O artista e o executivo, não necessariamente nesta ordem. O trocadilho com o título de uma de suas primeiras e mais emblemáticas obras, “O caçador e o executivo”, da década de 1980, mostra a dupla e marcante personalidade de René Agostinho. Sua obra pragmática e expressiva revela visão frenética e precisa de uma jornada intensa no universo da criação.

Uma profusão de nuances, recortes precisos, e fluidez. O caleidoscópio de ideias presente em cada composição de René Agostinho surpreende. A interpretação depende do estado de espírito do observador. Os sentimentos despertados pela arte surrealista — numa releitura e contextualização pragmática do movimento ao século XXI — variam a cada (re)visita a uma mesma obra.

A lógica ortodoxa da narrativa visual, geralmente se dá por uma sequência de imagens cadenciadas que, juntas, resultam numa história contada. Seguindo um modelo hollywoodiano à Robert McKee, tem começo, ápice e desfecho. Apresenta herói e anti-herói. A obra de Agostinho parece subverter a lógica da própria geração da narrativa. Reúne no mesmo campo um conjunto de intenções que parecem brotar de diferentes fontes, numa bela analogia ao rizoma do filósofo Gilles Deleuze. Conectadas por memórias, reflexões e intuições, as cenas reunidas suscitam uma série de possíveis leituras. E esse é, sem sombra de dúvidas, o aspecto mais surpreendente da produção de Agostinho.

A obsessão inicial pelo hiper-realismo, segundo o artista, deu aos poucos lugar a experimentos ousados e livres. E nesse caminho de busca de referencias e fuga de uma reprodução literal de registros fotográficos, a liberdade do traço dos quadrinhos serviu de inspiração. A referência de traço marcou de forma definitiva o resultado formal da produção do artista. Mas o aspecto inerente ao nicho de quadrinistas é exatamente o foco na ação e nos sentimentos do personagem principal, acompanhado de coadjuvantes sutil e criteriosamente escolhidos para a composição do roteiro. Esse protagonista tem presença clara na obra de Agostinho.

Para uma análise acurada das obras do publicitário-artista, recomenda-se a técnica da parte pelo todo, em que fragmentos ou excertos das composições são analisados de maneira individual e, posteriormente, conectados ao conjunto. A obra Ana Júlia, da série Irmandade, é exemplo claro de adequação da estratégia da fragmentação para esta análise: começo e recomeço juntos estão presentes por meio da representação da fênix, cujo traço e representação cromáticos são dignos de nota. Mas a riqueza dos detalhes, percebidos apenas aos mais ávidos por descobertas, se revelam, por exemplo, na textura da “mão de Deus” que parece surgir da nébula que emana da protagonista.

A visão soturna representada por Agostinho se faz notável em cada movimento das composições. Sinédoques visuais são recorrentes e tentar identificá-las é prazeroso e desafiador.

Confira abaixo uma entrevista exclusiva com o artista René Agostinho. Para conhecer a expressiva produção do autor, acesse: www.reneagostinho.com

Sua produção aconteceu de forma espontânea desde a infância. Fale sobre a influência dos quadrinhos em sua linguagem de representação.

René: Comecei pelo desenho e não pela pintura e esse caminho demanda um certo comprometimento da imagem com a realidade. Inicialmente, eu era obcecado por hiper-realismo, mas aos poucos entendi que reproduzir uma fotografia não era o tipo de arte que eu queria produzir. Comecei então a tatear, experimentar, buscando o meu traço. Nessa época totalmente analógica, meu universo de imaginação era povoado pelos quadrinhos de super-heróis, que traziam uma narrativa concreta dentro de um universo mítico com personagens com proporções irreais, crises existenciais e tramas que se entrelaçavam com as pessoas comuns. Esse emaranhado de tramas e acontecimentos simultâneos está presente no meu trabalho desde o início da minha produção. Outra característica forte nas composições é a existência de um protagonista, que remete à narrativa dos quadrinhos.

O caçador e o executivo
Talvez um dos trabalhos mais importantes de sua carreira, pois reflete a angústia do artista nos caminhos a seguir pela vida. Esta obra foi criada em meados dos anos 80, um momento crítico no Brasil após a ditadura militar com uma hiperinflação e muitas dúvidas sobre o futuro. Aquarela, e caneta nanquim

Seus trabalhos são marcados por uma narrativa visual surrealista em muitos aspectos. Fale sobre este viés de representação.

René: Minha arte é automática. Eu não consigo planejar toda a peça. Geralmente, sei qual será a imagem central e o contexto. Os demais elementos vão surgindo organicamente. Essas conexões se somam e produzem o resultado final, na tela ou no papel. Na verdade, eu me descobri “surrealista” quando estudei arte moderna, suas escolas e o mecanismo de criação de cada uma delas. Quando entendi o que era criação automática na pintura e literatura, ficou claro o que acontecia comigo. Durante minha formação, fiz diversos exercícios de escolas e gêneros diferentes. Tudo isso serviu como ferramenta para compor o espaço pictórico das minhas obras. Não quero com isso dar qualquer aspecto mágico ou divino para minha arte. Qualquer forma de expressão artística se consegue como tudo na vida: estudo, muito treino, pratica, apuro técnico, consistência e resiliência. Não conheço outro caminho.

De que maneira o modernismo português influencia sua linguagem representativa?

René: Eu sempre me preocupei em entender minhas origens. Basicamente sou descendente de índios, provavelmente da etnia Terena, e de Portugueses, cidadania que adquiri há alguns anos. Me senti na obrigação de pesquisar e conhecer os modernistas portugueses e me deparei com artistas fantásticos, como Amadeo de Souza Cardoso, Paula Rego com suas personagens fortes e cores soturnas, sem esquecer Almada Negreiros, e claro, Nadir Afonso. A produção modernista de Portugal é riquíssima, mas se deu num país pequeno e até então periférico e foi pouco considerada pelos próprios portugueses durante muitos anos. Descobrir estes artistas fantásticos foi muito importante para entender meus próprios caminhos, e foi também uma maneira de obter influências além dos grandes nomes da pintura.

Antes de migrar para o mercado publicitário estratégico e de gestão, você atuou em equipes de criação. Este período de alguma forma influencia em seu processo de concepção?

René: Minha passagem pela propaganda serviu para me mostrar que o caminho que parece lógico nem sempre é o melhor. Parecia que a criação em propaganda seria um caminho óbvio para quem tinha aptidão artística, técnica e criatividade, mas na verdade descobri que não era isso que desejava fazer da minha vida. A Propaganda demanda uma criatividade pragmática, endereçada especificamente a um produto ou serviço e percebi rapidamente que eu não estava disposto fazê-la. Por outro lado, me encontrei no meio editorial, onde sempre estive ligado à cultura. Trabalhei muitos anos na Editora Abril, a maior editora de revistas do Brasil, e além de vários títulos de revistas, tive a oportunidade de atuar em áreas como entretenimento, livros, internet e até brinquedos. Essa multiplicidade de experiências teve uma grande influência na minha visão de mundo e consequentemente na minha arte.

Falando sobre este aspecto, quais são as principais etapas de seu processo criativo? De que maneira você planeja o resultado final de suas composições?

René: Eu começo encubando uma ideia, um insight que pode ter vindo de uma conversa casual, um filme, uma foto, um livro, qualquer coisa. Depois faço pesquisas de imagem, busco referências, estudo o contexto no qual a personagem estará inserida e parto para o esboço onde sempre começo pelo protagonista. Gosto de compor diversas narrativas ao mesmo tempo, como se fosse um momento da vida congelado. Busco retratar várias coisas acontecendo ao mesmo tempo, muito além do primeiro olhar. É como se fosse um alerta para o observador: preste atenção à sua volta. Nesse sentido, muitas vezes, o protagonista pode ter sua relevância diminuída durante o processo criativo da obra. A ideia é remeter à vida em si: nós nos vemos como protagonistas de nossas vidas, mas nossa história, alegrias e tristezas, se perdem dentro de uma narrativa maior. Somos muito menos importantes do que imaginamos.

Série Irmandade, 2 de 4: Cesar
Este é Cesar, um dos gêmeos. (técnica mista sobre papel 300grs 594 x 420) mm

Sua arte é analógica, no sentido do traço propriamente dito. Fale sobre suas técnicas de desenho, cor e acabamento.

René: Minha origem é no desenho, no traço, no figurativo e no detalhe que o desenho proporciona, mas é no jogo de cor e sombra da pintura que me divirto. Gosto de combinar os dois, o desenho me ajuda muito nos estudos que faço de um determinado personagem, na composição inicial da cena e na perspectiva que vou adotar. Depois a tinta vem por cima em diversas camadas e o traço se perde. Durante esse processo de camadas é que a composição pode mudar totalmente do previsto no esboço. Pessoalmente gosto muito de tintas à base de água como aquarela e guache. Sou seduzido pela fluidez, transparências e a possibilidade de trabalhar com diversas camadas que se misturam e permitem nuances de cor. Gosto de trabalhar com grandes massas de água, e deixar com que ela encontre seu caminho na obra. Sem dúvida, a técnica é fundamental, mas abrir mão do controle total faz parte do meu processo produtivo. Ao final, volto ao desenho, mas com o pincel, para finalizar o acabamento.

De alguma forma, este processo artesanal de composição se contrapõe à sua trajetória corporativa, sendo inclusive investidor em empresas do ramo da tecnologia. Diante desse aparente paradoxo, fale sobre seus sentimentos durante o desenvolvimento do trabalho artístico.

René: Esse é um assunto sobre o qual gosto de falar. Durante um tempo, me perdi na frustração de achar que fazia algo que não deveria estar fazendo e me via obrigado a seguir um caminho que não desejava, mas necessário se quisesse sobreviver de forma independente. Naquela época, era praticamente impensável viver de arte se você não tivesse uma família rica por trás. Venho de uma família típica da nova classe média, que surgiu com o “milagre econômico” dos anos 1970, durante a ditadura militar. Me formei em meados dos anos 1980, e iniciar a carreira num país de terceiro mundo, recém saído da ditadura e com uma inflação de mais de 80% ao mês, era muito frustrante. No início da minha carreira executiva, eu abri mão das aspirações artísticas. Isso foi muito difícil para mim. Entretanto, descobri que podia ser bom no que fazia e aprendi a ter prazer nesse trabalho, no convívio com pessoas interessantes e inteligentes e num ambiente desafiador e criativo. Ser editor e depois tornar-me executivo em postos de comando deu vazão ao meu lado racional e estratégico, que hoje é tão importante quanto meu lado artístico. Adquiri um olhar pragmático que me ajuda nas questões concretas da carreira como artista e permite um distanciamento para que eu possa olhar a arte também do lado de negócio. Fiz uma segmentação do mercado, identificando “clusters artísticos”. Procurei descobrir de que maneira cada ecossistema gera valor, onde os veículos especializados se encaixam. Nesse momento, estou destrinchando as principais comunidades virtuais que possuem centenas de milhares de seguidores, sua abrangência geográfica, dados demográficos e etc. Desenvolvi a habilidade de estar sempre com o radar ligado, captando e filtrando o que pode ser interessante. A vida executiva é parte fundamental do que sou e flui tão naturalmente quanto a artística.

Sob uma aspecto de narrativa visual, suas produções despertam no observador uma série de interpretações. Quais são suas fontes de inspiração? De que maneira traduz sentimentos, intenções e mensagens graficamente?

René: Eu afirmo com frequência que na minha arte vale unicamente o ponto de vista de cada observador. Eu acredito que cada um tem sua jornada pessoal e o conjunto dessas experiências é que leva à identificação (ou não) com minha arte. No final das contas, estou pitando para mim mesmo e espero, humildemente, encontrar outros olhares que também se identifiquem com o que está retratado, mas com própria interpretação. Sou um observador pessimista da trajetória humana, de como o “bicho homem” é o único animal que caça por prazer, que pode matar a companheira e sua cria, que destrói o próprio habitat, cria guerras dizimando seres da própria espécie e tem a capacidade distorcer os fatos para justificar seus atos. Sinceramente, me parece uma existência sem sentido, e meus trabalhos retratam essa visão soturna.

Série A Irmandade, 4 de 4: Maria Clara
Esta série é composta por 4 obras, representando minhas quatro crianças, Ana Julia, 30 anos, Pedro e Cesar, 24 e Maria Clara, 4. Todas elas são representadas com quase a mesma idade, criando um encontro impossível. O processo criativo me levou a revisitar minha vida de uma maneira leve e alegre. Os trabalhos fluíram um após o outro, e cada criança é representada numa paisagem. Ao escolher as pessoas mais preciosas da minha vida, proponho discutir o divino e a ambiguidade de nossa breve existência. (Aquarela sobre papel prensado a frio, 300grs, 594 x 420 mm)

Fale sobre a obra “O caçador e o executivo”. De que maneira a angústia retratada em meados dos anos 1980 é semelhante ao sentimento desses dois personagens hoje, em 2020? O que mudou e o que permanece igual no artista René Agostinho naquele período e atualmente?

René: Essa obra é muito importante para mim. Ela é antiga e do ponto de vista técnico não me agrada, mas ela retrata a dimensão da angústia que eu sentia. Eu a fiz em meados dos anos 80, quando eu me formava e já estagiava numa agência de propaganda e percebia que o mundo não seria, nem de longe, o que eu havia imaginado. Nada parecia promissor nessa época. A inflação estava nas alturas, vivíamos a década perdida, os governos civis estavam batendo cabeça e eu tinha que decidir o que seria da minha vida: seguir meu sonho ou me “render” ao status quo da época? Tudo muito complicado para um rapaz de vinte e poucos anos. Escolhi essa obra para figurar na homepage do meu site pela força e o significado que possui para mim. Esse é o único trabalho autobiográfico que fiz. Estou iniciando um novo trabalho onde revisito essa obra, quero ver como o caçador e o executivo ficaram depois de tantos anos. Ainda não sei o que viraram.

Aproveitando o gancho da passagem do tempo, fale sobre a Série Irmandade. Porque promover este encontro “impossível” entre seus 4 filhos?

René: Essa série nasceu do desejo de retratar meu filhos. Ser pai é para mim a coisa mais importante da vida. Há 4 anos, tive a felicidade de assistir o nascimento da minha caçula. Retomar a paternidade depois de acompanhar a trajetória de 3 filhos mais velhos, criados e totalmente independentes, foi muito impactante e gratificante. Naturalmente, comecei a rever minha trajetória com meus primeiros filhos e as lembranças pipocavam em minha mente. Foi quando decidi fazer a série retratando-os com quase a mesma idade. Foi uma tentativa de aprisionar um momento que somente existe na minha lembrança. Basicamente esse era o conceito que estava em minha cabeça. Comecei pelo Pedro e, como sempre, deparei-me com o papel em branco e com o rosto do meu filho retratado no canto superior direito. A composição foi fluindo aos poucos e, quando terminei, lá estava novamente minha visão soturna sobre a condição humana. Ao terminar o do Pedro, resolvi colocar cada criança num determinado ambiente. César está num ambiente urbano, meio cyber-punk. Ana Julia, a mais velha, está retratada no espaço profundo e ela se confunde com a representação da nébula “Pilares da Criação” e da ave fênix. Começo e recomeço juntos. A última foi a Maria Clara, a única criança do grupo cuja indicação está na representação de um parquinho onde ela costuma brincar. Ela está retratada no fundo do mar, com o céu escuro do espaço sem oxigênio e que reflete luzes que não existem. Ao fazer o trabalho da Ana Julia, decidi que todos teriam o mesmo fio condutor — o espaço sideral, o frio, o escuro, a falta de oxigênio e de vida — e tive que mudar o fundo dos dois primeiros, que foram recortados e colocados em uma nova base. Ao observar os quatro trabalhos juntos, percebi que havia usado a imagem do que me é mais importante e caro para representar a pequenez da existência humana diante de forças perenes, ao contrário da breve vida humana.

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