Arquitetura transforma…

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…e se deixa transformar. É com a premissa de mão dupla que Erika Mello e Renato Andrade acumularam experiências como docentes e profissionais do mercado para conduzir um jeito inovador de criar espaços. Confira o bate-papo com os sócios do Andrade & Mello Arquitetura. Por Gustavo Curcio

Erika Mello e Renato Andrade são sócios fundadores da Andrade & Mello Arquitetura. Desde a época da faculdade, quando iniciaram os primeiros traços juntos, estabeleceram uma relação com a arquitetura muito mais ampla do que a estritamente profissionalizante. “Percebemos cedo que as relações produzidas formam uma trama muito mais complexa. Trocando em miúdos, acreditamos na arquitetura que tem como foco principal as relações entre o espaço e quem fará uso dele, que contemple o funcional e o belo, de forma leve e simples”, contam. Eles acreditam numa via de mão dupla, onde a arquitetura transforma e se deixa transformar. Esta hipótese se confirmou com os primeiros clientes do escritório, e tem sido assim durante a profícua trajetória.

Em 12 anos, entregaram mais de 100 projetos. Erika tem formação técnica em Design de Interiores e superior em Arquitetura, atuou na área de desenvolvimento de produtos de uma empresa do ramo de móveis corporativos. Como coordenadora de arquitetura em uma empresa multinacional, desenvolvia projetos corporativos, além de gerenciar processos relacionados a obras novas e revitalização de 16 filiais espalhadas pelo Brasil. É professora titular do Centro Paula Souza de ensino tecnológico, leciona disciplinas de projeto e informática aplicada à construção. Renato Andrade é arquiteto e atuou na prefeitura de São Paulo durante 11 anos. À época como coordenador de planejamento da cidade, gerenciou escritórios em projetos de Unidades Habitacionais e Parques para a cidade. É professor titular do Centro Paula Souza de ensino tecnológico, leciona disciplinas de projeto e planejamento. Confira a conversa exclusiva com os profissionais.

Vocês lecionam no Centro Paula Souza, em curso de formação de técnicos em edificações. Em que medida acreditam que ferramentas digitais (softwares de modelagem, desenho, etc.) auxiliam ou atrapalham no processo criativo? Quando são aliados e quando são obstáculos no processo de projeto?

Nossa experiência no Centro se resume, por enquanto, aos softwares 2d. A parte criativa, dentro do conceito formativo, não é prioritária. São cursos de 18 meses e o foco é a técnica para desenvolver ou desenhar algo; talvez por isso seja menos desastroso o fato de não trabalharmos com modelagens e 3D ainda. Mas é importante ressaltar que o mercado também precisa consolidar e ampliar a utilização do BIM. Não é ainda uma prioridade no Brasil. Acreditamos que seja questão de tempo, o processo de aprendizagem ganhará força e o mercado recepcionará melhor nossos alunos.

Renato atuou na prefeitura coordenando projetos de unidades habitacionais e parques para a cidade. Qual é a chave para vencermos o déficit habitacional no Brasil e, mais especificamente, em cidades metropolitanas como São Paulo?

Eu, Renato, trabalhei por 12 anos na prefeitura, 4 deles atuando como coordenador de planejamento de uma subprefeitura no extremo noroeste de São Paulo. Na ocasião, tive a oportunidade de trabalhar com grandes arquitetos e planejadores urbanos, Cândido Malta, Benedito Abbud, Marcelo Ferraz, Francisco Fanutti, também Bete França na Secretaria Municipal de Habitação (SEHAB). Muita gente interessante, um time incrível e, consequentemente, os projetos são incríveis também, sem falsa modéstia. Nenhum dos projetos que desenvolvemos a época foi adiante depois das eleições municipais. O novo prefeito abandonou todo o investimento que fizemos na ocasião. Atualmente não tenho notícias mais atualizadas sobre os projetos. Sobre a questão habitacional em São Paulo e no Brasil, definitivamente não é um problema simples de ser sanado, o déficit só cresce, dia a dia! Mas falta empenho e governança para encarar o problema.

São Paulo tem carência de áreas verdes e espaços livres e de uso comum, principalmente nas periferias da cidade. De que maneira é possível equipar os distritos mais distantes do centro e desprovidos de infraestrutura de lazer com espaços eficientes nesse sentido? Parcerias público-privadas são um caminho?

Há sempre uma dúvida no gestor quando o assunto é a ampliação de áreas verdes. Isso porque o desgaste político, gerado pelas desapropriações ou reintegração de posse das áreas públicas, ocupadas irregularmente, tem força e gera desconforto. É preciso foco e coragem e, infelizmente, não achamos que seja uma característica dos nossos representantes. Em Perus, por exemplo, a necessidade de implantação do Parque Linear Ribeirão Perus apareceu ainda durante os estudos para o PDE (Plano Diretor Estratégico). Com mais de 1 milhão de metros quadrados, além de proporcionar espaços de convívio e lazer, desaceleraria as águas do córrego e evitaria enchentes no centro do distrito. Muitas pessoas seriam beneficiadas, mas algumas tiveram que ser desapropriadas para viabilizar a futura implantação. Em geral, é nesta fase que os projetos perdem corpo até serem engavetados e depois abandonados. Juntar os setores público e privado para a realização conjunta de determinado serviço ou obra de interesse da população nos parece uma alternativa bastante adequada. Lançar mão desse modelo de parceria proporciona benefícios para o usuário final, na nossa opinião. Contudo, é preciso entender de qual forma será feita a exploração destes espaços pelo sujeito privado, realizar audiências públicas para inserir a população local na discussão é fulcral.

Quais são os principais desafios que seus alunos encontram ao terminar o curso? De que maneira tentam prepará-los para vencer essas barreiras?

É extremamente plural os atributos dos alunos em uma sala de aula de um curso técnico estadual. Temos desde senhores que desempenharam função de pedreiro durante boa parte da vida, até adolescentes de 17 anos querendo descobrir um caminho para o futuro. Em geral, o Técnico em Edificações tem área vasta de atuação e, salvo em épocas de crise, não chega a ser representativo o estoque de profissionais aguardando vaga de emprego. Construtoras, laboratórios e até escritórios costumam ter este profissional em seus quadros. Mas entendemos que se encontrar dentro da carreira não é fácil. O que fazer com esta formação? Empreender? Faculdade? Este é o principal desafio para eles; inclusive porque muitos são responsáveis pelo sustento de suas famílias e tem medo de experimentarem novas possibilidades. Cabe a nós aproximá-los da realidade durante o processo de aprendizagem, isso capacita e dá segurança. Também cabe a nós apoiá-los nas suas escolhas e sermos disponíveis.

Matéria publicada originalmente na revista aU.

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