A trajetória profissional do engenheiro de produção que transcendeu a área de origem e hoje lidera projetos de educação, inovação, design e sustentabilidade. Por Alexandra Gonsalez. Fotos Acervo Pessoal / Divulgação Insper

A cidade de São Carlos, distante 240 km de São Paulo, é conhecida como a capital da Ciência e Tecnologia. Um levantamento recente feito pela Universidade de São Paulo apontou que o município de 250 mil habitantes tem uma pessoa com título de doutorado a cada 100 moradores — dez vezes mais do que a média nacional. A presença de instituições como a USP e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) contribui para o local ter se transformado em um oásis de mão de obra qualificada nas áreas de TI, inovação, ciências e engenharias.

Foi neste município onde nasceu e cresceu o professor e pesquisador Vinicius Picanço, 31. “Cresci sendo influenciado por esse ambiente movido a projetos de inovação e com uma atividade acadêmica muito intensa.” Com formação original em engenharia de produção pela Universidade Federal de São Carlos, a escolha definiria sua abrangência de interesses profissionais no futuro. “Parecia para mim a especialidade mais genérica dentro das engenharias, algo versátil, que poderia ser aplicado em vários segmentos.” Vinicius, então, se apaixonou pelo core da profissão, que é a área de operações. 

O mundo acadêmico sempre esteve presente em sua vida e continua até hoje — ele leciona no Insper Instituto de Ensino e Pesquisa, em São Paulo, nos programas de graduação e pós-graduação da escola, e é uma das peças-chaves no Centro de Empreendedorismo da instituição. “Aos 17 anos, quando ainda estava no Ensino Médio, comecei a trabalhar em uma ONG dando aulas no cursinho comunitário para alunos de baixa renda e já tinha projetos de difusão de ciência com alguns professores da área de Física da USP.”

Depois da graduação, o engenheiro não abandonou mais o universo do conhecimento. Emendou o mestrado em Pesquisa Operacional, na UFSCar, além de uma especialização no badalado Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, na área de Logística e Gestão da Cadeia de Suprimentos. A etapa acadêmica seguinte o levou para a Dinamarca, onde concluiu, em 2018, o doutorado em engenharia mecânica, com ênfase em design sustentável, pela Technical University of Denmark(DTU). 

“Gosto de unir as áreas de operações e design porque elas têm uma complementariedade muito grande. O design de engenharia é focado em criar coisas novas, seja um produto, serviço ou soluções. E na área de operações, você está preocupado em entregar os produtos e serviços na hora e lugar certos.” Na opinião de Vinicius, nas organizações públicas e privadas essas duas expertises se complementam quase em um movimento contínuo.

Vinicius guiará, no primeiro semestre de 2020, um grupo da Travel Experience do ArqXP em uma viagem à Dinamarca, com visitas ao Clean Cluster e State of Green, polos de inovação do país nórdico.

Questões de um mundo sustentável

O envolvimento de Vinicius em projetos de efeito social não é novidade:  “Atuar como professor de cursinho comunitário me fez perceber a importância e o impacto da educação na vida das pessoas.” Ainda durante a adolescência em São Carlos, o jovem foi voluntário em algumas ONGs da área de educação e meio ambiente. “Desejava orientar toda a minha formação e o conhecimento que eventualmente viria a desenvolver nessas áreas para trabalhar com questões de sustentabilidade, integrando os aspectos sociais e ambientais. Hoje, sigo afunilando esse desejo.” 

A preocupação com a sustentabilidade e as questões sociais começaram a ser trabalhadas durante sua especialização no MIT. “Analisei um conjunto de dados de megalópoles para pensar a resposta operacional a desastres naturais.” Durante o programa, ele estudou como seria aplicar princípios de logística para inteferir em situações de epidemias, desastres naturais ou aqueles feitos pelo homem, como guerras e instabilidades políticas que geram grande número de refugiados. A área é conhecida como logística humanitária. Esse know-how, comenta, costuma ser aplicado mais intensamente em áreas remotas e vulneráveis, como pequenos vilarejos no interior de países sem infraestrutura, no fornecimento de alimento, abrigo e medicamentos.

O profissional conta que enquanto seu mestrado foi focado na área de operações, no doutorado ele resolveu se posicionar firmemente “colocando a sustentabilidade no core”. A escolha pela Dinamarca já foi um posicionamento neste sentido. “É um país que tem uma atuação muito destacada na tecnologia, no desenvolvimento de produtos sustentáveis e no desenvolvimento sustentável de produtos.” 

Circular entre áreas

Para o engenheiro, a necessidade que sente de transitar entre diferentes segmentos do conhecimento é típica dos Millenials, pessoas que têm hoje entre 22 e 37 anos. “Dispomos de mais informações para fazer escolhas de carreira. Sabemos coisas que as gerações anteriores só iriam descobrir depois, na faculdade ou no mercado de trabalho. A internet e a globalização na educação contribuíram para isso.”

O outro ponto que pesou no percurso de Vinicius foi a especialização. Ele pondera que o mundo acadêmico e científico recompensa quem se especializa bastante, mas não foi essa a sua escolha: “Nunca quis mergulhar em uma única área específica e orientar toda a minha carreira em um único tópico. Gosto de olhar as conexões, as interfaces e tomar algumas decisões um pouco mais abertas”.

Por enquanto tem sido uma ótima estratégia a fim de concretizar vários projetos de inovação e sustentabilidade. Um deles é em parceria com a Universidade de São Paulo, onde o engenheiro desenvolve pesquisa de pós-doutorado voltada para a economia circular — um conceito estratégico focado na redução, reutilização, recuperação e reciclagem de materiais e energia. “Estudo a relação entre a adoção de práticas da economia circular e de tecnologias digitais.” 

Segundo o pesquisador, as empresas têm demonstrado muito interesse pelo estudo, que ainda está na fase embrionária. “A maioria das companhias tem dificuldade de entender o que é a economia circular e como aplicá-la em seu processo de produção, independentemente do produto ou serviço que oferecem.” 

Uma das iniciativas que mais chama a atenção e inspira o pesquisador é a Sinctronics, em Sorocaba. “Eles desenvolveram um ecossistema industrial que é um grande exemplo sustentável de economia circular em larga escala. Em resumo, funciona assim: o resíduo gerado em uma planta fabril e os produtos devolvidos após o uso do setor eletroeletrônico alimentam outras plantas da região, e por aí vai, fechando o ciclo produtivo. Há interessados nos segmentos de eletrônicos, máquinas pesadas, consultoria, vestuário, automóveis.”

Inovação para a cadeia de alimentos

Outros dois projetos nos quais está trabalhando, ambos em fase inicial, relacionam-se com a cadeia de alimentos. “Desde junho, faço parte do conselho de uma ONG americana, a The Good Food Institute.” A entidade tem como foco produzir carnes e laticínios com base em plantas, promovendo inovação por meio da biologia sintética e vegetal e da engenharia de tecidos. “Trabalho com o olhar da operação e da inovação, ou seja, pensando em como podemos tornar a distribuição destes alimentos mais sustentável.” 

A outra iniciativa envolvendo o tema abarca seu trabalho no Insper. “Temos um time responsável por repensar a cadeia de alimentos frescos em São Paulo, como hortaliças, verduras e frutas para regiões remotas.” O objetivo é entender como se pode fazer entregas otimizadas em regiões vulneráveis e de difícil acesso. O time usa um conceito chamado pelos norte-americanos de “desertos alimentares”. “Isso acontece quando alimentos frescos não chegam até uma região, ou chegam com preços muito altos, o que obriga aquela população a se alimentar com produtos industrializados e pouco saudáveis.”

Ambas as pesquisas vão ao encontro dos anseios de seus alunos, a geração nascida a partir de 1997 — os pós-Millenial, ou Geração Z. “Os estudantes estão engajados com questões relacionadas à sustentabilidade e inovação.” Agora, além de recompensa financeira, eles almejam para a carreira um propósito de vida. “Oriento os estudantes apontando caminhos e empresas que estão mais alinhados a essas questões.”

Vinicius conta que nas aulas de empreendedorismo, a principal inquietação dos estudantes é saber como podem causar impacto positivo na sociedade. O professor garante que uma carreira corporativa já não atrai os alunos como há 10 anos. “Muitos têm uma visão romantizada das empresas, até que chegam lá e descobrem que muito do que é falado não é praticado.” 

Sem uma forte educação de base é quase impossível inovar

Com uma vivência de estudos e trabalho no exterior, o pesquisador acredita que o Brasil tem muitos recursos, material e humano, mas precisa vencer algumas barreiras para se colocar, no quesito inovação, diante de outras nações, como Japão, Alemanha, Estados Unidos e China. “É muito difícil inovar sem visão de longo prazo e sem uma educação básica de qualidade.”

Para Vinicius, a Coreia do Sul é um grande exemplo disso. “Os países que se desenvolveram tecnologicamente nas últimas décadas fizeram investimentos na base educacional.” O pesquisador diz que o Brasil tem várias grandes áreas que lhe permitiriam posição ainda mais privilegiada em um contexto global de inovação, mas é preciso investir. “Se é que existe uma receita para o sucesso do desenvolvimento de inovação, ela passa obrigatoriamente pelo fortalecimento da educação.” 

De acordo com o professor, nenhum país escapou dostatus de renda baixa para desenvolvido sem ter feito um investimento muito estruturado e consciente em educação – “algo que fundamentalmente vai alimentar as atividades de ciências e tecnologia”. Se por um lado faltam políticas públicas, a boa notícia é que há investidores estrangeiros de olho no talento nato dos brasileiros. “A tecnologia é o menor dos nossos problemas”, diz. A questão é saber como as pessoas vão receber essa inovação, de que maneira será aplicada. “Em toda uma camada social, que chamamos de sistema sociotécnico, reside o desafio para o processo funcionar como sociedade”.

Apesar de todos os obstáculos, Vinicius observa com entusiasmo muitas conquistas do país, como o trabalho realizado em importantes núcleos de inovação: o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), em Pernambuco; a Fundação Certi, em Santa Catarina; e o Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), em Minas Gerais. “Isso sem falar na cena brasileira de startups, com grandes cases acontecendo a cada dia e novos aportes chegando. Recentemente conseguimos a 10ª empresa unicórnio (startups com valor de mercado superior a 1 bilhão de dólares), a primeira vinda da região Sul do país”. Para ele, esses são exemplos de que o Brasil tem potencial para escolher as áreas nas quais quer ser líder. 

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