tomar distância, recuar alguns metros, para saltar. O Memorial da Imigração Japonesa foi exatamente isso. Na metáfora desse salto de travessia. Eu não posso deixar de citar. Arquitetura para mim não é dentro nem fora. É através. Em todos os sentidos, através dos tempos, espaços, valores, ela tem que durar. Não é para ser vista de fora ou por dentro. 

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