Vivemos rodeados por objetos. Alguns passam despercebidos no nosso cotidiano, enquanto outros guardam significados profundos e despertam sensações que transcendem sua função. Esses objetos carregam histórias, vínculos emocionais e fragmentos de nossa identidade – são, na essência, portadores de memória afetiva.
A memória afetiva é construída a partir de experiências sensoriais e emocionais marcantes. Quando associamos um objeto a um momento especial, a uma pessoa querida ou a uma fase significativa da vida, ele se transforma em algo que vai muito além da estética ou da utilidade. Ele passa a ser um elo entre o presente e o passado.
Como arquiteta e urbanista, aprendi que projetar espaços não é apenas organizar volumes ou definir acabamentos. É também criar cenários onde a vida acontece, e onde objetos carregados de afeto podem ocupar o lugar de protagonistas. Um vaso herdado da avó, uma cadeira da infância, um brinquedo antigo ou um quadro feito à mão: todos eles ajudam a contar a história de quem somos.
Nos ambientes que projetamos na Meneghisso & Pasquotto Arquitetura, sempre buscamos abrir espaço para essas peças que têm alma. Elas aquecem o lar, despertam emoções e trazem um senso de pertencimento difícil de descrever. O design, nesse contexto, deve ser sensível, respeitoso e acolhedor — permitindo que o morador veja suas memórias refletidas nos detalhes da casa.

Não é raro que, ao entrar em uma residência nova, o cliente leve consigo apenas alguns poucos objetos. Mas, ao falarmos sobre eles, descubro narrativas preciosas: a mesinha de cabeceira feita pelo pai, a manta de crochê da infância, os pratos que pertenceram à mãe. Esses itens são como pequenos guardiões da história familiar.
As crianças, inclusive, desenvolvem vínculos muito fortes com seus objetos. Um travesseiro, um brinquedo ou até uma camiseta favorita podem representar segurança, rotina e identidade. Preservar esses elementos nos espaços infantis é uma maneira de reforçar a sensação de acolhimento e de continuidade emocional.
Em projetos corporativos ou comerciais, também é possível incorporar elementos com valor afetivo. Uma empresa familiar pode resgatar móveis antigos, objetos de fundadores ou detalhes arquitetônicos do primeiro endereço. Isso humaniza o espaço, inspira confiança e conecta os colaboradores à cultura da organização.
A neuroarquitetura nos ensina que nossas emoções são moldadas, em grande parte, pelo ambiente ao nosso redor. E objetos com memória afetiva ativam regiões do cérebro ligadas à lembrança, ao conforto emocional e até à sensação de segurança. Eles são estímulos positivos, capazes de reduzir o estresse e aumentar o bem-estar.
Também gosto de pensar na sustentabilidade emocional que esses objetos carregam. Em um mundo tão acelerado, onde tudo é substituído com facilidade, preservar itens com valor afetivo é um ato de resistência, de valorização da história e de consumo consciente.
Muitas vezes, esses objetos ganham novos usos com o passar do tempo. Uma janela antiga se transforma em moldura, uma cômoda se torna bancada de banheiro, uma máquina de escrever vira escultura decorativa. O que permanece, além da matéria, é a memória que habita cada peça.
A afetividade nos objetos também está nos aromas, nas texturas, nos ruídos. Um sino de vento que lembra a casa da praia, uma toalha bordada que remete aos almoços de domingo, o barulho de uma cadeira de balanço. São detalhes que se entrelaçam à arquitetura sensorial e tornam os espaços verdadeiramente vivos.
Acolher os objetos com memória afetiva no projeto não significa abrir mão do bom gosto ou da harmonia estética. Pelo contrário. Eles adicionam camadas de personalidade e autenticidade aos espaços, criando composições únicas e emocionalmente ricas.
É comum que os clientes relatem um sentimento de “pertencer” quando reconhecem seus objetos no novo projeto. Essa conexão emocional torna o espaço verdadeiramente habitável, um reflexo da própria alma. E quando o lar acolhe a alma, ele deixa de ser apenas um abrigo — e passa a ser extensão do ser.
Quando falo em memória afetiva, falo também sobre tempo. Sobre a importância de desacelerar, de observar os detalhes, de valorizar aquilo que é essencial e que, muitas vezes, passa invisível aos olhos, mas é imenso dentro do coração.
Projetar com esse olhar é ouvir com atenção. É perguntar ao cliente quais são seus objetos mais queridos. É entender o que eles representam, de onde vieram, e como podem dialogar com o novo. É, em última instância, fazer com que o espaço conte a história de quem vive ali, com afeto e significado.
A cada projeto, me permito aprender mais sobre essas conexões invisíveis. Tenho enorme respeito pelos objetos que acompanham meus clientes. Muitos me emocionam. Outros me fazem sorrir. Todos me ensinam. E é nessa troca silenciosa que construo ambientes que tocam, que abraçam, que acolhem.
A memória afetiva é o que transforma casas em lares. E, mais do que um conceito de design, ela é uma ponte para a identidade, a afetividade e o bem viver. Em um mundo cheio de ruídos, permitir-se viver entre objetos com história é encontrar poesia no cotidiano.

Mariana Meneghisso Granjeira, Esposa, 3X mãe. Arquiteta Urbanista pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo, Design de Interiores pela Escola Panamericana de Artes, Especialista em Perceptual Design pelo Instituto Politécnico de Milão. Pós Graduada em Responsabilidade Civil pela Fecaf, Pós Graduada em Neuroarquitetura pelo Ipog. Membro da Anfa Brazil, Academy of Neuroscience for Architecture. Titular, há 20 anos, do escritório Meneghisso e Pasquotto Arquitetura.