A vergonha da ignorância por vezes nos presenteia com descobertas arrebatadoras. Confesso que, mesmo imersa no universo da cerâmica desde 2016, mesmo tendo visitado museus internacionais renomados como o Museu Internacional de Cerâmica de Faenza e o Victoria & Albert, eu desconhecia por completo a obra de Francisco Brennand. Um artista que, ao me revelar, deixou-me absolutamente pasma.
Decidi então uma viagem bate-volta, sem pesquisas prévias. Fui às cegas, esperando encontrar in loco o material que saciaria minha curiosidade. Havia apenas um livro à venda, alguns panfletos, nenhuma visita guiada. Mas nada disso diminuiu meu encantamento com o que encontrei.
A história começa com uma família abastada, de sobrenome inglês, proprietária de diversos negócios, entre eles a Cerâmica São João, hoje sede da oficina de Brennand. Um lugar que, quando ele decidiu retornar, estava em ruínas, cercado por mata degradada, distante, conectado apenas por uma pequena ponte de ferro à propriedade de seu primo Ricardo.
O fascínio de Brennand pela argila como meio de expressão artística só despertou após visitar uma exposição de cerâmicas de Picasso. Este foi seu ponto de autorização interna para transformar o antigo espaço industrial em sua oficina-santuário. Os fornos a óleo foram restaurados, a argila vinha do Piauí, vitrais coloridos foram instalados, criando ambientes que lembram catedrais.
A grandiosidade do projeto é o que mais me comoveu. Ao ler trechos de seus diários, percebemos a dor, a solidão e o sonho tão pungentes, com a arte gritando por meio dele. “A sua imediata obrigação era o sonho”, escreveu para si mesmo.
Sua obra tem uma densidade inigualável. Não se trata de uma única linguagem, mas de uma multiplicidade aparentemente inesgotável. A reunião de símbolos e signos que ele realiza é inédita: elementos da natureza, símbolos religiosos tanto do candomblé quanto de outras tradições, integração com o cosmos como um imenso ciclo. Há desfigurações de formas, ora humanas, ora animais, que nos instigam a ver essa unicidade, esse ciclo onde tudo se transforma.
É um universo mágico, porém plausível. Com obras ao mesmo tempo enraizadas em Pernambuco e universais. Sensualidade e erotismo pulsam em suas criações – o homem vibrava vida. É impressionante seu vigor, força realizadora e, sobretudo, sua liberdade e permissão interna para criar sem amarras.
A experiência deixou-me com imensa vontade de mergulhar mais fundo nesse universo, de revisitar suas obras, de decifrar seus símbolos. De contemplar cada peça após entender melhor seus significados. Brennand é um artista de verdade, muito além do nosso tempo e compreensão.
Esta jornada me fez refletir sobre nossa pequenez e insignificância, mas também sobre a imensa beleza da vida e o papel fundamental da arte para que prossigamos com dignidade e fé. Talvez a arte seja tão importante quanto a própria religião para muitos de nós – uma ideia que posso estar explorando com algum exagero, mas que hoje ecoa fortemente em mim.

Lilian Malta. Bióloga de formação, encontrou na cerâmica sua expressão artística. Apaixonada pela natureza, lançou sua marca em julho de 2023. Cada peça, feita à mão e à alma, traduz sua inquietude criativa.