Casa Tupin: Arquitetura Integrada à Paisagem do Cerrado

Integrado à paisagem e às condições climáticas do local, o projeto reforça a continuidade entre os espaços internos e externos.

Em Brasília, a Casa Tupin estabelece uma relação particular entre arquitetura, terreno e paisagem. Projetada pelo BLOCO Arquitetos, a residência ocupa um terreno de 2.100 m² no Setor de Mansões Park Way, a cerca de 20 quilômetros do Plano Piloto. São 420 m² de área construída, implantados em meio à vegetação característica do cerrado.

Concluída em 2025, a casa parte de uma ideia simples, mas determinante para todo o projeto: em vez de tratar a paisagem como um cenário ao redor da construção, fazer com que ela participe da própria arquitetura.

O projeto começa pelo pátio

Essa intenção aparece logo na organização da planta. No centro da residência está um pátio que funciona como principal espaço de encontro entre os ambientes e o exterior. Piscina e churrasqueira ocupam esse vazio, que passa a funcionar como uma extensão do espaço social da casa. A partir dele, os diferentes ambientes estabelecem relações visuais e físicas com o jardim. Não existe uma única direção privilegiada para onde a casa se abre. Os espaços se voltam para o pátio e, através dele, para a vegetação.

Essa organização cria uma sequência de transições entre dentro e fora. Sala, áreas de convivência, pátio e jardim deixam de funcionar como espaços completamente separados e passam a formar uma experiência contínua. É essa relação que dá sentido à implantação da casa.

Uma casa que flutua sobre o terreno

Para reforçar essa integração, o projeto procura reduzir a presença da construção sobre o solo. Parte das lajes foi concebida de maneira semi-suspensa, permitindo que a vegetação continue sob a arquitetura e que o terreno mantenha sua continuidade. As lajes acompanham as pequenas diferenças de nível do lote e criam grandes planos horizontais que parecem se projetar sobre o jardim. O efeito é interessante porque combina duas características aparentemente opostas: a presença pesada do concreto e a sensação de leveza dos volumes suspensos.

A solução também estabelece uma relação mais cuidadosa com o terreno. Em vez de nivelar completamente o lote para receber a casa, a arquitetura se adapta às condições existentes e deixa que a paisagem permaneça presente em diferentes pontos da implantação. O cerrado, portanto, não termina onde começa a casa.

Estrutura que libera os espaços

Essa estratégia só é possível graças a uma estrutura cuidadosamente dimensionada. A residência é apoiada em apenas 12 pilares principais, associados a vigas perimetrais protendidas e elementos internos de suspensão. O sistema permite criar grandes balanços e liberar áreas internas de apoios excessivos. Mais do que uma solução de engenharia, a estrutura passa a determinar a própria experiência espacial da residência: quanto menos a construção precisa tocar o solo, mais livre se torna sua relação com o jardim.

A estrutura também contribui para o conforto ambiental da casa. O afastamento de determinadas partes da construção em relação ao terreno, combinado à configuração aberta para o pátio e aos elementos de fechamento permeáveis, ajuda a trabalhar sombra, ventilação e iluminação natural. Aqui, técnica e arquitetura não são decisões independentes. Uma depende da outra para que a ideia principal do projeto possa existir.

A materialidade reforça a ideia

O concreto aparente é um dos elementos mais marcantes da Casa Tupin. Presente na estrutura e em elementos como a piscina e a churrasqueira, o material permanece exposto, sem revestimentos que escondam sua textura ou seu caráter construtivo. Mas a casa não é definida apenas pelo concreto. O tijolo cerâmico introduz uma segunda camada de textura e cor, criando um contraste entre a superfície bruta e contínua do concreto e a escala menor e mais quente da cerâmica.

Em alguns pontos, os tijolos também funcionam como elementos permeáveis, filtrando a luz e criando uma relação menos direta entre interior e exterior. Em vez de simplesmente fechar os ambientes, esses painéis permitem que a casa continue visualmente conectada ao jardim. A combinação dos materiais é econômica em quantidade, mas rica em resultado. Concreto, tijolo, vidro, sombra e vegetação são suficientes para construir a identidade da residência.

A paisagem atravessa a arquitetura

É justamente nesse ponto que as diferentes decisões do projeto começam a se conectar. O pátio central aproxima os ambientes do jardim. As lajes suspensas permitem que a vegetação avance sob a construção. Os grandes balanços liberam os espaços. Os tijolos filtram luz e ventilação. E o concreto dá unidade à estrutura. Nenhum desses elementos funciona isoladamente. Juntos, eles fazem com que a casa seja percebida menos como um objeto colocado sobre o terreno e mais como uma estrutura que se organiza ao redor da paisagem.

Essa abordagem também estabelece uma conversa com a própria tradição arquitetônica de Brasília. A relação entre edifício, grandes áreas livres, sombra e vegetação sempre foi uma questão importante na arquitetura da cidade. Na Casa Tupin, essa relação aparece em uma escala mais íntima, aplicada à experiência cotidiana de uma residência.

Entre dentro e fora

A principal característica da Casa Tupin talvez esteja justamente nessa indefinição de limites. O pátio é externo, mas funciona como centro da casa. As lajes pertencem à construção, mas permitem que o jardim passe sob elas. Os painéis de tijolo protegem os ambientes, mas continuam permitindo a passagem de luz e ar.

São situações intermediárias que fazem a residência funcionar. Em vez de criar uma fronteira rígida entre interior e exterior, o projeto trabalha com diferentes graus de abertura. A experiência muda conforme se atravessa a casa: ora protegida pelo concreto, ora aberta para o céu, ora enquadrada pela vegetação. Essa sequência torna a paisagem parte da rotina doméstica, e não apenas algo observado através das janelas.

Uma arquitetura que encontra o lugar

Ao final, a Casa Tupin revela uma estratégia bastante coerente. A escolha do pátio determina a organização dos ambientes; a implantação determina a relação com o terreno; a estrutura permite suspender partes da construção; e os materiais dão expressão a essa solução. O resultado é uma casa de presença marcante, mas que procura não se impor sobre a paisagem.

Seu caráter está justamente no contraste entre a robustez do concreto e a delicadeza da implantação. A estrutura é precisa e pesada, mas os volumes parecem flutuar. A casa é construída com materiais fortes, mas permite que luz, vento e vegetação atravessem seus limites. Mais do que uma residência cercada pelo cerrado, a Casa Tupin procura construir uma experiência em que arquitetura e paisagem compartilham o mesmo espaço. É nessa continuidade entre casa, pátio e terreno que o projeto encontra sua identidade.

Ficha técnica

Projeto: Casa Tupin
Localização: Brasília, Distrito Federal, Brasil
Área construída: 420 m²
Área do terreno: 2.100 m²
Projeto: 2020–2023
Construção: 2023–2025
Arquitetura: BLOCO Arquitetos
Autores: Daniel Mangabeira, Henrique Coutinho e Matheus Seco
Coordenação: Victor Machado
Equipe: Maria Paula Dantas
Projeto estrutural: André Torres
Paisagismo: Mariana Siqueira
Iluminação: Dessine
Obra: Diretriz Engenharia
Fotografia: Joana França