Terca-Feira, 07 de Dezembro de 2021

“A tensão” de Leandro Erlich

O Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte (CCBB) apresenta a exposição do argentino Leandro Erlich que tenciona o real e o ilusório em obras que se utilizam do espaço e da arquitetura. Texto: Divulgação. Fotos: Guyot/Ortiz

Um conjunto de 19 obras tem mexido com a forma como vemos o prédio do CCBB: barco e elevador flutuantes, janelas para jardins imaginários e até uma piscina em que o visitante pode entrar de roupa e ficar submerso sem medo de se afogar fazem parte da mostra de um dos nomes mais provocativos e populares da arte contemporânea, o argentino Leandro Erlich.

A exposição que chegou ao Brasil tem um nome bastante explícito, “A tensão” (e sonoramente ambíguo: quem não lê pode ouvir “atenção”), revelador de um dos prováveis sentimentos que os visitantes sentirão diante das instalações do artista. Isso porque Erlich trabalha com referências que são, literalmente, “lugares-comuns”, espaços que estamos acostumados a ver no dia a dia, mas deslocados da condição de normalidade. Como afirma o curador da exposição, Marcello Dantas, “a obra de Leandro Erlich é estruturada no mecanismo da dúvida. O que nossos olhos veem está em desacordo com o que nossa mente conhece”, sintetiza.

Leandro Erlich, nascido em 1973 e produzindo suas obras em seus ateliês em Buenos Aires e Montevidéu, está, assim, constantemente rompendo as fronteiras que normalmente acreditamos existir entre a realidade e a ilusão. Em entrevista ao jornal argentino Clarín, o artista explicou seu projeto: “Estou interessado principalmente em transformar elementos que as pessoas acreditam que não podem ser transformados, que não podem ser diferentes. Trata-se de uma utopia de apresentar a possibilidade de transformar o que existe em uma outra coisa, e essa ação nos convida a imaginar a realidade de uma maneira diferente”.

Uma das mais bem sucedidas experiências nesse sentido – que se tornou uma de suas obras mais populares e desconcertantes – é “Swimming Pool”, que está instalada no pátio do CCBB Belo Horizonte. Atração onde quer que seja exposta, a piscina de Erlich provoca sensações absurdas tanto por quem entra nela – sem se molhar – quanto para quem está do lado de fora: uma camada de água entre um lado e outro cria a ilusão de que as pessoas ao fundo estão de fato mergulhadas numa piscina em que não precisam respirar.

Outra obra desconcertante e grande destaque entre as instalações de Erlich presente na exposição de Belo Horizonte é “Classroom”. Nela, quando o visitante adentra na sala, sua imagem é refletida num vidro, como se ele fizesse parte de uma cena diferente. Nessa cena, o visitante se parece com uma espécie de fantasma, como se estivesse numa sala de aula abandonada – as memórias de infância se projetam para um cenário de crise e de abandono.

Em diferentes trabalhos, Erlich recorre à ideia de recorte visual sugerida pelas janelas. Um desses trabalhos, que será exposto no Brasil, se chama, justamente, “Blind Window”. “O que guarda a memória? Nosso cérebro ou nossos olhos?”, perguntou o artista, de forma retórica, durante uma entrevista no Japão. “Gosto da ideia de pensar que o olho, ou o vidro, também são capazes de guardar histórias”. É justamente essa a proposta dele ao fixar paisagens, situações imaginárias e inusitadas, em objetos arquitetônicos ou decorativos, como uma janela ou um falso espelho num elevador.

Erlich participou de algumas grandes exposições no Brasil. Em 1997, integrou o rol de artistas que estiveram na 1ª Bienal do Mercosul e, em 2004, figurou entre os nomes da 26ª Bienal de São Paulo. Em 2001, representou a Argentina na 49ª Bienal de Veneza, onde voltou a estar em 2005. O Artista esteve em dezenas de grandes exposições coletivas, e realizou muitas outras individuais pelo mundo: New York, Barcelona, Londres, Seul, Paris, Buenos Aires.

Ao deslocar o conhecimento prévio do espectador daquilo que poderíamos chamar, agora recorrendo a um lugar-comum da linguagem, de “zona de conforto”, Erlich coloca o expectador necessariamente em confronto com o que dizia sua experiência sobre dada situação, exigindo “um engajamento e uma atenção participativa para desvendar cada obra”, explica o curador Marcello Dantas: “cada situação só se materializa com a presença do público, em que a obra abre um espaço de acontecimento. O título da exposição já conclama essa dúvida: pede-se atenção ao mesmo tempo em que carrega em si o mistério provocado pela tensão que existe no espaço vazio antes da participação”, completa.

Montar uma exposição de Leandro Erlich não é tarefa simples. Ao trabalhar com peças grandes e instalações que exigem adaptações específicas para os espaços expositivos, e que rompem com a lógica cotidiana da arquitetura e do urbanismo, parte das as obras de Erlich exige uma montagem prévia, que está sendo feita em galpões no próprio Brasil, antes de serem levadas ao CCBB.

“Vamos proporcionar ao nosso público a oportunidade de viver uma experiência cultural única, com todo o cuidado e a segurança que o momento requer. Nosso espaço foi adaptado aos protocolos sanitários, e construímos novas alternativas para continuarmos a oferecer às pessoas a oportunidade de visitar, gratuitamente, acervos e exposições nacionais e internacionais,” afirma a Gerente Geral do Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte, Gislane Tanaka.

Desse modo, a tensão provocada pelo artista é resultado não apenas de uma percepção aguda das possibilidades visuais de uma dada situação, mas também de uma preocupação com o próprio espaço que abriga as mostras, que se tornam, desse modo, únicas. A percepção da piscina em Belo Horizonte, num prédio histórico, será bastante diferente da provocada pela instalação no Malba, de Buenos Aires, por exemplo, um prédio bem mais moderno.

Serviço

Exposição: “A tensão”

Artista: Leandro Erlich (1973-)

Onde: circuito Centro Cultural Banco do Brasil

·   Belo Horizonte, de 15.09 a 22.11.2021

·   Rio de Janeiro, de 05.01.2022 a 07.03.2022

·   São Paulo, de 13.04.2022 a 20.06.2022

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